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Escalando o vulcão mais alto do mundo!

Ojos del Salado


Aventura de:

Relatamos aqui nossa primeira expedição de longa duração sem o apoio de guias especializados, para a qual organizamos nossa logística e fomos responsáveis pelo próprio transporte e roteiro. Descrevemos cada etapa desta viagem, que partiu da altitude mínima de 4m (Joinville, nossa casa), chegando à máxima de 6.893m: o cume do Vulcão Ojos del Salado.

Um pouco sobre nós 
 
Eu, Leo, administrador de empresas, ela, Tais, zootecnista. Pessoas comuns, que não tem o montanhismo como profissão ou fonte de renda. É nosso hobby. Gostamos de nos aventurar pelas montanhas da Serra do Mar próximas de nossa casa e, também, pelas travessias do Brasil como as clássicas Serra Fina e Serra dos Órgãos e outras menos conhecidas, como Araçatuba x Monte Crista (PR e SC) e Parques Estaduais Itambé x Rio Preto (MG). Fizemos juntos alguns trekkings pela América do Sul, como Torres del Paine 360º (O), com uma boa nevasca ao cruzar o passo Gardner, e o Circuito da Cordillera Huayhuash, com altitudes entre 4 e 5 mil metros. 
 
A experiência prévia de alta montanha da Tais se resumia a uma ascensão frustrada ao Cerro El Plomo, Chile, em 2015. Em 2013, eu havia tentado sem sucesso o cume do Cerro Marmolejo e havia feito o cume do Cerro El Plomo. Ainda em 2013, fiz o trekking do Gelo Continental Patagônico Sul, que me rendeu uma boa experiência de caminhadas sobre glaciares e logística para locais inóspitos. 
 
Mas há um detalhe: as expedições longe de nossa casa eram acompanhadas por guias especializados. Nossas aventuras por conta própria se resumiam às montanhas da Serra do Mar próximas de onde vivemos. 
 
A opção de não contratar guias – a primeira grande decisão 
 
Retornamos da tentativa do Cerro el Plomo em 2015, com a “vontade de alta montanha” dentro de nós. Tendo o hábito de viajar com guias, começamos as estudar alguns roteiros oferecidos pelas operadoras do Brasil e procuramos conhecer algumas empresas especializadas em alta montanha. 
 
Mas algo dentro de nós dizia que estava na hora de darmos um passo maior. Estávamos confiantes em nossas experiências prévias, aprendemos com os erros da expedição ao Cerro El Plomo e tínhamos algumas lições importantes aprendidas com os guias de outras expedições. 
Além de buscarmos a experiência de organizar a própria expedição, queríamos algo mais íntimo – queríamos sentir a experiência do contato com as montanhas sem um grande grupo caminhando conosco. 
 
E por fim, buscar uma realização conjunta como parceiros – nos aproximar cada vez mais como pessoas compartilhando a vida, aumentando nossa confiança e afirmação de que juntos podemos mais. 
 
A decisão já estava tomada antes mesmo que pudéssemos perceber... 
 
A escolha do destino – por que o Ojos del Salado? 
 
A montanha é linda, alta e desafiadora. É o 2º ponto mais alto da América do Sul e o vulcão mais alto do mundo, com quase 7 mil metros sobre o nível do mar. Os arredores, percorridos na aproximação, são de deixar sem palavras. É um destino pouco procurado, fato que ia ao encontro do nosso objetivo de escapar dos tumultos das montanhas mais frequentadas. 
 
E um fator importantíssimo para nós, iniciantes em expedições autossuficientes: o local permite aproximação de carro, acesso relativamente fácil com um veículo 4x4 parrudo. Com isto, teríamos uma margem de segurança maior para erros logísticos, como cálculo inadequado de água e comida ou algum tropeço na aclimatação. 
 
Era a combinação perfeita: uma beleza incrível e uma grande altitude, com a segurança de um erro logístico qualquer não acarretar um fato dramático em nossas vidas. 
 
Planejamento logístico 
 
O planejamento iniciou 8 meses antes da viagem, imediatamente após a decisão de que caminharíamos solo. A primeira parte dele foi descrita acima, que foi a escolha do destino. 
A partir disto, o Google Earth foi um grande aliado. Temos vivos ainda na memória detalhes da visão aérea dos locais, de tanto que estudamos os mapas! Foi a ferramenta que usamos para calcular distâncias, analisar os diversos tracklogs que baixamos do rumos.net.br e do wikiloc.com e, também, para definir um roteiro eficiente para a aclimatação. 
 
Fomos atrás de relatos, conversamos com alguns conhecidos que já haviam feito o roteiro, recebemos inúmeras sugestões de locais para aclimatação. Uma coisa foi unânime em todas estas fontes: a paixão com que as pessoas nos relatavam suas experiências. Fazia-nos sentir que tínhamos acertado na escolha. 
 
