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Dr Maximo

Odontologia ao extremo


Categoria: Saúde

Nos últimos anos venho aprendendo cada vez mais sobre como o corpo humano se adapta em altitudes e uma coisa que noto cada vez mais é um problema extremamente comum na altitude, a dor de dente. Vamos tentar explicar as possíveis causas e tratamentos para este problema tão chato.


Por Maximo Kausch 
Já tratei de dezenas de problemas odontológicos em altitude e inclusive já tive que fazer uma extração de segundo molar superior num companheiro a 5700m. Aos poucos tentei entender porque é que problemas dentários são agravados ou simplesmente aparecem nos infelizes escaladores de altitude que já tem vários problemas para lidar.
 
Pelo que reparei, estes problemas são mais comuns durante a primeira semana de permanência na altitude e geralmente aparecem acima dos 4000m. Porém podem também aparecer de forma aleatória a qualquer momento numa expedição.
 


Antes de culpar a altitude

 
Vamos com calma. Antes de aprofundarmos na altitude, vamos falar dos problemas que já podem estar ali. Vamos descartar algumas coisas óbvias antes de tudo.
 
Lembre-se que ao estar na montanha não podemos ser bons meninos e meninas pois não podemos escovar os dentes todos os dias. Logisticamente falando, escovar os dentes na montanha é algo extremamente exaustivo e fatigante. Imagine você chegar de noite, ter que cavar uma plataforma na neve, montar sua barraca, derreter neve por horas, preparar a comida e finalmente dormir de tão exausto. Porém antes disso você tem que escovar os dentes usando a preciosa água que custou tanto esforço em conseguir? Não culpo ninguém por não escovar os dentes nestas condições. Nossas prioridades são totalmente diferentes lá em cima.
 
Antes de culpar a altitude por qualquer problema na sua boca, revise seus planos de higiene oral e espero que você tenha tido o bom senso de ter revisado seus dentes antes de ir para uma expedição.
 
Confie em mim. Uma dor de dente pode colocar em jogo toda a sua longa preparação, planejamento e dinheiro que você investiu para estar ali. Já vi muitas pessoas tendo que abandonar seus sonhos por causa de uma dor de dente.
 
Aos que sim fazem revisões periódicas antes das expedições e mesmo assim tem problemas aqui vão algumas dicas. Quando você estiver com uma dor insuportável pensando em como você vai matar o seu maldito dentista, lembre das dicas que você aprendeu aqui no AltaMontanha.com
 

Manual de procedimentos odontológicos preventivos para dentistas

 
Lembre-se que dentistas passam por um longo e exaustivo treinamento de muitos anos. Neste tempo porém, eles nem ouvem falar da palavra altitude e nem pararam para pensar em como isso pode afetar o trabalho deles. A coisa piora quando você esquece de dizer que vai passar algumas semanas na altitude.
 
Primeiramente você deve entender que o maior agravante com que você vai lidar é a baixa quantidade de oxigênio. Em segundo vem a baixa pressão atmosférica, depois vêm o tempo de permanência, o seu estado psicossomático, como vai o seu time de futebol, quem saiu do Big Brother e assim por diante... Tudo isso influi na dor de dente! Vamos tratar dos mais importantes:
 

Influência da quantidade de oxigênio nas infecções

 
Infelizmente, a falta de mercado para pacientes que vão para a altitude fez com que dentistas nem se preocupem com este problema. Além disso, a literatura disponível para o tratamento deste tipo de infecções simplesmente não existe. Não culpo nenhum dentista por isso.
 
Em 2008 comecei a notar pela primeira vez que antibióticos que normalmente são eficazes no controle de infecções de canal ao nível do mar, misteriosamente param de funcionar na altitude. Finalmente anos mais tarde conversando com um cliente de uma expedição comercial que tive no Himalaia, o dentista alemão Dr. Sefranek, meus olhos foram abertos para o espectro de bactérias que temos que lidar. Segundo ele, antibióticos de amplo espectro como Amoxicilina devem ser utilizados em conjunto com antibióticos de espectro moderado como Metronidazole. Nos últimos 2 anos decidi experimentar essa teoria em campo e várias cobaias, quero dizer, clientes, aprovaram a medida.
 
Bocas humanas contém um verdadeiro ecossistema de seres vivos. São predominantemente bactérias mas também existem fungos e protozoários. Ainda nem se sabe exatamente quantas ou quais são todas as bactérias que habitam a boca humana. A coisa é tão complexa que existe até competição de classes diferentes de bactérias. Qualquer mudança matiz da boca faz com que umas ou outras bactérias prevaleçam. Mudanças de PH causam extremas alterações no meio ambiente da boca. A simples adição de pasta de dente e uma escovada causa um imenso transtorno em várias famílias de bactérias.
 
Uma das maiores mudanças que pode acontecer numa boca é diminuir a quantidade de oxigênio do ambiente. E é exatamente isso que acontece na altitude. Mudar o oxigênio faz com que a população de bactérias aeróbicas diminua, que a população de anaeróbicas facultativas migre temporariamente para regiões de menos oxigênio e com que a população de bactérias anaeróbicas obrigatórias se multiplique.
 
