Rolando Garibotti tenta elucidar a escalada de Maestri em 1959 no Cerro Torre - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Polêmica

Rolando Garibotti tenta elucidar a escalada de Maestri em 1959 no Cerro Torre

Escalador italiano que vive na Argentina de longa experiência nas torres graníticas de El Chaltén descobriu com comparação de fotografias antigas e atuais que o polêmico escalador Cesare Maestri, que afirmou ter escalado o Cerro Torre em 1959 pode não ter escalado a montanha naquela ocasião e tenta elucidar como se deu a morte de seu parceiro, Toni Egger, que faleceu no episódio.

Fonte: PataClimb

A história da suposta primeira escalada no Cerro Torre, ocorrida em 1959 pelo italiano Cesare Maestri e o austríaco Toni Egger são parte das histórias de montanhismo comentadas até hoje nos círculos de escaladores. Cesare foi certamente um dos maiores escaladores de seu tempo na Itália, mas ele sempre foi desacreditado por ter feito a primeira ascensão no Cerro Torre, pois sua versão do ocorrido era recheada de contradições e inconsistências.

Maestri em Egger estiveram na Patagônia em 1958 estudando e realizando tentativas, até que em 1959 a dupla fez um ataque ao cume, que durou 6 dias, no entanto, somente Maestri retornou vivo. O italiano foi encontrado moribundo e sozinho na base da parede no dia 3 de Fevereiro daquele ano afirmando que fez cume na montanha.  Ao montar sua história, no entanto, ele foi pouco a pouco se contradizendo, ao ponto em que muitas pessoas passaram a duvidar publicamente de seu feito. As críticas a Maestri motivaram ele a retornar à montanha em 1970 e nesta nova expedição abrir a mal fadada “Rota do Compressor”, onde ele usou este equipamento para fazer furos e instalar proteções fixas na parede da montanha e assim conseguir realizar sua ascensão.

O compressor está até hoje no Cerro Torre, no entanto, a realização de Maestri foi ainda mais criticada que sua tentativa 11 anos antes, uma vez que esta ascensão não foi considerada ética por conta do uso do compressor.

Histórias à parte, até hoje não se sabe se Maestri mentiu ou não sobre seu cume em 1959, no entanto, novos estudos levados a cabo pelo montanhista ítalo-argentino Rolando Garibotti deixam mais evidente o fato que o montanhista não esteve no cume naquele ano. Sabe-se bem de tudo o que houve nos dias que se antecederam o ataque ao cume de Maestri e Egger, uma vez que foram dias gastos em porteios e fixação de cordas, onde houve a participação de outras pessoas. Os 6 dias em que a dupla esteve na parede estão apenas registrados no livro Arrampicare e il Mio Mestiere (Milano, Garzati, 1961), de onde Garibotti extraiu fotos que comprometem a versão oficial:

Uma foto (na págia 65), tirada por Maestri, mostra o começo da escalada de Toni Egger que na legenda é tida como “as vertentes baixas da parede do Torre”. Dois anos atrás, Ermano Salvaterra e eu noticiamos esta foto durante nosso trabalho de editar um livro ainda não publicado. Para nós estava claro que aquela foto não era no Cerro Torre, mas não sabíamos dizer onde era aquele local, pois a foto havia sido cortada de tal forma que não podíamos identificar a paisagem por trás. Um ano atrás, Kelly Cordes me pediu para olhar aquela foto de novo e recentemente ele insistiu em fazer o mesmo, então resolvi me esforçar mais. Após horas estudando as imagens de todo o vale do Torre, com a ajuda de Dörte Pietron, nós reconhecemos um elemento da paisagem que combinava com a foto em questão. Bingo!

A foto de Egger tirada por Maestri foi na verdade tirada da face oeste do Pico Perfil de Índio, uma pequena torre ao norte do colo de Standhardt, entre as Agulhas Standhardt e Agulha Bífida, na porção oeste do maciço do Cerro Torre, no lado oposto daquilo que eles afirmaram ter escalado.

Nos relatos de Maestri, tanto em 58 quanto em 59, ele nunca mencionou ter feito uma escalada no lado oeste do maciço do Torre. Os 6 dias de ataque em que supostamente Maestri e Egger teriam chegado no topo da montanha seriam os únicos dias não registrados e sem testemunhas. O que teria de fato ocorrido nestes dias? Esta foto é uma prova inquestionável do local onde eles estiveram durante estes dias e curiosamente este local nunca foi mencionado em nenhum relato.

O local da foto, no entanto, não é sequer próximo da face onde Maestri diz ter escalado e também não é um local onde você pode chegar da rota que ele afirma ter subido, mesmo se houvesse se perdido. No entanto, de acordo com Garibotti, é possível que, em decorrência da dificuldade técnica da face leste do Torre, a dupla tenha tentado subir a face oeste da montanha, numa rota que Walter Bonatti e Carlo Mauri descobriram um ano antes e que inclusive haviam realizado uma bela progressão por ela.

Do campo base da face leste para o lado oposto da montanha, a única maneira de alcançar a base da face oeste seria escalar as vertentes do colo Standhardt e então rapelar no lado oposto, (que décadas depois se tornou inclusive o caminho normal de se chegar às rotas da face oeste). Na foto de Maestri, Egger aparece escalando abaixo e imediatamente ao norte do colo de Standhardt, obviamente retornando para a face leste do maciço. Não deixa de ser uma ótima lição de como encontrar uma rota de escalada. Na última década, duplas que tentaram voltar do mesmo colo a partir da face oeste tiveram que enfrentar a inclinação e a dificuldade da escalada para tal. A linha escolhida por Egger e Maestri é muito mais fácil (III grau). Desde o colo Standhardt, a dupla encarou um retorno debaixo de ventos carregados e vertentes prontas para despejar avalanches que terminam na parte baixa do glaciar Torre, onde os restos de Toni Egger foram mais tarde encontrados.

A morte de Toni Egger continua um mistério. Baseado nestas novas informações, é possível que ele tenha sofrido um acidente descendo do colo Standhardt. A única pessoa que sabe o que realmente aconteceu se recusa a falar, levando pesquisadores a juntar o quebra cabeças e hipóteses sobre o assunto.

O maior problema da história de Maestri, é que ele deu informações imprecisas à família de Egger sobre sua morte. A irmã de Toni ainda é viva e ainda tem rancor pelo fato de que o italiano nunca deu à família os pertences do montanhista, seja equipamentos, ou os diários. Toni Egger era conhecido por relatar em seus diários os detalhes das expedições.

Para Garibotti, Cesare Maestri precisa dar uma explicação sincera para ele e para o mundo sobre o que aconteceu naqueles 6 dias na Patagônia. De acordo com o ítalo-argentino, a última lição que fica de Egger, foi sua enorme capacidade e perícia em encontrar rotas nas montanhas. Ele espera que a última de Maestri seja a integridade de estar a limpo desta história uma vez por todas.

Veja mais:

:: A História da conquista do Cerro Torre
:: A útima escalada da via do Compressor - por Ricardo "Rato" Baltazar
:: Mais notícias sobre o Cerro Torre
:: Relato original na íntegra de Rolando Garibotti
 

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