Optamos por locar um veículo 4x4 e seguir o próprio roteiro. Isto demandou mais estudos, desde o modelo do veículo até dicas de condução off-road em areia. Pesquisamos anticongelantes para os diversos fluídos do carro e acessórios extras para o caso de um perrengue. 
 
Tivemos que calcular quanto combustível, água e comida levaríamos. Afinal, o posto de combustível e supermercado mais próximos estariam a mais de 400 km de distância. Seriam 15 dias longe da civilização e longe de fontes de água potável. Estávamos indo para o deserto mais seco do mundo, onde os lagos são formados por água salgada ou água com arsênico. 
Indo para um local tão isolado, não poderíamos deixar de fora dois itens essenciais:
comunicação e um seguro que cobrisse resgate na altitude. Para comunicação, optamos pelo SPOT Gen3, que nos traria uma comunicação simples, com a possibilidade de pedir socorro em caso de risco à vida e emitir mensagens aos nossos familiares tranquilizando-os quando tudo estava bem. O seguro foi difícil de achar e, junto com o aluguel do veículo, foi um dos maiores gastos da viagem. 
 
Definimos que nossa base seria a cidade de Santiago, onde alugamos a camionete 4x4 e fizemos as principais compras de supermercado. De lá, dirigimos cerca de 800km pela costa do pacífico até Copiapó, onde fizemos as compras dos itens restantes e partimos para a Puna do Atacama. Copiapó é uma cidade no deserto, que abriga várias mineradoras e seus empregados. Oferece grandes supermercados, hospital e alguns bons restaurantes. 
 
O processo de aclimatação – conhecendo as montanhas do Atacama 
 
Estávamos no “Circuito de los Seismiles”. Opções de aclimatação era o que não faltava! 
Optamos por iniciar a aclimatação na Laguna Santa Rosa, nos aproximados 3.700 metros sobre o nível do mar, onde dormimos 3 noites. Escolhemos ir direto de Copiapó até esta altitude, sem passar por locais intermediários. Sentimos mais forte a altitude nos dois primeiros dias, que dedicamos para caminhadas leves, boa alimentação, descanso, muita água, e muitas fotos. As vistas deste local são incríveis, com direito a um salar de grandes dimensões – o Salar de Maricunga. Os Flamingos dão o colorido extra para a paisagem. 
 
No terceiro dia, subimos o Cerro Maricunga, também conhecido como Siete Hermanos. Tem 4.939 metros de altitude. Subida tranquila, sem maiores dificuldades, além da altitude, é claro. São mais de mil metros de aclive, que fizemos com bastante calma, para permitir que nosso corpo fosse se adaptando. 
 
No quarto dia, seguimos para a Laguna Verde, com 4.328m. Este dia foi dedicado aos 270km de carro até lá, descanso, fotos e muita água. Aqui, já estávamos mais adaptados a altitude. Foram 5 noites acampados neste local maravilhoso. Não tínhamos as cores dos flamingos, mas o pôr do sol refletindo no verde da lagoa garantia o colorido especial do lugar. 
 
Na manhã seguinte, tentamos o cume do Mulas Muertas, com 5.880m. Abortamos na metade do caminho devido aos fortes ventos que sopravam montanha abaixo. A Tais quase foi derrubada pelos ventos algumas vezes! 
 
Amanheceu novamente, e os ventos continuavam soprando sem trégua. Fomos passear de 4x4 pelas areias do Atacama, dando a volta até os fundos da Laguna Verde e subindo um bom trecho, até a base do Ermitaño. Demos uma caminhada para cima, em busca da nossa aclimatação, mas os ventos nos empurraram de volta. O visual deste local é difícil de descrever – o Ojos del Salado nítido no horizonte e, no 1º plano, a Laguna Verde em toda a sua extensão. 
Sétimo dia: Amanheceu com uma trégua do vento. Partimos em direção a Vicuñas, 6.067m, nosso destino do dia. Tentamos o cume, mas não tivemos sucesso. Escolhermos uma rota mais direta, porém mais puxada fisicamente. Ainda não estávamos tão aclimatados quando pensávamos e preferimos abortar próximo aos 5.700m e conservar nossas energias para o Ojos de Salado. 
 
Aqui, estava se configurando um problema logístico e também uma insegurança. O problema logístico se dava por o nosso combustível estar baixando mais que o esperado. Começávamos a estudar uma ida à cidade. E a insegurança vinha de não termos feito cume nas últimas duas tentativas. Estávamos indo para a maior altitude de nossas vidas e sentíamos necessidade de fazer um 6 mil antes de irmos para o objetivo final. 
 
