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Entrevista

Sergio Tartari e a evolução da escalada brasileira


Categoria: Entrevistas

Sergio Tartari é um dos mais experientes escaladores brasileiros. Conquistador de vias épicas, que até hoje alimentam medos e mitos de escaladores, Serginho foi muito mais do que isso. Ele esteve presente em diversos movimentos da escalada brasileira e representa muito bem o país em viagens e conquistas brasileiras no exterior. Conheça melhor este carioca que é uma lenda viva do montanhismo.

Por Pedro Hauck

Temporada em Salinas. Entre uma escalada e outra, o tempo ocioso gasto no refúgio para se recuperar da parede é uma boa pedida para contar histórias de montanhas e roubadas. De todos os papos de montanha, aquele que mais atrai escaladores de todo o Brasil e também de fora, que se juntam todos para ouvir de maneira bastante vidrada, são as estórias contadas pelo dono do refúgio, ninguém mais ninguém menos que Serginho Tartari.

Sérgio é uma lenda viva, é também um oráculo, que sabe tudo de todas as vias dos Três Picos. O que para muitos é a maior aventura de suas vidas, para Serginho é algo trivial, longe de diminuir as dificuldades e desafios do local...

Ele conquistou algumas das vias mais difíceis e míticas do Brasil, apenas pra citar: Terra de Gigantes na Pedra do Sino, O Galo Cambou no Cantagalo de Petrópolis, Disk Dique no Pico Maior, Tragados pelo Tempo no Corcovado, Al Abordaje no Pilar Casarotto do Fitz Roy e outras centenas de vias tanto no Brasil quanto no exterior. Isso tudo além de suas experiências em outros locais da Patagônia argentina, chilena, Andes do Peru, Yosemite, Tepuys da Venezuela e até no Paquistão...

Entre uma pizzada, uma escalada e sua mais nova mania, fabricar cerveja artesanal (uma delícia!), conseguimos gravar uma entrevista onde Serginho fala de sua vida e suas escaladas. Conheça um pouco deste grande figura:

AltaMontanha: Pergunta básica: O que te levou para o mundo da montanha?

Sergio Tartari: Eu comecei em 1979, com 17 anos. Fiz minha primeira escalada, uma subida pelo costão do Pão de Açúcar, com meu irmão (Giovani) e um amigo, o Robson que era do Centro Excursionista Brasileiro. Fizemos o “curso de adestramento”do CEB e comecei a escalar com bastante freqüência. Do pessoal que deu o curso, me lembro do Berardi, do resto, ninguém mais tá em atividade. Eu já tinha uma vida bastante natural, meus pais tinham casa em Maricá e eu pescava, caçava e subia uns barrancos, que dávamos até nome. Talvez aí esteja as origens da minha escalada, dependendo do conceito de escalada...

AM: Sua primeira escalada foi uma ascensão de “aventura” no Pão de Açúcar, quando você começou a evoluir no grau?

ST: Bom, durante o próprio curso, eu conheci pessoas e comecei a fazer escaladas independentes, o que criou um certo problema dentro do Clube. Naquela época o pessoal era bastante conservador e quem saísse um pouco das normas do clube ficava mal visto, era chamada atenção e tal... Foi o que aconteceu comigo. Rapidamente a escalada mexeu comigo, comecei a escalar bastante e quando eu vi, na sexta ou sétima escalada eu já tava guiando e dali pra frente eu sempre guiava, o que me possibilitou aprender rápido.

AM: Qual foi a “fuga da norma” que te chamaram atenção no Clube?

ST: A fuga foi que já durante o curso de adestramento eu já estava marcando de escalar com outras pessoas e isso gerou um mal estar, pois não poderíamos estar fazendo isso. Aquilo foi interpretado como um ato de anarquismo na época. Depois eu fiquei maior de idade e dei um chega pra lá no pessoal. Criei ótimos amigos no clube, mas ficou um clima estranho, o que é compreensível, pois eu era um moleque atirado. Acabei saindo do clube e indo pra outro. Já fui do Centro Excursionista Carioca, depois do Centro Excursionista do Rio de Janeiro, já fui do Petropolitano e depois não me filiei a clube nenhum...

AM:
Quais eram os equipamentos que vocês usavam nesta época?

