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Conforto acima de tudo!

O que vestir em alta montanha?


Categoria: Equipamentos

Escalar uma montanha de altitude significa enfrentar diversos ambientes. Geralmente o leigo acha que a única roupa que usamos numa montanha deste tipo é a de frio extremo, no entanto é necessário estar preparado para várias situações. Conheça o que a indústria de produtos de montanha desenvolveu para que possamos escalar com mais conforto e menos peso.

Por Pedro Hauck*

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Preparar a mochila para ir à montanha é uma tarefa difícil, pois requer planejamento para saber o que levar na medida certa, ou seja, levar o necessário e assim não ter que carregar peso à toa. Afinal, quando escalamos, estamos desafiando nossos limites e é importante buscar a otimização do conforto.

Quando falamos em “conforto” na alta montanha, estamos falando de algo diferente do conforto daqui de baixo. Este conforto pode ser resumido em poucas palavras: estar seco, não sentir frio e nem sentir calor.

Para ter conforto e atingir um equilíbrio entre o excesso e a falta de vestimentas, devemos controlar o que levamos. Após cada acampamento, devemos analisar quais e quantas roupas foram utilizadas e quais não. A partir daí, verificar o porquê não terem sido usadas, e é aí que pesa a experiência nesse assunto...

Na hora de adquirir o equipamento e as roupas, deve-se dar preferência aos de pouco peso, pois isto fará uma grande diferença acima dos 5 mil metros, onde o ar é rarefeito e os efeitos da altitude são inevitáveis. Pode significar alcançar ou não o cume.

Vestimentas para montanhismo

A indústria de equipamentos de montanha é extremamente inovadora e investe muito em tecnologia. Isso fez com que as roupas para frio em geral sofressem uma revolução tanto no design quanto no material. Muitos falam que as marcas de montanhas são caras. No entanto se for considerar os esforços e o avanço de tecnologia que elas acrescentaram, acabam por serem baratas, ainda mais se for comparar com marcas de grife que ainda usam materiais tradicionais da tecnologia do Peru ou do Egito antigo (algodão, lã e etc...).

O algodão pode ser muito agradável quando seco, mas perde sua capacidade isolante quando molhado. Assim ele já protagonizou diversas tragédias provocadas pela hipotermia. A Lã é um bom material para aquecimento, mas assim como o algodão é ruim quando molhado, pois fica pesado e surte um efeito contrário, não mais aquecendo a pessoa. Calça jeans nunca sai de moda, mas na montanha moda não importa. O Jeans quando molhado fica muito pesado, não é nada impermeável e dificulta os movimentos. Roupas com estes materiais não são feitos para montanhismo.

Não é difícil perceber por que o montanhismo impulsionou a evolução da tecnologia das vestimentas. Na montanha, enfrentamos calor na base, frio no cume e ainda podemos enfrentar chuvas torrenciais, nevasca ou fortes vento. Se a montanha tiver vegetação, vamos enxugar toda a água retida nas folhas.

É... Conseguir ter “conforto” na montanha, mesmo naquela simples definição acima afirmada, é difícil. Para piorar, a roupa não serve somente para um simples conforto. Estar seco, não sentir nem frio e nem calor é uma questão de segurança, de permanecer vivo, evitando uma hipotermia, desidratação ou insolação. Por uso inadequado de roupas, muitas pessoas ficaram nas montanhas.

O sistema de camadas

Um sistema simples criado pelo montanhismo que acabou virando um conceito é o sistema de camadas. Com elas, você pode melhorar a efetividade e versatilidade de suas vestimentas onde cada camada tem uma função diferente. Essas camadas permitem uma melhor adaptação às flutuações da temperatura da montanha e a vantagem que uma ou outra pode ser removida para sempre proporcionar conforto, em qualquer condição de tempo.

Isso se estende a todas as roupas, inclusive, e principalmente, às meias, o que na altitude é fundamental para não congelar os pés.

