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Reflexão

Desafios psicológicos e emocionais de uma escalada em alta montanha


Colunista:

Há muito tempo ajudo pessoas a planejar escaladas em alta montanha, dando dicas e sugestões.Recentemente tenho realizado trabalhos de guia e por isso acumulo uma vasta experiência em lidar com pessoas que tentam realizar ascensões em montanhas de altitude. Através da reflexão destas experiências realizo aqui alguns comentários sobre as dificuldades normais enfrentadas pelas pessoas neste tipo de ambiente, e ainda comento como a cultura "normal" brasileira é uma barreira no enfrentamento destes problemas.

 

Por Pedro Hauck

Não faz muito tempo, meu parceiro de montanha, Maximo Kausch, escreveu um texto afirmando que os brasileiros são os que desistem mais fácil de escaladas em montanhas e isso é um fato, mesmo havendo poucos dados. Não se vê estrangeiros desistindo tão fácil quanto brasileiros.

Acredito que o que mais leva pessoas a desistirem de escaladas em alta montanha são os fatores psicológicos e emocionais, seja por que a montanha é um ambiente solitário, cheio de desconfortos e incertezas, seja pela maneira que normalmente o brasileiro é criado, com muito apego à família.

 

Por que o ambiente de altitude é exigente psicologicamente?

Esta é a primeira pergunta que pretendo dissecar. Numa montanha de altitude, o tempo que se gasta para escalar é muito maior que numa montanha mais baixa. Mesmo que você possa chegar na base de uma montanha alta de carro. Antes de tentar cume você precisa se aclimatar, ou seja, fazer que seu corpo se acostume com a altitude, e esse é um processo demorado.

Mesmo fazendo uma boa aclimatação, é muito difícil que você consiga ter boas noites de sono em altitude, principalmente no começo. À noite, paramos de nos entreter conversando com o parceiro, ficamos desconfortáveis com o frio e a posição horizontal do corpo piora a circulação, e com isso acaba que este momento é quando mais sofremos. Passar uma noite em claro, com dor de cabeça, alucinações etc, gera pensamentos negativos que refletem aquele sofrimento momentâneo e aumentam a angustia, um sentimento que você não quer ter nunca, especialmente num lugar isolado e apartado das pessoas que você gosta. 

A altitude é um problema, não somente por que demora para aclimatarmos a ela, mas também por que ela gera muitos incômodos, como dores de cabeça, ânsia de vomito, falta de apetite, insônia, alucinações etc.

O ambiente de montanha também é muito incerto, pois é um ambiente extremo. Você nunca sabe se o tempo estará bom, se estará muito frio, calor, se passará por algum local muito difícil, se terá aptidão física para vencê-la. A incerteza com relação ao meio é uma constante, sobretudo em locais menos conhecidos e menos frequentados. Isso é um peso muito grande na carga emocional das pessoas.

 

A angústia e a “síndrome do retorno imediato”

A incerteza em relação ao meio e o tempo prolongado de permanência em altitude e seus efeitos evoluem para a angustia. Como sentir-se confortável com este sentimento? Este é um grande desafio.

A angústia gera saudades das pessoas de que gostamos, e isso nos faz ter vontade de voltar. Claro que você está na montanha e estar ali não é fácil. Teve que viajar de longe, que fazer economias, treinar e isso tudo foi custoso, não apenas financeiramente, mas em tempo e esforço. No entanto a incerteza dá lugar a planos. Fazer cume amanhã, depois de amanhã voltar à base, assim sucessivamente. No entanto, estes planos são facilmente frustrados na montanha, que é um ambiente indominável. Ao invés de você ficar mais e esperar uma melhor chance, acaba sendo seduzido pelo plano original e regressa, às vezes sem nem tentar. Toca o “foda-se” e perde o cume. Montanha é lugar de paciência, planejamento em montanha é uma referência e não uma receita. Você precisa estar a aberto a rever e a re-planejar sua escalada de acordo com o tempo e seu estado físico. Claro que fazer estas reavaliações não é fácil, emocionalmente falando. Este é um tipo de desistência comum ocasionado pela angustia e expectativas.

