As cachus da estrada da Petrobrás

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Interligando Salesópolis a Caraguatatuba, a Estrada da Petrobrás é destino certeiro pra galera off-road e biker pelos desafios q sua esburacada via oferece ao largo dos seus quase 70 trepidantes kms rasgando a Serra do Mar. Construída pela Petrobrás pra apoio durante a instalação do oleoduto q interliga São Sebastiao a Paulínia, desta desafiadora via tb nascem breves picadas q levam a belas cachus e refrescantes remansos proporcionados pelos gdes rios q margeiam ou cortam a vereda. No caso, o Rio Pardo e o Rio Novo. Programa sussa e adrenado prum bate-volta diferenciado. Mas claro, desde q se tenha um bom veículo e um ótimo motorista.

Como calor deste verão a pino e doido por um rolezinho sussa e refrescante, decidi meio q em cima da hora dar um pulo nas cachus a margem da Estrada da Petrobrás, roteiro mais q recomendado por amigos bikers. Como não sou adepto da magrela e desta vez minha intenção era apenas palmilhar trilhas curtas rente a famosa via no esquema de bate-volta, não pensei duas vezes em percorre-la no conforto dum veiculo comum. Tb pudera, o sol forte destes dias limpos desanimava não apenas longas caminhadas e qq espécie de escalada, desalentava inclusive sentar numa bike pelo q meus conhecidos comentaram.

De modo q bastou dar toque a alguns interessados e lá nos vimos naquele início de domingo escaldante chegando a Salesópolis as 9:30hr em dois veículos, após rodar pelo suave asfalto da SP-88 em meio a abaulada morraria e represas dos arredores. Num carro estavam o Ricardo, Elaine, Guga e André, enqto no outro este q vos escreve se espremia junto com a motora Paty, Bruno, Lore e Palmas. Pois é, desta vez a trip seria "pantufa". Nada de carrapato, vara-mato, escalaminhadas ou desgaste físico qq. A exceção pro carro e pro motorista, claro.
Deixamos então Salesópolis em direção a Rod Tamoios e Caraguá, e durante 3kms o asfalto nos acompanha até finalmente abandona-lo em favor duma lacônica placa apontando a Estrada da Petrobras, a direita. Tem início um constante sobe e desce até q relativamente em boas condições. Alguns sítios e chácaras pontilham este trecho, emoldurado basicamente numa paisagem composta por reflorestamentos, pastagens e suaves colinas forradas de verde.

Mas td q é bom dura pouco pq logo começam a surgir trechos cascalhados e esburacados na e não demora pro veiculo sambar na estrada, obrigando a Paty a reduzir a velocidade e manobrar cautelosamente de modo a seguir adiante, sem danos significativos. "Vai pela direita…agora pela esquerda!", comandava o co-piloto do veículo Bruno. Enqto isso, Ricardo na direção do outro veículo dispara na dianteira, como q ignorando os obstáculos do caminho. "Eu vou vender mesmo o carro!”, entregou a Elaine depois. Esse processo se tornou quase q uma constante, alternando trechos ruins e péssimos com outros melhores onde surgia um pavimento liso e plano, uma espécie de concreto, onde era possível aumentar a velocidade. Mas não muito, pois logo começava td novamente.

Dessa forma nos passou desapercebida a passagem pelo Rio Tiete, num pto próximo a sua nascente, assim como a última casa do caminho, local onde era possível comprar algum rango ou agua. Mas após subir um tanto, por volta do km20 as vistas se ampliam e nos brindam com belo visu do Vale Lourenco Velho, a esquerda. Aqui tb já começam a surgir as entradas do aceiro q dá acesso aos dutos enterrados q nominam a Estrada, tão onipresentes qto os marcos amarelos q indicam a distância remanescente.

Mas é justamente aqui neste trecho, no km 24, onde os reflorestamentos dão lugar a uma mata mais exuberante – após uma placa indicando estar nos domínios do Núcleo Caraguá do PE Serra do Mar – q temos nossa primeira parada, as 10:40hr. Afinal, chacoalhar num veículo o tempo td sem esticar as pernas não rola. O Ricardo, conhecedor daquelas bandas como ninguém, nos leva numa das várias breves picadas de dutos ao largo da estrada q, subindo suavemente, num piscar de olhos nos leva numa improvável capelinha q coroa um discreto morrote. É a Capela de São Lourenco, construída pra atender as necessidades espirituais dos trabalhadores q ergueram a estrada q rodávamos. "Aqui eles deveriam rezar mesmo era pra Nssa Sra da Pedra Solta. "  brincava a Paty. Decrépita, porem simpática, o único porem da minúscula construção é a qtdade de inscrições burrestres em seu interior, a maioria oriunda de Salesópolis, infelizmente.