Infecções podem já estar presentes na sua dentição e serem agravadas ou podem simplesmente brotar após o aumento repentino de bactérias de uma categoria diferente da que prevalecia em outra altitude. A infecção ´espontânea´ seria portanto causada pela diminuição da quantidade de oxigênio por porção cúbica no ar local e agravado por um baixo sistema imunológico, comum em grandes altitudes.
 
Diagnose
 
O primeiro sintoma que vamos reparar será a dor de dente. Esta é geralmente forte e constante e muitas vezes piora durante a noite. Existem diversas condições que podem causar este tipo de dor. Isso vai de uma simples cárie até um canal infeccionado ou mesmo um abscesso. A maioria destas dores pode ser estabilizada com algum analgésico forte (ex. ibuprofeno) ou mesmo qualquer remédio forte para dor como opióides ou qualquer outro que não comprometa o sistema respiratório do paciente, algo muito importante em grandes altitudes.
 
Uma contaminação de canal ou um abscesso por exemplo é algo que pode ser medicado por você mesmo na montanha usando antibióticos. Além da dor, estas infecções caracterizam-se por produzir inchamento, febre local e/ou pus. Infecções dentais de maior porte produzem o inchamento das amígdalas.
 
Tratamento
 
Se o sintoma, além da dor, é inchaço, febre local, produção de pus e/ou inchamento das amígdalas, podemos assumir que você estará tratando de uma infecção. Como o Dr. Sefranek falou, para infecções em nossa dentição em altitude é uma boa idéia utilizar Amoxicilina combinada com Metronidazole tentando assim cobrir um maior espectro de bactérias. Consulte um dentista para definir a dosagem adequada de cada antibiótico.
 

Influência da pressão atmosférica

 
A pressão atmosférica afeta tudo na sua boca que conter qualquer tipo de gás. Uma lacuna dentro do cimento de uma restauração por exemplo, pode ser um exemplo clássico de dor causada por altitude.
 
Muitas pessoas descrevem que tem dor de dente dentro de aviões e voltam ao normal logo após o pouso. Neste caso, a cabine é pressurizada a 2500-2700m. Imagine a 7000!
 
Há que lembrar que em certas infecções existe produção de gás, principalmente CO2. Em grandes altitudes, a quantidade produzida é a mesma, o volume porém será de 2 a 3 vezes maior do que o nível do mar. Isso irá gerar muita dor.
 
Diganose
 
Este tipo de dor aumenta repentinamente e é constante enquanto você estiver acima de certa altitude. Ao descer ela desaparece. Não existe uma altitude fixa para definir onde pode começar ou terminar este problema. A dor não muda com diferenças na temperatura de líquidos ou com doces.
 
Tratamento
 
Infelizmente não há nada que você, pobre escalador(a), poça fazer com os seus precários meios numa montanha. Sua única saída é ingerir analgésicos para diminuir a dor. O tratamento pode ser feito por um dentista da seguinte forma:
 
Cimento deve ser aplicado por finas camadas e ser polimerizado após cada aplicação. Prefira ligas mais líquidas para evitar a produção de bolhas de ar.
 

Exposição da dentina através de fraturas ou cáries

 
Este tipo de dor geralmente aparece após a mastigação de alimentos e permanece por aproximadamente meia hora. Ar e líquidos frios ou quentes produz uma dor aguda e temporária no dente até que este volte à sua temperatura normal. O contato do dente afetado com qualquer alimento ou líquido doce, também produz dor temporária. Uma dor forte na hora de morder pode ser sinal de uma cárie ou fratura.
 
O principal problema em diagnosticar uma fratura é que esta pode ser invisível e você vai ter que se guiar somente pelos sintomas. Percussão com uma ferramenta de metal pode ser útil para identificar o dente afetado através da dor.
 
Tratamento
 
Esta dor pode ser estabilizada com algum tipo de cimento temporário como IRM. A idéia desta solução é estabilizar o PH da região exposta e isolá-la do resto da boca.
 
Obviamente estas são soluções temporárias para você continuar escalando e requerem a atenção imediata de um dentista de verdade.
 
Se você não tem nenhum cimento, deverá usar algum mecanismo que estabilize o PH local.  Há muitos anos venho tratando problemas dentais em montanhas com algodão e óleo de cravo. Apesar de ser considerado uma receita caseira, este óleo é de venda livre, barato e abundante em qualquer país. Se você não tiver nem isso, utilize um pouco de sal e água morna para reduzir a dor temporariamente.
 
Note que sem a utilização de algum tipo de cimento, a dor pode permanecer por semanas e impossibilitar a sua expedição.
 
Um kit odontológico básico para sua expedição:
 
- Cimento temporário como IRM e catalizador
- Uma espátula para o cimento
- Algodão
- Espelho odontológico
- Óleo de cravo
- Amoxicilina 500mg
- Metronidazole 400mg
- Ibuprofeno ou similar


Bibliografia e leitura complementar:
 
Culturable aerobic heterotrophic bacteria from high altitude, high latitude soil of La Gorce Mountains (86°30´S, 147°W), Antarctica de Jackie M. Aislabie, Paula Broady e David J. Saul




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