ST: Escalei muito de kichute que eu cortava as travas da frente, sem maguinésio, que na época não existia, isso por 3 anos. Em 82 pra 83 surgiu a sapatilha EB, depois a Firé, da Boreal. Fomos adquirindo estas sapatilhas e isso ajudou muito na evolução juntamente com o material. Os friends eu comecei a usar em 1983, com a influência de um americano que veio morar no Rio chamado David Austin que mostrou pra gente este material.

AM: Você falou de 1983, ano em que André Ilha lançou o Manifesto da Escalada Natural. Como foi este contexto?

ST: Este foi um movimento que teve bastante gente contra, pois as pessoas dos clubes eram bastante conservadoras e eles não viram isso com bons olhos, criando uma certa problemática. O André foi um figura importante, pois ele deflagrou a necessidade de evolução com este manifesto e foi muito importante para todos nós que estávamos até o pescoço com a escalada, vendo as notícias de fora e tentando evoluir de alguma maneira. Então isso foi uma coisa bem interessante que aconteceu, pois reforçou esta necessidade e ajudou bastante a elevarmos o grau das escaladas.

AM: Você já tinha em mãos alguns friends, já tinha sapatilhas e algumas experiências. As idéias da escalada natural te motivaram a enfrentar novas linhas? Conquistar novas vias em um estilo moderno e arrojado?

ST: Foi realmente o que aconteceu. Em 1983 eu abri várias vias, no Rio e aqui em Salinas. A Arco da Velha, por exemplo, é de 1983. Foram várias vias: Aquarius, Verdura da Gávea, Tragados pelo Tempo, Lacas também amam, Revolta dos Gravatás, Pássaros de Fogo, Xeque Mate, Argus...  Meus parceiros foram o Carlinhos, meu irmão, Marcelo Braga, Alexandre Portela, Jorjão, o próprio André Ilha, com quem fiz algumas coisas...

AM: Um dos episódios mais marcantes da evolução da escalada esportiva no Brasil foi a conquista e popularização da Falésia dos Ácidos. Você teve participando dessas escaladas. Em que ano foi e como foi este movimento?

ST: Foi a partir de 83, daí toda a década de 80 a gente escalou bastante nos Ácidos, que ficou na moda. Era uma escalada atlética, curta, de fácil acesso, onde se começou a criar o conceito de falésia. Os ácidos foi realmente o inicio dessa onda de dificuldade. Até hoje ali tem umas vias bem difíceis, com oitavo grau, nono... que nessa época a gente já fazia! Também tinha a Pedra do Urubu, que fez parte desta história.

AM: Então vocês viam na falésia uma maneira de evoluir no grau e técnica para depois repetir vias de parede mais comprometedora como, por exemplo, a Arco da Velha?

ST: Não, não. São escaladas completamente diferentes. A Arco mesmo é uma escalada moderada, apesar da extensão. Nos ácidos não, era uma coisa de esportiva que a gente tinha junto da cidade. Íamos rapidinho lá, numa tarde, depois do almoço mesmo, com qualquer tempo livre, fazer pele nos dedos e fazer força. Hoje em dia ninguém mais escala lá. Houve um reflorestamento, as árvores cresceram em cima de algumas vias e o local saiu de moda. Hoje em dia também têm várias outras opções e os Ácidos caiu em desuso. O local, no entanto, ajudou bastante a gente a evoluir no grau técnico.

AM: Bom, você começou a fazer escaladas difíceis, abriu vias comprometedoras, tanto no Rio, quanto aqui na Serra. Quando você começou a viajar pra fora? Como foram estas experiências iniciais?

ST:
No meio da década de 80 fomos pra Córdoba, na Argentina, para participar duma primeira comitiva brasileira para competição. Fui eu, o Marcelinho Braga, o Alexandre, Marcelo Ramos, Nativo e Julio Nogueira. O Campeonato foi em Los Gigantes, na rocha mesmo! Quem ganhou foi o Sebastián de La Cruz com o Marcelo Braga, que ficaram empatados. A vitória foi pro Sebastián, mas foi manipulado, pois eles empataram. Foi uma treta dos argentinos... (risos).

AM: E nesta viagem a Los Gigantes você aproveitou pra fazer alguma parede, rolou alguma conquista?