O equipamento básico de roupas de montanhas está composto de três tipos de camadas:

1- Segunda Pele

Esta camada fica em contato direto com a pele e deve permitir a transpiração, sem absorver a umidade, mantendo a todo momento a pele seca. Este processo de "expulsão" da umidade pode ser vital para manter o calor, já que as roupas úmidas em contato com a pele, deixam escapar o calor em uma velocidade 25 vezes superior, comparado com a roupa seca.

A roupa interior (segunda pele) de cores escuras absorve mais o calor, mantendo o corpo mais quente e seca ao sol mais rapidamente. As cores claras absorvem menos o calor, sendo mais indicadas para os dias quentes.

Não se esqueça: para garantir que sua função seja cumprida, as roupas de segunda pele têm a característica de ser coladas na pele.

2 - Camada de Aquecimento

Serve para manter uma camada de ar quente próximo ao corpo. Quanto mais grossa seja a camada de ar, mais quente estaremos. Geralmente se mantém melhor o calor com várias camadas intermediárias sobrepostas do que com apenas uma, pois quanto mais camadas de roupas, mais camadas de ar.

Em condições frias, é importante levar várias camadas isolantes, tanto para a parte superior, como para a parte inferior do corpo. As capas da parte superior podem ser camisetas interiores grossas de manga comprida, seguidas de blusas polar (que no Brasil chamamos de fleece). Para as pernas, calças de tecido polar.

Esta camada fica muito importante nos dias de cume, quando enfrentamos muito frio. O melhor material para frios extremos é ainda a pluma de ganso, pois elas se expandem e formam o melhor isolante térmico que existe, o ar.

Por isso, quando mais pura for a pluma, melhor ela é. Esta pureza é dado pelo “Fill Power” da sua jaqueta. Quanto maior, mais denso e mais quente ela será.

As calças da segunda camada são peças relativas. Nossas pernas não são muito irrigadas, ou seja, se você for perder calor do corpo, ela não será pela perna. Por isso muitas vezes não usamos esta camada para membros inferiores, pois a segunda pele dá conta do recado ao manter o calor do corpo. Ou seja, para membro inferior, uma boa calça de trekking, sendo bem interessante uma “calça bermuda”, feita de um material sintético, com ou sem proteção de cordura (isso é apenas para melhorar a durabilidade delas), é o ideal. Lembre-se que no montanhismo temos que ter movimentos livres. Calça jeans nem pensar...

3 - Camada Impermeável

Deve proteger contra o vento e a chuva ou neve, elementos que podem provocar perda de calor num ritmo alarmante. Esta camada provocou uma polêmica, pois quanto mais impermeável ela era, menos respirável se tornava. Ou seja, o sujeito enfrentava chuva, mas se molhava com seu suor. Com o desenvolvimento das membranas impermeáveis e respiráveis, como o Goretex, (e muitas outras ainda melhores no mercado), foi possível solucionar quase que completamente este problema.

No entanto, é necessário estar atento ao design de sua jaqueta impermeável, o que chamamos de “Anorak”. Para ser de fato mais eficiente para todos os climas, é bom que ela tenha um zíper embaixo do braço para melhorar a transpirabilidade. Fabricantes muito visionários fazem jaquetas muito finas e bastante tecnológicas. Fique atento, pois muitas vezes o equipamento mais fino e leve acaba tendo uma resistência e durabilidade menor.
 
Outra coisa é que por mais que a tecnologia dos impermeáveis tenha evoluído muito ao longo dos anos, o verdadeiro equipamento impermeável nunca vai ser transpirável. Alguns ambientes como os florestais, são bem complicados para estas jaquetas. Isso por conta das folhas molhadas, pois quando andamos nas trilhas, acabamos “enxugando” elas. Neste quesito, quando mais grosso o tecido melhor e nem sempre o mais novo e mais tecnológico é o mais adequado para este ambiente. O que é diferente na alta montanha, onde definitivamente não há vegetação.
 
