As 48 Horas do Quiriri - parte 2 - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Velocidade é fundamental

As 48 Horas do Quiriri - parte 2


Aventura de:

A travessia interestadual morro do Araçatuba (PR) – Monte Crista (SC) ainda é pouco conhecida do público montanhista. Comparando-se com outras travessias em montanha no Brasil, percebe-se que ela é uma das mais longas, se não a mais extensa, com cerca de 60 km de trilha. Todas as histórias anteriores relatavam que as equipes levaram 4 ou 5 dias para completar seu percurso. Completar a travessia em tempo recorde foi um desafio que encheu os olhos do Elcio, disposto a realizá-la em 3 dias, ou quem sabe menos.

Quando chegamos no alto, a estrada mudou de direção, então decidimos seguir no rumo sul, em direção da divisa estadual. Mas logo encontramos um bosque de pinus com o chão formando aquele tapete fofo de folhas de pinus. Não tivemos dúvida: iríamos dormir ali mesmo!

Consultando o GPS, percebemos que estávamos quase do lado da divisa estadual. Tínhamos completado metade da travessia em apenas um dia! Mantendo esse ritmo, era certo que alcançaríamos o Monte Crista até a noite seguinte, terminando a tão falada travessia em apenas dois dias! Essa expectativa nos deixou tão agitados que foi difícil dormir. Mesmo cansados do jeito que estávamos e deitados sobre aquele “colchão” tão macio, não dava pra relaxar. O bosque de pinus iluminado pela lua cheia tinha um ar fantasmagórico. Pra completar o cenário de Bruxa de Blair, uma coruja piou a noite toda! Por volta das 3:30, não aguentava mais ficar deitado e sentei sobre o isolante. O Elcio, que também estava acordado, puxou conversa. Ficamos um tempão trocando idéias e principalmente contando piadas. Decidimos partir o quanto antes, pra fazer o dia render. Pouco antes das 5 da manhã já estávamos a caminho. O principal problema a resolver era a falta de água. A minha acabara durante a noite, e o Elcio estava sem beber nada desde a tarde do dia anterior.
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Pelo nosso roteiro, a próxima parada era um morro identificado no álbum do Picasa como 1405, e depois dele, o marco da divisa estadual. Mas, e em qual parte da linha da divisa fica o tal marco? Chutamos (corretamente) que seria num ponto onde a divisa forma um “bico”, e azimutamos naquela direção. No caminho, desviamos para um vale, mas não encontramos água. Subimos uma encosta com capim bem fofo, parecia até neve! No topo, descobrimos que estávamos no tal 1405 (essa era a altitude). Paramos para ver o nascer do sol, e logo tocamos adiante. Avistamos em pouco tempo um vale, onde era certo encontrarmos água. Ao invés de simplesmente contorná-lo e descer pelo outro lado, onde a vegetação era mais aberta, tocamos reto pra baixo. E encontramos um verdadeiro “mar de caraguatás”, em plena serra do Quiriri! Elcio puxou a frente, e chegamos lá embaixo com as pernas arregaçadas. Pra nosso desespero não tinha água corrente, mas seguindo o vale um pouco pra baixo encontramos um ponto onde corria um fiozinho de água. Devagarzinho enchemos os cantis e fizemos um merecido suco. Sem perder mais tempo, voltamos ao nosso percurso.
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De volta à cumeada que marca a divisa, logo avistamos ao longe o marco da divisa. E pra nossa alegria o capim ficou menos fofo, bem melhor de andar. Agora sim, progredíamos com velocidade! Víamos o obelisco crescendo à nossa frente, até que alcançamos a encosta que leva até ele. Em poucos minutos estávamos ao lado dele, parando para tirar muitas fotos desse lugar tão raro. Além é claro da clássica brincadeira: “estou no Paraná, agora em Santa Catarina, de volta ao Paraná...”.
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Metade da travessia estava realizada. Mas, e agora, pra que lado seguir? Optamos por contornar um pequeno morro, e poucos minutos depois nos deparamos com uma simpática família de quatis no campo. Ficamos imóveis observando os animais. Tiramos diversas fotos à medida que nos aproximávamos, lentamente. Conseguimos chegar bem pertinho, até que um deles nos viu e deu o alerta. Aí foi aquele Deus nos acuda! Era quati correndo pra tudo quanto é lado. E sempre tem aquele mais bobo, que ficou parado, sem saber pra que lado ir, até que de repente se mandou também!
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Retomamos a caminhada, para perceber que o percurso que imaginamos era impossível, em virtude de um profundo vale que se abria a nossa frente. Avistamos o morro Bradador, que já não estava mais muito longe, e era o próximo referencial do nosso roteiro. Agora era só buscar um caminho contornando o vale para chegar lá. À medida que o sol subia no céu, o calor ia ficando cada vez mais forte. E a vegetação agora era composta unicamente por campos, sem uma árvore pra fazer sombra. A vegetação maior ficava só nos vales, que tentávamos evitar a todo custo!