ST: Não, não. Aí, em 1990 eu fui pra Chaltén, acabei participando da expedição em que o Alexandre e o Bito fizeram o Fitz Roy, mas eu não escalei. Depois fui pra Bariloche e logo depois vim morar aqui. Eu comecei a viajar pra fora a partir de 93, quando fui ao Paine (Chile), onde fiz a Torre Norte. Enquanto isso eu sempre ia abrindo via aqui, que foram consideradas míticas, como a “The Wall” e a Cabeça de Dinossauro, mas não tinha aberto via nenhuma fora do país. Fui em 96 pro Mali (África), depois voltei pro Paine em 97. Depois peguei uma freqüência com viagem, quase todo ano.

AM: Esta expedição ao Mali foi a primeira expedição brasileira para escalar um torre de rocha na África?

ST: Não sei se na África, mas no Mali com certeza. Fui contactado pelo Eliseu Frechou, que teve a idéia de fazer uma via no Kaga Tondo. Inclusive a idéia original não era essa, era o Salto Angel. Ele foi pedir autorização na Venezuela, naquela época já não era permitido escalar por lá. Ele pediu de forma formal e tomou um não! Aí mudamos os planos e fomos parar no Mali, onde abrimos a “Solução Suicida”, um A4 bem interessante.

AM: Foram quantos dias de parede lá na África?

ST: Foi mais ou menos uma semana, um pouco menos. A gente voltou pra base também. Tinha um platô bom na terceira enfiada, foram 11 enfiadas de corda! Deu pra abrir bem a via, apesar de ter sido a primeira expedição no verão do Mali, isso ninguém tinha feito antes! Se lá já é um lugar bem quente no inverno, imagine no verão! A temperatura ia fácil pra 45º e isso aí foi uma dificuldade a mais.

AM: Aí depois foi chegando o ano 2000, pra onde mais vocês iam?

ST: Começamos a ir bastante pra Cochamó com o Chiquinho (José Luis Hartmann), pra abrir bastante via por lá. Íamos bastante pra Chaltén também, fazer algumas agulhas... Surgiu a oportunidade de ir pro Trango, fomos em 6 pessoas, 3 fizeram cume, 3 não, eu fui um dos que não chegou. Fomos pra Yosemite, depois pro Peru, onde escalamos uns 5 mil e a Esfinge... Mas Cochamó foi bem significativo, o lugar era quase virgem, conquistamos muitas vias longas por ali, foi bem legal, pois poucos tinham escalado no local e desbravamos e exploramos bastante por lá.

AM: Então você e o Chiquinho revelaram para o Brasil estas escaladas que ainda não eram conhecidas?

ST: Quando a gente estava em 97 no Paine, uns ingleses, que foram os primeiros a escalar em Cochamó, falaram pra gente do lugar. Diziam que as paredes eram lindas, parecidas com Yosemite e que era perto de Puerto Montt. A gente ficou com aquilo na cabeça e como era uma fase em que a gente queria explorar, combinamos e no ano seguinte fui eu, ele, uma galera daqui do Rio, Pita, Ralf e o Marius Bagnatti de Santa Catarina. Abrimos um big wall bonito, a “Mucho Granito Arriba”, de 17 enfiadas. Foi uma experiência bem boa. Abrimos mais uma e no ano seguinte voltamos de novo, abrimos duas, três ou mais... O Chiquinho seguiu indo lá e abriu mais vias. Cochamó foi um lugar bem simbólico pra gente, bem representativo.

AM:
Como foi a experiência da expedição ao Paquistão em 2001 para escalar a Trago Tower?

ST: Era a primeira vez que eu ia pra altitude. Eu tenho uma adaptação pouco lenta e as coisas aconteceram um pouco rápidas demais e não tive tempo pra estar bem pra parede. Meus parceiros, no entanto, se adaptaram mais rápido e seguiram a escalada. Não tinha outra, a escalada estava em primeiro lugar, era uma equipe grande e assim o Bonga, o Irivan e o Waldemar fizeram o topo e eu, o Alexandre e o Chiquinho não. Cada um teve seu problema com a altitude e assim alguns fizeram e outros não. Foi assim, no final a equipe teve sucesso e foi isso o que importou.

AM: Foi muito difícil a escalada?

ST: A via não era técnicamente nada muito difícil, bastante vertical, mas factível, nada de outro mundo. A altura dificulta, o clima é bom.

AM: Você acha que o Trango, por conta do clima, é de repente, mais fácil que uma escalada na Patagônia?