Prosseguindo um pouco mais adiante não demora pra chegar aos 11:50m do topo da serra, após um ganho considerável de 400m de desnível de Salesópolis. O local é marcado por um conjunto enorme de pedras esquisitas a esquerda (q lembra vagamente o Morro do Pai Inácio, da Chap. Diamantina) e por uma gde antena a direita. De agora em diante, km26 a frente, era somente descida até o final. E tome descidona com vista generosa das encostas abruptas do Vale do Rio Pardo.

Após chacoalhar por pedregulhos mais um pouco, as 11:20hr temos nova parada no q parece ser um mirante a margem da estrada. "Mirante da Cruz” diz o Ricardo, q explica o motivo. Além da paisagem maravilhosa das escarpas serranas recortando o Vale do Rio Pardo com o azul do céu, é possível avistar (com algum empenho da imaginação, claro) uma ”cruz" entalhada nas encostas rochosas das montanhas logo adiante! Qq semelhança como ”Morro do Sete ", na Serra da Farinha Seca (PR) não será mera coincidência.

A jornada prosseguiu no mesmo trepidante compasso anterior. A precariedade da estrada selecionava naturalmente seus visitantes, e por este motivo q são poucos os veículos q arriscam meter as caras aqui, tanto q as únicas vivalmas q cruzamos no caminho eram bikers em grupo, motoqueiros solitários e uma ou outra picape. Isso foi o q sentimos literalmente na pele. Ou melhor, na bunda, a cada solavanco dado pelo veículo qdo alguma pedra mais ousada arranhava a lataria rente o escapamento. E assim fomos lentamente comendo poeira, lentamente, com uma hábil Paty cavando sua vaga pro Paris-Dakar! "Se eu tivesse vindo com meu carro, teria dado meia volta! Não teria descido a estrada nem a pau!", entregava o Guguinha. "Nem eu! ", emendava a Lore.

Depois de comer muita poeira e apreciar belos maciços montanhosos q me deixaram com agua na boca qto a acessibilidade ao alto de suas abruptas escarpas, finalmente no km40 encostamos o veículo a margem dum encachoeirado Rio Pardo, as 12:20hrs. Uma discreta trilha nascia da estrada e descia o barranco na direção do rio em meio a exuberante mata. O rugido alto duma queda sugeria abundancia de agua bem a nossa frente. E não estávamos equivocados.

Não deu nem 5min de picada q desembocamos na margem pedregosa dum enorme lago cristalino, ao sopé duma furiosa cachu de uns 20m. Na verdade, era uma sequência de 3 gdes quedas distribuídas em patamares bem largos e generosos, nas quais a gente se esbaldou basicamente no primeiro. Era a Cachu da Intermediaria, e tem este nome devido a sua proximidade com a Base da Petrobras do mesmo nome.  Ali, cruzamos o Rio Pardo chapinhando com agua até o joelho e nos acomodamos na margem oposta, onde havia mais sombra. Na verdade deixamos as coisas e fomos nos refrescar no grande lago por um bom tempo. Na sequência nos prostamos na sombra e beliscamos nosso lanche, donos daquele paraíso particular e de fácil acesso. "Apesar do fácil acesso, são poucas as pessoas q conhecem essa trilha pq geralmente passam batido sem vê-la! " , diz o Ricardo. O André e o Palmas até montaram suas redes e ficaram de boa, trocando suas impressões sobre o produto, já q o segundo é dono da Kampa.

Pois bem, após muito tchibum e mais q revigorados, as 14:30hrs decidimos dar continuidade a jornada. Voltamos aos veículos e seguimos chacoalhando pelo cascalho, embora neste trecho a estrada mostre-se em bem melhores condições q antes, mais pavimentada. Menos de 1km depois passamos pela Estação de Tratamento Rio Pardo ou Estação Intermediaria de bombeamento do oleoduto da Petrobras. Esta se resume a um complexo de tanques, bombas, cercas e guaritas q serve pra facilitar o escoamento do petróleo vindo de São Sebastiao.
Mas não deu nem meia hr de estrada e as 15hrs, exatamente no km43, temos nova parada agora sobre a simpática ponte de madeira sobre o Rio Novo, gde afluente do Pardo. Aqui tomamos uma discreta trilha q nasce antes da ponte, mergulha na mata em meio a voçorocas de bambuzinhos e num piscar de olhos nos deixa na margem pedregosa dum borbulhante e encachoeirado Rio Novo. Só esta margem já mostra-se bem generosa de boas piscinas, mas prosseguimos nossa curta jornada escalaminhando fácil as pedras q sobem o rio.