No oitavo dia resolvemos as questões acima. Incluímos o Nevado San Francisco, 6.016m, no roteiro e, desta vez, fomos até o cume! Montanha linda, vista privilegiada das Lagunas, Incahuasi, Ojos, e a sensação de estarmos acima dos 6 mil metros nos devolveu a confiança de que precisávamos para seguir adiante. Descemos a montanha e tocamos para Copiapó, para comprar combustível e voltar para a montanha. Acabamos dormindo na cidade, mas isto não teve a menor graça! A cabeça estava na montanha. 
 
Acordamos cedo, antes do despertador, e nos arrancamos de volta para a montanha! Tocamos direto para o Refúgio Cláudio Lucero (antigo Murray), na casa dos 4.500m, onde fizemos algumas belas fotos e descansamos. A partir deste ponto, começa o último capítulo da nossa aventura. 
 
O cume – etapa de ascensão ao Vulcão Ojos del Salado 
 
Décimo dia de expedição. Frio na barriga, muita areia pelo caminho, mas antes da hora do almoço estávamos com nossa “casa” pronta no Acampamento Atacama, nos 5.200m. A direção pelas estradas de areia ocorreu sem surpresas e sem contratempos. Na metade da tarde, enchemos nossas mochilas e caminhamos até o Refúgio Tejos, 5.837m, onde deixamos água e comida. Voltamos e aproveitamos a noite acampados no Atacama. 
 
Saímos da barraca depois do sol aparecer, tomamos um bom café e começamos o dia com calma. No início da tarde, partimos para o Refúgio Tejos novamente, desta vez para dormir por lá e tentar o cume na manhã seguinte. A emoção estava grande, muita ansiedade para encarar o que estava pela frente. Chegamos ao Refúgio, cheio, desorganizado, e tivemos que aguardar o grupo que havia saído para tentar o Cume, para só então descansar. 
 
A caminhada em direção ao cume iniciou as 04:30 da manhã. Mas, uma hora depois, já estávamos de volta ao refúgio, com a Tais tremendo que nem vara verde, enjoada. Se enfiou no saco de dormir com roupa e tudo, mas não tinha jeito de se aquecer. Só melhorou depois de algumas garrafas de água quente serem colocadas junto ao corpo. Pelas 09h30 acordou, morrendo de calor e, após uma boa refeição, descemos em direção ao Atacama. A viagem tinha sido incrível, visuais ótimos, e mesmo sem o cume, eu caminhava montanha abaixo com a ideia de que voltaríamos para casa felizes. 
 
Amanheceu novamente. 
 
Tais olha para mim e pergunta: -Vamos?
Eu: - Pra onde? Pra casa? Tá cedo ainda. Vamos aproveitar o dia por aqui
Ela: - Como assim, pra casa? Vamos pra cima! 
 
Fizemos algumas mudanças de estratégia para um jantar e um café da manhã mais leves, pegamos água e comida, e fomos pro Tejos! As camas estavam disponíveis e tiramos um ótimo cochilo à tarde, até sermos acordados por um italiano agitado, que recebera uma mensagem por rádio, de seu amigo que estava retornando do cume e tinha tido um edema pulmonar. Levantei, separei alguns remédios, e comecei a caminhar montanha acima, até encontrá-lo nos aproximados 6.100m. Conversei um pouco com ele, ofereci o medicamento para o que ele estava enfrentando e caminhamos juntos de volta ao refúgio. Importante informar: os medicamentos na altitude tem um funcionamento bastante diferente do usual, recomendo a leitura do artigo: http://altamontanha.com/Artigo/1274/remedios-e-tudo-sobre-altitude e de um bom bate-papo com um médico antes de montar sua farmácia particular. 
 
Depois de uma boa noite de sono considerando os 5.837m, preparamos nosso café da manhã e, por volta das 5h da matina, saímos montanha acima. Enfrentamos o frio e o escuro durante uma subida íngreme e sem maiores dificuldades. O sol apareceu, e logo após, chegamos em uma parte de areia fofa e pequenas pedras soltas – que combinadas com a subida íngreme, tornaram a escalada relativamente pesada. Fomos firmes, e por volta do meio dia, estávamos na cratera, que fica um pouco abaixo do cume. Descansamos um pouco, comemos, e começamos a olhar pela escalada que ainda tínhamos a percorrer. Conferimos as cordas fixas, que estavam bastante puídas e não inspiravam confiança. Optamos por não contar com as cordas, e subimos de forma livre. A subida é relativamente simples, porém a altitude restringe nossas forças e nos deixa bem mais lentos. Levamos mais duas horas até a comemoração! No total foram 9h de subida. 
 
Sensação incrível! Todas as montanhas ao nosso redor pareciam pequenas, estávamos literalmente vendo todas elas de cima! A imensidão do horizonte, a curvatura da terra, a Laguna Verde pequena lá em baixo. Impossível descrever a sensação de realização e auto superação. 
 