Há pessoas que cortam caminhos e, para resolver a angústia, decidem voltar e abandonar a montanha. Esta solução imediata deste problema emocional é algo até comum e eu o denominei como “síndrome do retorno imediato”. O sintoma desta síndrome a pessoa querer eliminar tudo o que existe entre ela e sua casa. Geralmente a pessoa fica tão desesperada com a angústia e deseja tanto reconfortar-se com seu lar que não se importa em pagar fortunas para remarcar passagens aéreas e nem perdem tempo em tomar banho, embarcam com a roupa suja da montanha num avião, e fedendo. Estão desesperados para voltar.

 

O significado reconfortante de seu lar.

Não existe nenhum lugar mais saudável para seu cérebro que seu lar. Sua casa é seu ninho de segurança e lá você encontra tudo o que te faz bem. Suas pessoas queridas, suas lembranças, sua cama, seu banheiro, sua mulher, etc. Por isso, sua casa é o lugar número 1 onde você quer estar quando se encontra em dificuldades.

Por outro lado, a montanha é fria, venta demais, é suja, solitária e desconfortável. Quando você estiver em dificuldades na montanha, terá sua barraca e sua casa estará muito distante. É preciso familiarizar-se com a montanha e com a barraca e sentir confortável nestes locais, abstraindo o significado de lar por um tempo.

Esta é uma tarefa difícil para muita gente, mas é um treino mental importante. Assim como também é importante treinar que sua casa seja seu lar e não a barraca, pois quando voltar à civilização viverá uma síndrome inversa que socialmente é bastante complicado e já deixou alguns montanhistas loucos.

 

Solidão importa?

Já vivi momentos incríveis sozinho numa montanha, sentindo-me confortável com o lindo visual, as estrelas, pôr do sol, etc. Estar sozinho não é o problema, todos precisamos de tempos solitários para refletir e conhecer a nós mesmos. A solidão não é estar só fisicamente, mas sim você sentir falta de algo que não está com você. É comum sentir-se solitário numa expedição com outros companheiros. Refletindo, sinto falta de minha namorada, de um ente familiar.

A solução deste problema é muito pessoal e cada pessoa deve buscar uma maneira de se confortar com esta solidão.

Um sintoma comum desta solidão é a nostalgia. Você sente saudade de coisas triviais do dia a dia, só por que não os tem na montanha.

É um sentimento contraditório, pois quando está em casa, no dia a dia, você deseja estar na montanha, mas quando está na montanha, deseja reviver seu dia a dia. Uma armadilha emocional.

 

Responsabilidade

Quando estamos escalando por conta própria, somos responsáveis por nós mesmos e por conta disso e a incerteza com relação ao meio, tendemos a sofrer mais angustia pela ansiedade.

Quando estamos numa expedição comercial, transferimos a responsabilidade para o guia e isso conforta bastante as pessoas que não gastam seus pensamentos com preocupações. As expedições comerciais também são uma facilidade em outros aspectos. Como há mais pessoas com quem podemos compartilhar nossas vivencias, nos divertir e estar descontraídos, são ambientes onde as pessoas desenvolvem menos sentimentos solitários e angustiantes e são uma vantagem.

Por outro lado, os guias destas expedições carregam muita carga de responsabilidade. É por isso que estas expedições devem ser lideradas por pessoas com muita experiência, para que eles tenham todas estas questões muito bem resolvidas e não transfiram a negatividade para seus clientes. Em minhas experiências como guia, noto que isso faz total diferença no sucesso de uma expedição.

 

Expectativas e a síndrome do montanhista herói

O montanhismo é uma atividade que desperta um sentimento de heroísmo. Você não compete com ninguém, mas compete consigo o tempo todo. Talvez por isso quando chegamos no topo de uma montanha virgem nós “conquistamos” ela.

