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O adeus ao oitomilista coreano

Park Young Seok, oitomilista coreano


Categoria: Personalidades

“A natureza é sempre amedrontadora. Mas acima de tudo, eu sinto medo de mim mesmo. A maior das batalhas não é contra a montanha, mas a luta contra a arrogância e contra a tentação de desistir“ (Park Young-Seok, em 2005).

por Rodrigo Granzotto Peron

Infelizmente o himalaísmo extremo é altamente arriscado, e muitos visionários acabam pagando com a vida na tentativa de estabelecer novos limites para o montanhismo.

Falo essas linhas iniciais para mencionar o nome de um dos maiores alpinistas da história da Ásia, um sul-coreano pouco conhecido no ocidente, e que infelizmente desapareceu nas encostas da Face Sul do Annapurna no dia 20 de outubro: Park Young-Seok. As tentativas de resgate, envolvendo verdadeiro batalhão de alpinistas e sherpas, foram infrutíferas até o momento, e há pouca esperança de que seja encontrado com vida.

Park nasceu em 2 de novembro de 1963, em Hanja, Coréia do Sul. Iniciou no alpinismo em 1989, com a escalada do Langshisa Ri (6427m). Sem dinheiro, teve que vender todo o equipamento e o relógio para poder comprar a passagem aérea de volta para a Coréia do Sul. No ano seguinte, casou, e utilizou o dinheiro ganho como presente de casamento para custear sua escalada no Langtang Ri (7025m).

Conseguiu um patrocinador, o que lhe possibilitou escalar todos os 14 cumes 8000, iniciando com o Everest em 1993, e terminando no K2, em 2001, quando se tornou o oitavo a completar todos os 14.

Sua maior fascinação sempre foi o Everest. Tentou-o no inverno, em 1991, sem cume. Tentou por cinco vezes a monumental e dificílima Face Sudoeste, onde abriu uma nova rota em 2009, um capítulo épico e importantíssimo para o alpinismo sul-coreano. Ainda, no Everest, fez a travessia, em 2006, do Flanco Tibetano para o Nepalês. Ao todo, conquistou a maior das montanhas por três vezes, e por três rotas diferentes.

Participou, assim, de 37 expedições a montanhas 8000, e pisou no cume de alguma delas por 18 vezes. É o único alpinista a ter conquistado cinco 8000 num mesmo ano (em 1997, ele encadeou o Dhaulagiri, Gasherbrum I, Gasherbrum II, Cho Oyu e Lhotse em menos de seis meses).

Apesar da fama em sua terra natal, não se acomodou, e seu espírito aventureiro sempre falou mais alto. Também concluiu os 7 Cumes, em 2001, e conquistou o Pólo Sul (em 2004) e o Pólo Norte (em 2005), para se tornar a primeira pessoa a coroar a versão completa do Grand Slam do Aventurismo (que consiste nos catorze 8000, mais os 7 Cumes e mais os dois pólos). Essa façanha jamais foi repetida.

A partir de 2007, resolveu retomar o seu projeto de desenhar novas e complexas rotas em alguns dos paredões mais íngremes e difíceis da Ásia. Seus dois sonhos eram a Face Sudoeste do Everest e a Face Sul do Annapurna. A primeira foi conquistada em 2009, após cinco tentativas, durante as quais Park perdeu três colegas, mortos em avalanches. A segunda foi tentada em 2010, mas o coreano teve que abandonar a expedição para participar do funeral de sua mãe. Retornou em 2011, com a mesma equipe que conquistara a Face Sudoeste do Everest. Fez três investidas na montanha, atingindo a quota máxima de 6400 metros. Após a última tentativa, fez contato com o campo-base, narrando que o vento estava muito forte, havia muita queda de pedras, e avalanches perigosas. Resolveu então descer, quando, por volta dos 5900 metros, foi colhido por uma gigantesca avalanche. Os três integrantes da cordada - Park Young-Seok, Shin Dong-Min e Kang Ki-Seok - não foram mais vistos desde então, e o mundo do montanhismo encheu-se novamente de luto, em um ano particularmente difícil, com várias mortes trágicas (Erhard Loretan, Takashi Ozaki, Walter Bonatti e Sepp Larch, entre muitos outros).

O Annapurna é um grande nêmesis para a Coréia do Sul. Ao todo, dezesseis alpinistas daquele país conquistaram a décima montanha mais alta do planeta, e sete morreram tentando, o que dá um grau de fatalidade de quase 45% (ou seja, de cada dois coreanos, um foi vítima do Annapurna).

Fica aqui as sinceras condolências à família dos alpinistas mortos, e uma singela homenagem a um dos meus montanhistas preferidos da Ásia.




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