ST: Tem o fator altitude, pra mim não é. Não sei se é mais fácil, é relativo... Difícil fazer uma comparação. No Trango você tem toda uma logística de expedição que na Patagônia é simplificado, não dá nem pra comparar. O Paquistão é um país um pouco conturbado, tem a viagem até a montanha, isso tudo tem uma logística que não é tão fácil. Não é simplesmente pegar o ônibus e ir, não é assim não. Isso tudo faz parte da dificuldade.

AM: Bom, falamos então do Fitz Roy e de Chaltén, que desde a década de 90, você freqüenta. Comente um pouco suas experiências nestas agulhas patagônicas.

ST: Primeiro eu escalei no Paine, que é Patagônia chilena e bem similar. Escalei em 93, Torre Norte, 97 fiz com o Chiquinho uma tentativa na Torre Central, não deu. 98 fui com o Alexandre Portela e um espanhol na mesma torre e saiu. Fiz ainda uma tentativa na Torre Sul, mas tivemos que descer. Eu voltei a Chaltén em 2002, por aí. Fui com o Chiquinho, fizemos a Saint Exupery, fiz com minha esposa, a Rosana, a Agulha Rafael Juarez. Voltei em 2006, fui sozinho, escalei com o Pira de El  Bolsón, a Agulha Guillaumet e a Mermoz com o Dalinho e outro amigo. Voltei em 2009, fiz duas vezes a Guillaumet. Em 2010, o Luciano me chamou, ele tinha a idéia de abrir uma nova via no Pilar Casarotto, eu achei interessante a idéia e a gente foi. Foi a via mais comprometedora que eu abri até hoje por vários fatores, o climático, o próprio estilo que a gente foi, totalmente alpino, sem conhecimento prévio e uma parede super longa, 1000 metros de escalada, 25 enfiadas. Foi uma super aventura, com o tempo incerto, ventoso, 4 dias na montanha, inesquecível: Al Abordaje.

AM: Depois desta escalada super difícil, você ainda voltou pra Friburgo, pegou a catástrofe das chuvas de janeiro e ainda foi pro Salto Angel? Como foi este meio de tempo que deu tanta coisa errada, como o rio do lado da sua casa quase engolindo o refúgio e outros problemas?

ST: Pra começar, em Chaltén houve a perda de nosso amigo Bernardo Collares. Isso já foi bastante triste e me afetou bastante. Depois eu tive que chegar aqui no Brasil, ir pro clube e contar a história triste pro pessoal, pois eu fui o primeiro a chegar, isso pra mim foi bastante pesado. Na seqüência, vieram as chuvas devastadoras, que destruiu bastante coisa aqui na região e matou muita gente. Isso me deixou bastante em dúvida se eu iria ou não pro Salto Angel, mas a coisa já estava armada há alguns meses e eu resolvi ir, deu tudo certo. A escalada da Patagônia foi de um desafio de comprometimento inigualável e esta do Salto Angel de desafio técnico inigualável, pois era tudo em móvel, logística de Big Wall complicada. A gente levou 220 litros de água pra cima, comida, vários metros de corda, equipamentos, tudo isso fez parte da dificuldade além da dificuldade técnica e exposição da via, muita pedra podre e pouco confiável, escalada tensa! Por sorte a equipe era muito boa e um tanto numerosa. Dividimos a via em 4, e todos guiaram o que foi vital para o sucesso da escalada.

AM: E agora Serginho, você já está com quarenta e tantos anos, já fez diversas escaladas top em nível mundial, já está com cabelos brancos... Pretende continuar com estas escaladas de compromisso? Quais são seus planos?

ST: Eu nunca planejei muito as coisas, as escaladas na minha vida foram acontecendo de forma meio anárquicas. Eu aceitei convites, tive sorte em alguns, falta de sorte em outros... Não tenho projetos em vista. Sinto prazer de abrir vias comprometidas como esta agora no Fitz, ou fazer qualquer via aqui no Pico Maior, isso me completa. Qualquer escalada me faz bem, então não tenho necessidade de fazer coisas cada vez mais e mais... Posso estar tranqüilo, quanto posso fazer coisas novas, então deixo as coisas acontecer naturalmente. Sempre foi assim e acho que vai continuar assim. Sem muito planejamento, mas com dedicação quando tem que ser.

AM: Alguma mensagem final?

ST: Ahn, uhn... não sei.. mensagem?
Escalem por prazer, não muito além disso... (risos)




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