Muitos montanhistas possuem diversos anorak´s. Para alta montanha utilizamos um anorak mais grosso, que permite melhor resistência ao vento forte. Os mais finos (que são quase corta ventos) usamos com mais frequência durante escaladas em rocha, quando as vezes pegamos uma chuva inesperada ou vento frio. Já para caminhadas na serra do mar, um anorak mais emborrachado, que aguenta o tranco até limite mais alto é o mais indicado, pois este ambiente é o terror dos fabricantes. Lá, a melhor estratégia não é mais se manter seco, mas sim levar um material que seca mais rápidamente.

Abaixo, seguem algumas dicas para você comprar um anorak:

- ter em mente que a roupa deverá ficar folgada o suficiente para levar várias camadas por debaixo dela;

- ter capuz e ter uma proteção no pescoço, ajustável, para que em caso de chuva, a água não escorra para dentro;

- o capuz deve ser grande o suficiente para levar em baixo um gorro ou um capacete de escalada;

- aberturas ajustáveis na parte dianteira, com aberturas nas axilas que possam ser utilizadas para ventilação e que possam ser fechadas em caso de muito frio;

- costuras seladas e bem protegidas;

- bolsos facilmente acessíveis até para quando se utilizam luvas e mochila nas costas. Se você for escalar, a cadeirinha irá impedir os bolsos mais baixos, então procure uma anorak com bolso na altura do peito.

-mangas que cubram bem e cheguem até às luvas, com fechamento elástico ou velcro.

Existem também as “calças anorak”. Elas são do mesmo material das jaquetas e desempenham esta função, mas para as pernas. Como elas devem ser versáteis, para pôr e tirar em diversas situações e, de preferência, sem a necessidade de tirar a bota do pé, é bom que elas tenham zíperes ao lado. Muitas destas calças têm suspensórios. Acessório muito bom que mantém a calça ajustada, porém podem gerar verdadeiros desastres quando você precisa ir rapidamente ao banheiro...

Proteção para a cabeça

A cabeça atua como um radiador e pode ser responsável por mais da metade da perda do calor corporal. Os gorros/balaclavas mais isolantes são os de fleece, mas apesar de não ser nem um pouco tecnológico, é comum vermos montanhistas usando gorros bolivianos de lã de alpaca.

Alguns montanhistas gostam de levar chapéu de abas largas, de algodão, para proteção do sol. Eles são bons para a base, em locais onde o sol pega mais forte e o calor também. Os bonés “legionários” também desempenham perfeitamente esta função.

Uma opção para ambientes mais quentes é usar uma bandana. Elas também são ótimas para usar embaixo de capacete em qualquer ambiente, pois absorvem o suor e evitam a proliferação de bactérias no capacete, que causam mal cheiro. Bonés também são bem vindos. Em ambientes quentes, bonés do tipo legionário te protegem do sol na nuca, que é a região do corpo que mais queima ao sol.

Luvas

Para escolher bem o tipo de luvas, devemos estar atentos a relação entre o conforto térmico e a usabilidade em manusear equipamentos. Geralmente, quanto mais volumosa a luva, mais quente ela é, e menor condições técnicas você terá com ela.

O conceito de camadas também se aplica às luvas. A primeira camada pode ser uma luva de tecido sintético mais fino e colada à pele.  A segunda camada é de aquecimento. Estas podem ser de fleece de poliéster, que mesmo molhada, pode ser enxugada e ela ainda reterá o calor. A terceira camada é o cobre-manoplas, que é a camada exterior das mãos. A parte do dorso da mão deve ser de um tecido transpirável e impermeável. O lado da palma da mão deve ser impermeável, mas não necessariamente transpirável. Um recobrimento antideslizante na palma melhorará o agarre dos equipamentos. O punho deve ter fechamento, e normalmente é com elástico ou velcro.

Luvas sem dedos também são interessantes, são a chamadas mitons. Há muitos mitons de pluma de ganso que são mais quentes, mas são um pouco complicadas quando é necessário manusear equipamentos, por isso é muito usado para montanhas não técnicas, como o Aconcagua ou o Cerro Plata.

Não tenha medo de tirar uma ou outra camada durante uma escalada no frio, pois muitas vezes é necessário para fazer um trabalho mais técnico, o que na altitude pode ser, por exemplo, trocar as pilhas de uma lanterna ou montar uma barraca. Para evitar o congelamento das mãos, é bom ter um aquecedor térmico químico (sempre às mãos sic).