Por pouco não ficamos sem registros do cume. Uma de nossas câmeras teve a bateria drenada pelo frio, e a outra, teve várias fotos corrompidas no cartão de memória, provavelmente pelo frio também. Graças ao hábito de tirar várias fotos seguidas, tivemos algumas que se salvaram, bem como o vídeo de cume. 
 
Aproveitamos o visual por alguns minutos, e começamos a descida. O caminho de volta até o acampamento Atacama foi percorrido em pouco mais de 4 horas, com direito a uma parada para refeição quente no Refúgio Tejos. 
 
Nossa noite foi de comemoração e muito descanso! Na manhã seguinte, partimos para o retorno a Santiago via Argentina, em uma expedição pelas vinícolas e ótimos restaurantes que encontramos pelo caminho. 
 
Detalhes técnicos 
 
Alguns pontos importantes sobre a viagem, que julgamos importantes para quem está planejando algo parecido: 
 
Direção Off Road: Não tinha experiência prévia com veículos 4x4. Porém, nunca tive medo de me aventurar com meu veículo “civil”, e já atolei e desatolei meu carro algumas vezes. Aprendi no decorrer dos anos algumas manhas de condução em atoleiros, lama, areia e em estradas de péssima conservação. Estes são os motivos de minha rápida adaptação ao 4x4 e às estradas de areia, e foi o que me deu coragem de dirigir nesta viagem. 
 
Cuidados com o veículo: Antes de estacionar, valeu a pena observar onde o sol nascia, e tomar o cuidado de estacionar o carro sempre com a frente virada para o leste. Nas dificuldades em ligar o carro nas manhãs geladas, deixar o sol bater na frente do carro com o capô aberto por alguns minutos dava uma grande ajuda. Com a locadora de veículos, tivemos um pouco de dificuldades em obter informações sobre os anticongelantes usados nos fluídos do carro. No dia que retiramos o carro na locadora, tivemos a garantia de que ele estava preparado para o uso que faríamos dele e para noites congelantes. 
 
Nos informamos também sobre o Diesel, que pode congelar. No Chile, por padrão, o Diesel tem anticongelante como aditivo. 
 
Equipamentos: Levamos equipamentos completos para alta montanha e progressão em gelo. Descobrimos que Piolet e Crampons não seriam necessários apenas após conversar com outros grupos que estavam retornando do cume. Esta região está sujeita a neves compactadas e gelo, mesmo no verão. Se não tivéssemos o contato com outros grupos, teríamos levado os equipamentos de gelo até a cratera. Na dúvida, melhor carregar um peso extra que perder a viagem. A barraca foi uma quatro estações bastante resistente ao vento, que pode soprar muito forte na região. Saco de dormir de -15 conforto para mim e -20 conforto para a Tais. 
 
Roupas e botas: Ótimas segundas peles, fleeces, anoraques e casacos de pluma. Botas duplas com meias muito quentes para a ascensão do Ojos, botas de trekking um pouco mais quentes e com boas meias para a aclimatação. Não somos friorentos e ficamos confortáveis. Pelas experiências prévias com grupos, penso que a maioria das pessoas ficaria mais confortável usando as botas duplas já a partir dos 5 mil metros. 
 
Água: Calculamos cerca de 3L de água por pessoa por dia previsto de expedição e mais 4 dias extras, para o caso de mau tempo nos deixar presos em algum lugar. Foram pouco mais de 90L de água na expedição. Sempre deixávamos um galão de água conosco na barraca, pois os que ficavam no carro, viravam gelo durante a noite. 
 
Comida: Tudo o que mais gostávamos e que fosse prático para preparar. Na maior parte do tempo acamparíamos perto do carro, e não precisávamos nos preocupar em carregar o peso da comida. Para os dias em que estaríamos longe do carro, levamos comida liofilizada do Brasil, para termos o tempero a que estávamos acostumados e pouco peso. 
 
Experiência e informações: Procuramos conversar com pessoas experientes e que já fizeram esta montanha antes, para só então, finalizar a logística. Obter o máximo de informações antes de fechar o roteiro, e especialmente, antes de partir, foi essencial para o sucesso da expedição. Já tínhamos uma boa ideia do que encontraríamos pela frente. 
 
Socialização durante a viagem: Conversar e socializar com montanhistas que encontramos nos locais de acampamento também nos ajudou muito, pois foi possível nos atualizar com a previsão do tempo e muitas informações úteis sobre nossos roteiros, bem como atualizá-los sobre as condições dos locais por onde já tínhamos passado. Além disto, manter pessoas informadas sobre seu planejamento e vice-versa pode ser de grande ajuda em uma situação de emergência.
 
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