Culturalmente o montanhismo é muito ligado à vitória e glória e seu oposto, a derrota e a tragédia, sempre explorado de maneira dramática catastrófica por quem narra estas histórias. Aos vitoriosos há um sentimento de heroísmo, que faz muita gente realizar analogias entre escalar uma montanha e ser bem sucedido, inclusive se faz isso corporativamente nas empresas e não raro montanhistas com boa fala passam a ser contratados para motivar pessoas.

No meio empresarial pode ser que a analogia seja benéfica, mas pessoas frustradas em suas vidas privadas ou profissionais nunca devem querer usar a analogia inversa para provar algo a alguém. Ninguém é melhor humano ou profissional por que escalou uma montanha. Pior ainda, montanha é por definição um ambiente incerto e perigoso, e quem quer provar algo a alguém é um forte candidato a morrer lá em cima, ou pelo menos para, de fato, retornar derrotado.

A montanha não derrota ninguém. Se você não fez cume, você não perdeu nada. Perdeu apenas o prestigio após ter anunciado a todos no trabalho (quem você não gosta e compete), que iria escalar e não escalou. Não escale para provar nada a ninguém e nem para competir. Isso pode gerar muitas frustrações maléficas a seu emocional. Muitas pessoas enlouqueceram por isso.

Não caia na síndrome de herói, escalar uma montanha não é um ato de heroísmo, é apenas uma superação pessoal. Eventualmente uma superação esportiva (para poucos).

 

Os brasileiros e alta montanha

O brasileiro é um povo que tem uma cultura que em muitos pontos tendem a ter conflitos com as maiores dificuldades emocionais e psicológicas apontadas acima. A primeira delas é um apego anormal a seus entes. Enquanto que em lugares como na Europa e EUA os filhos são criados para rapidamente ganharem independência e saírem de casa, os pais brasileiros mantém seus filhos sob suas asas por muito tempo.

As mães brasileiras nunca querem que seus filhos fiquem longe. É uma relação de super proteção. Na atual geração de adultos é comum encontrar filhos de 40 anos vivendo com seus pais.

Esta relação de apego geralmente é transferida para o cônjuge quando o brasileiro sai de casa. Ou seja, mulheres e homens dependentes um do outro de forma muito forte emocionalmente. Isso não significa que eles são fiéis, pois acabam por transferir para novos parceiros o apego que tinham com o anterior. Isso é tanto verdade que o brasileiro é um povo ciumento e isso é visto como indicativo de amor, o que não é verdade.

Não há montanhas de altitude no Brasil, somos obrigados a ir a países de cultura diferente, lá não tem cafezinho, não tem arroz com feijão, não tem jogo do Corinthians domingo à tarde, ou seja, aquelas coisas familiares que te confortam quando está em casa e pior: Sua mãe e sua mulher estão longe....

Juntando isso tudo e as dificuldades normais das escaladas, como incerteza com relação ao meio, isolamento, tempo de permanência alto, angustia crescente, expectativas que não se cumprem, síndrome de herói indo água abaixo, etc. Isso tudo acaba por resultar na síndrome do retorno imediato.

 

Há uma receita para superar os desafios psicológicos e emocionais de uma escalada em alta montanha?

Não, não há.

Isso por que cada indivíduo tem sua história e seus sentimentos. O que pontuei é uma generalização que se repete com maior frequência.

Cada pessoa precisa identificar em sua personalidade algum problema que se destaca mais e tentar resolver internamente.

Às vezes ir evoluindo aos poucos ajuda. Como ir com mais frequência para a montanha no próprio Brasil, realizar pernoites, travessias. De forma que possamos nos acostumar com estas dificuldades aos poucos, já que nossas montanhas apresentam em menor escala todos estes problemas.

Depois podemos vir para os Andes e encarar montanhas menores e mais rápidas, para só depois tentar encarar uma montanha longa e exigente como, por exemplo o Aconcágua.

Brasileiros desistem muito em montanhas como o Aconcágua exatamente por não terem se aclimatado emocionalmente para este tipo de desafio. Como lá há estatísticas e a língua afiada dos guias, histórias de brasileiros desesperados que voltaram correndo para suas casas são muitas.

Não seja mais um deles.

 

 




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