Meias

As meias protegem, isolam e reduzem o atrito entre a bota e o pé, diminuindo as bolhas. Por isso são muito importantes. Já vi gente perdendo cume por ter adquirido as dolorosas bolhas nos pés, então vale a pena investir um pouco mais em boas meias do que ter um “desconforto” como este.

As meias devem absorver a transpiração. Como a parte superior das botas não deixa passar o ar de forma suficiente, o suor gerado pelos pés se acumula e se concentra até o momento de tirar as botas. As meias de materiais sintéticos (poliéster, nylon e acrílicos) secam antes que as de materiais orgânicos como o algodão.

A maioria dos escaladores utilizam dois pares de meias. Grudado na pele, uma meia suave e fina de poliéster, chamada de “liner”, expulsa o suor para as camadas exteriores, fazendo com que a pele permaneça mais seca. A meia exterior é mais grossa e resistente, para absorver a umidade que passa através da meia interior e suportar a fricção com o forro da bota.

Aqui no AltaMontanha temos um artigo especial sobre meias e bolhas nos pés.

A vantagem do sistema de camadas

Como iniciei este artigo, o ambiente de montanha é muito diversificado. Na base podemos fazer caminhadas de aproximação em ambientes quentes com florestas ou em desertos e, no cume, sempre encontraremos muito frio e vento.

Numa caminhada de base de montanha com tempo bom ensolarado, torna-se eficiente ter uma calça bermuda e tirar pernas para ter melhor conforto térmico. Se esfriar, basta colocar as pernas novamente.

Trekking com uma camiseta dry com manga comprida protege do sol, ainda mais se ela tem proteção UV. É por este motivo que vemos muitos escaladores de São Paulo (um estado que não chove) escalarem embaixo de sol com estas camisetas cumpridas na cor brancas, para não absorver o calor e se proteger. E se de repente o tempo mudar, basta pôr em cima um anorak, a terceira camada.

Quando saímos de madrugada para fazer o cume de uma montanha, vamos com todas as camadas. Ao amanhecer, o sol começa a esquentar e aí basta tirar a segunda camada, pois mesmo alto, o sol a pino refletindo na neve gera uma sensação térmica de muito calor. Assim, pode-se tirar a segunda e a terceira camada. Se um ventinho chegar e o frio bater novamente, é só colocar a terceira camada novamente.

É comum escalar as montanhas nos Andes da Puna do Atacama, que é uma região seca, sem usar a terceira camada, mesmo com temperaturas muito frias. Isso porque, nestes locais, o ar é muito seco e a segunda camada, normalmente uma jaqueta de pluma de ganso de fill power 800, como a Jaqueta Tolosa ou a Aconcagua da Makalu, já é mais que suficiente.

O contrário também existe. Nas montanhas mais baixas no sul do Chile, onde é mais úmido, mas muito menos frio, acaba-se deixando de lado a segunda camada.

Existem alguns produtos que fazem dupla função, como as jaquetas de Windstopper. Estes tecidos servem tanto ao isolamento térmico como para o isolamento do vento e, em alguns casos, ainda ajudam a isolar a umidade.

A melhor forma de definirmos o conceito das camadas se chama: Versatilidade.
 
Antes de comprar suas roupas para montanha, pesquise. Não compre pelo preço e nem pela marca. Muitas vezes o mais caro não é o melhor, muito menos o mais barato o pior. Marcas badaladas acabam se rendendo à fama e depois de um tempo passam a produzir mais roupas urbanas do que técnicas. Lembre-se que este mercado é muito competitivo e na briga por ele, marcas menos famosas acabam fazendo produtos com ótimo custo benefício. 

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*Pedro Hauck é montanhista desde 1998 e já escalou mais de 50 montanhas nos Andes. Também é escalador de rocha e guia profissional. É formado em geografia, e mestre em geografia Física. Também é empresário do ramo de equipamentos para montanhismo e trabalha como editor do AltaMontanha.com

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