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As horas que se seguiram foram uma verdadeira comédia. Atrás de cada morrinho que subíamos havia outro vale! Tivemos que dar uma volta gigantesca para não atravessar nenhum vale com mata fechada, o que atrasaria muito nossa travessia. Porém, tudo foi compensado pela deslumbrante vista dos campos do Quiriri, e de cada morrinho a vista era diferente. Para quem está acostumado a andar nas montanhas cobertas por florestas densas, como no Ibitiraquire, andar no Quiriri é uma experiência totalmente nova, e a paisagem oferece a cada momento novos atrativos.
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Finalmente, após dar uma volta gigantesca andando por cristas e morros cobertos de campos, chegamos ao pé do Bradador. Mais conhecido por morro do Quiriri, ou mesmo da Antena, é o ponto culminante da serra. Pouco antes já havia acabado nossa água, e por isso não demoramos nada no cume. O caminho agora já era conhecido do Elcio, que passara em duas ocasiões anteriores por ali, fazendo o percurso Pedra da Tartaruga – Pico de Garuva. Do Bradador desce uma estradinha destruída pela erosão. No meio do caminho começamos a escutar o rugir furioso de um rio, no fundo do vale. A vontade que me deu era de me atirar penhasco abaixo e cair de cabeça dentro da água! Felizmente eu resisti, e quando a estrada chegou no vale saímos fora na direção do rio. Mas a água era muito bem guardada por um exército de unhas-de-gato, bambu-fogo e outras plantas cortantes e pontiagudas. Vencemos essa barreira para nos deliciar com a água mais gostosa que já tomei! Gelada como só na serra! Aproveitei para lavar o rosto e refrescar até a alma.
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Voltamos para a estrada, para logo em seguida abandoná-la novamente. Tocamos pelo meio do campo na direção de um pequeno morro. Esperávamos já avistar o Crista lá de cima. Chegando lá, a visibilidade estava obstruída por outro morro. Sentamos à sombra de uma grande rocha para consultar o GPS. O registro da outra passagem do Elcio por ali, rumo ao pico de Garuva, nos indicava que daquele ponto precisávamos tomar outro rumo. Sem saber com certeza pra qual lado ficava o Crista, optamos por seguir pelo morro à nossa frente. A grande maravilha de andar no Quiriri é que tudo que parece longe é alcançado muito rapidamente, pois a progressão nos campos é rápida, mesmo onde não há trilhas. E em pouco tempo subíamos pela encosta daquele morrinho. Além dele, havia uma sucessão de outras colinas, cada uma mais alta que a outra.
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Lá pelas tantas, avistamos ao longe um morro com formas um tanto familiares. Não tivemos dúvida e celebramos com alegria o primeiro avistamento do Monte Crista! Era questão de poucas horas para chegarmos lá. Continuamos subindo um morrinho, e quando olhamos para o lado oposto ao qual nos dirigíamos, surpresa: outra montanha muito parecida com o Crista. Afetados por andar dois dias sob o sol a pino, ignoramos esse outro morro e seguimos adiante. Foi só bem mais pra frente, quando se abriu um visual muito melhor, que pudemos fazer uma triangulação, avistando o morro que achávamos que era o Crista, o outro que também podia ser o Crista e o pico de Garuva e percebemos a grosseria do nosso erro! Estávamos indo pro lugar errado!
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Os momentos que se seguiram foram de desânimo. Teríamos que voltar tudo aquilo, contornar um grande vale e subir outra encosta até chegar num outro morro, antes de rumar para o Crista. Mas nada de desistir agora, tão perto do final! Imediatamente começamos o retorno, e como no Quiriri o longe é bem perto, em menos de meia hora estávamos no caminho certo. Logo avistamos um morro com uma formação rochosa no topo. Lá em cima havia gente nos acenando, sem dúvida aquela era a Pedra do Urubu (mais tarde descobrimos que o nome verdadeiro é Pedra do Lagarto). Continuamos a subida e logo alcançamos o cume. Os dois caras que estavam lá se decepcionaram quando viram a gente, pois estavam esperando alguns amigos deles que vinham do Pico de Garuva. Ganhamos preciosas informações sobre o caminho até o Crista, e sem perder um minuto continuamos nossa jornada. Paramos num pequeno rio para outro suco delicioso, e partimos para concluir a travessia.
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Sentimento interessante esse, o de fazer algo inédito num mundo onde já não há mais quase nada de novo pra fazer, principalmente em termos de montanhismo, ainda mais no Brasil!
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O sol começava a baixar no horizonte, e ainda tínhamos um longo trecho pela frente. Apertamos o passo, e o cansaço começou a bater pesado. Sentia vontade de parar, comer uma barrinha de cereal, descansar um pouco as pernas. Mas silenciosamente tínhamos ambos o mesmo objetivo: chegar até o Crista ainda com luz do dia. O tempo todo caminhamos com o Crista na frente, mas no final é preciso fazer uma volta gigante, passando primeiro por um planalto onde há clareiras de acampamento.