Mas após uma curva fechada e bordejar um mini-canion, enfim damos noutro fantástico remanso fluvial composto de gdes cachus, lajotas verticalizadas e piscinão! Nova parada pra curtição, claro! Uma cobrinha nas pedras apenas nos recorda q estamos num ambiente natureba e q td cuidado é pouco. Eu e o André até arriscamos escalaminhar os amplos lajedos até o alto da enorme queda, cruzando com os convidativos panelões no caminho, até dar ás margens dum enorme lago represado. Na volta descobrimos q havia uma picada na mata q tornava desnecessário td ou qq escalaminhada ao alto da bela queda. Dane-se, com aventura é melhor.

Aventura e banho pq ficamos ali um bom tempo tb, até q chegou uma família de Caraguá q nos deu infos  da continuidade da vereda. Pois bem, a curtição tava boa mas foi ai q nos vimos num dilema cruel porem bem significativo tendo em vista a precariedade da estrada q tanto chacoalhávamos: voltar pelo mesmo caminho, em subida, sob risco real do veículo empacar no cascalho, no meio do nada e lugar nenhum, sem sinal de celular, etc.. ou descer a estrada até Caraguá (e dar uma volta maior pra voltar a SP), aproveitando  a declividade do terreno a favor do veículo nos trechos  ruins! Pois bem, pelas infos coletadas dali em diante as coisas tendiam a ficar bem melhores, q foi o q bastou pra decidir prosseguir pela Petrobrás até o final! Logo, fica a dica de quem quiser curtir as cachus sem riscos pro carro começar a jornada pelo litoral.
Dito e feito, dando continuidade a jornada de carro realmente do Rio Novo em diante a estrada tava em bem melhores condições q antes! Se até o Rio Pardo nossa velocidade média não ultrapassava os 20km/h ali já andávamos acima do dobro disso! E desse modo a estrada se afastou do Rio Pardo e passou a rasgar os ombros serranos da Serra do Juqueriquere, onde cruzamos o simpático Rio Verde por volta do km47. Alguns km adiante o panorama me parece familiar e reconheço a entrada a direita q diz respeito a Travessia Salesopolis-Boiçucanga, margeando o Ribeirão de Itu.

Logo adiante, por volta do km56 e agora bordejando o Vale do Rio Piracununga, reparamos enorme viaduto solitário de concreto no meio da mata, interligando nada a lugar nenhum! Um elefante branco governamental, sinal do desrespeito dos políticos com o povo. Mas é logo adiante q a declividade aperta mesmo e começamos a descer impiedosamente serra abaixo em meio a alta e espessa floresta. Uma biquinha de bambu encravada na encosta do km59 é referência e bom lugar pra pegar agua, pois este trecho é relativamente bem seco.
Na sequencia o terreno começa a nivelar ao emparelhar com o Ribeirão Cacandinha  – q tb pode ser o Rio Claro –  as montanhas ficam finalmente pra trás, passamos pela placa do PE Serra do Mar e começam a surgir as primeiras casas. No km66 cruzamos enfim uma ponte sobre o balneário rural do Rio Claro, onde um boteco pode chamar a atenção, mas a muvuca e farofa da agua desencorajam qq parada. Q diferença daqui dos balneários naturebas em q estivemos horas antes!

Daqui em diante a paisagem fica mais urbana, plana e aberta. A serra fica pra trás e num piscar de olhos desembocamos na Rio Santos, quase na praia de Porto Novo (km74), pontualmente as 17:10hrs! Aqui rodamos os 8km restantes a Caraguá e, na sequência, voltamos pela Rod. Tamoios até Sampa. Sujos, empoeirados e famintos, mas felizes pelo dever dominical cumprido. Finalizando, assim como a Estrada do Despraiado (Jureia), a Estrada da Petrobras está repleta de outros afluentes q podem ser explorados com muito mais tempo e disponibilidade. Torna-la um programa dominical ou de feriado prolongado fica a critério do freguês. Seja a pé, com duas ou quatro rodas. Ou confortavelmente uma combinação de tds essas alternativas.
 

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Sobre o autor

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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