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Pouco antes de chegar ali, fomos saudados na trilha por dois elementos, um deles portava uma faca tipo Rambo e o outro a garrafa de pinga! Escapamos de mais essa para cair no meio de um verdadeiro circo. Tinha de tudo ali no Crista, barracas pichadas, pseudo-escoteiros com facão na mão, gente soltando rojão, turmas assando aquela costela na churrasqueira de tambor (como ela foi parar lá?!), enfim, um verdadeiro caos na montanha! Nunca na minha vida vi tanta farofagem reunida num só lugar! Custamos a encontrar o caminho, pois pra todo lado saía uma trilha que levava a um monte de cocô e papel higiênico borrado, ou a outra barraca mocada no mato. Ali pude imaginar como se sentiria um alienígena que caísse na Terra por engano!
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Deixamos mais esse inferno para trás, e subimos até o Monte Crista. , Cerca de 35 horas depois de partirmos do cume do Araçatuba, alcançamos a última montanha da travessia! Lá em cima já estava escuro, e apesar do cansaço fizemos uma pequena comemoração. Completamos uma das mais longas travessias em montanha do Brasil no tempo mais rápido até então!
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Mas ainda restava um grande desafio: retornar a Curitiba. Devido ao horário, era quase improvável conseguir um ônibus que nos levasse de volta no mesmo dia. De fato, não tínhamos a menor idéia de como chegar até Garuva, a cidade mais próxima. A descida do Monte Crista é uma longa trilha, e naquela noite estava mais longa ainda! Em certos trechos há degraus de pedra, remanescentes do Caminho Colonial dos Ambrósios, antiga ligação entre São Francisco do Sul – SC e o planalto de Curitiba. Após vencida a descida, a trilha ainda segue por um longo trecho mais ou menos plano. A cada riozinho que cruzava o caminho eu queria parar pra matar a sede e lavar o rosto. O silêncio que imperava entre nós dava uma idéia da exaustão. Procurava me animar imaginando as maiores recompensas que me aguardavam no final da trilha, como uma garrafa de Coca gelada, um suculento bife com batata frita, uma cama macia e confortável, um bom banho. Perdido nos meus devaneios acabei diminuindo o ritmo e quando me dei conta, o Elcio tinha se mandado na frente.
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Acelerei os passos e procurei me concentrar na caminhada e logo o alcancei. Chegamos a um rio bem largo, já quase no final da trilha, exatamente 48 horas depois de descermos do ônibus! O Elcio não resistiu e caiu na água gelada de cueca mesmo! Eu preferi não arriscar e apenas me lavei o rosto e os pés. Continuando, chegamos logo até a ponte pênsil sobre o rio Três Barras, onde acaba a trilha. Fomos pedir informações com um senhor que mora lá, pra ver como podíamos fazer pra chegar até Garuva. Ele nos contou que a apenas 5 km tinha um posto de combustíveis, onde a gente podia conseguir uma carona ou mesmo um ônibus. Acreditamos nele e resolvemos encarar.
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Ainda tivemos que andar um bom pedaço de estrada de chão até alcançar a BR 101. Quando saímos nela, o GPS do Elcio marcava 78 km percorridos desde que descemos do ônibus. Andando pelo acostamento, procurava desligar o cérebro para não sentir a dor das solas dos pés transformadas em calos e bolhas. Talvez pior ainda fosse a dor nos joelhos, ou a da articulação do quadril. Mas não tinha opção, apenas seguir em frente. Viramos uma longa curva e entramos numa longa reta, mas nem sinal do tal posto! E se aquele senhor estivesse mentindo? Sabe lá Deus quantos km teríamos que andar até Garuva!
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Mais inteiro do que eu, o Elcio sumiu na frente, e eu fui no meu ritmo, mancando das duas pernas! Já era de madrugada e estava garoando quando finalmente cheguei no tal posto. Desabei num banco, e até teria dado risada, se não doesse tudo, quando o Elcio sugeriu seguir em frente até a rodoviária de Garuva. Afinal, eram só mais 4 km. Mas eu não tinha condições nem de andar até o banheiro. Compramos uma Coca, descansamos um pouco, mas minha situação só piorava! O Elcio já estava ficando impaciente, pois ali onde estávamos não conseguiríamos resolver nunca nosso problema, era preciso ir até Garuva. Foi então que encostou uma viatura da PM. Elcio foi solicitar ajuda, a princípio eles disseram que não podiam dar carona, mas quando eles me viram andando tal qual uma múmia com câimbras, me puseram na viatura para me levar até Garuva. Elcio recusou a carona, seguindo bravamente a pé os últimos quilômetros!
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Esperei o Elcio chegar, e fomos procurar um bom canto na rodoviária, onde deitamos e dormimos. Fomos oportunamente incomodados por um indivíduo mais bêbado do que um gambá. Falando em gambá, não sei que problema houve, mas minhas meias exalavam o odor típico dessa espécie animal. Aroma que se fez sentir em toda a rodoviária! Quando começou a clarear o dia, encontrei um banco onde estendi meu isolante, e me enfiei no saco de dormir. Mais tarde percebi que o banco ficava em frente a um sex-shop (sex-shop numa rodoviária?!). Pela manhã conseguimos lugar no primeiro ônibus para Curitiba.
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Para mim, foi um grande orgulho ter feito parte da equipe que realizou essa travessia histórica!!!



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