Maximo Kausch denuncia: O maior problema do Nepal é a desinformação - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Uma perspectiva econômica, política e social do Nepal pós terremoto.

Maximo Kausch denuncia: O maior problema do Nepal é a desinformação

Hoje Kathmandu acordou após 4 noites de sono. Desde o terremoto o governo local decretou que as pessoas não deveriam ficar em suas casas até uma segunda ordem. Trata-se de milhões de pessoas dormindo na chuva no quintal ou mesmo na rua com barracas improvisadas. A grande maioria das lojas e mercados abriram hoje pela primeira vez. Obviamente as informações saídas de um caos desses não eram nada boas.

Fonte: Redação

* Maximo Kausch estava guiando no Nepal quando houve o terremoto. Ele ficará no país por mais uma semana para ajudar no socorro às vitimas.
 
Casas erguidas com colunas de estrutura de aço quase não foram afetadas. O pior dano na região metropolitana de Kathmandu foi em casas feitas completamente de tijolos ou pedras, especialmente na periferia. Cidades periféricas como em Patan ou Bhaktapur (onde se localizam grandes templos históricos) tiveram a maior destruição por se tratar de construções de estrutura muito pobre.
 
Atualmente se calcula que 20% das casas na capital tiveram avarias sendo que 3% destas teve danos graves ou cederam. Todos esses dados são extra-oficiais considerando que só hoje os nepaleses estão fazendo inspeções mais cuidadosas.
 
O Everest
 
Após o fechamento do Everest pelo segundo ano consecutivo, muitos temem um grande enfraquecimento no turismo local. Primeiro foi a avalanche na cachoeira de gelo do Khumbu do ano passado que matou 16 sherpas, agora veio outra avalanche que matou 19 pessoas na base da montanha. Todos já devem saber bem sobre as notícias. 
 
 
 
 
Ambos lados do Everest estão fechados. Apesar de não oficial, todas as expedições do lado sul do Everest estão terminadas. A notícia que chegou aqui disse que 3 dos “icefall doctors” faleceram na avalanche (são pessoas que trabalham na cachoeira de gelo para estabelecer a rota para os turistas) e isso dificulta muito a continuidade das expedições comerciais já que os clientes não estão preparados para escalar a montanha sem cordas pré-instaladas. Muitos dos que tentavam o Everest esta temporada eram os que não tiveram a chance de tentar o ano passado e isso trará uma péssima reputação à montanha. Mesmo com os descontos oferecidos pelo governo aos que já tentaram em 2015, muitos já acreditam que haverá uma diminuição de turistas tentando o cume do Everest na próxima temporada. 
 
A CTMA, órgão chinês que administra e autoriza expedições para escalar montanhas do lado tibetano do Everest, acabou de declarar que o Everest está fechado para expedições estrangeiras e todos já estão descendo.
 
Agora há mais de 4000 turistas à caminho ou em Lukla, tentando chegar à Kathmandu. Lukla é o famoso aeroporto que foi considerado o número 1 nos “Top 10 World’s most dangerous airports” que é usado como início e fim do trekking do Everest.
 
Devido à quantidade de novos horários implementados pelas empresas aéreas para atender a demanda de tantos turistas querendo sair, não há espaço para os vôos locais que tentam pousar Kathmandu. Há inclusive relatos de um avião com paramédicos japoneses que tentou pousar 2 vezes em Kathmandu e não conseguiu devido aos congestionamentos dos vôos de saída. Há centenas de pessoas que desistiram de Lukla e optaram por pousar em Phaplu (há pelo menos 2 dias mais abaixo de Lukla) e ir de carro para Kathmandu.
 
Langtang, na boca do Gol
 
Há graves consequências em lugares como Langtang ou Lamjung que estão bem próximas do epicentro e trata-se de pessoas pobres em sua maioria. Consequentemente as construções dessas áreas são normalmente bem precárias e carecem de uma estrutura de aço e concreto.
 
Sem internet ou sequer acesso para chegar à Langtang, os poucos gringos malucos que conseguem juntar suas tralhas e organizar expedições para ajudar, acabam sendo barrados pelo que parece ser escombros de uma avalanche que teve alguns quilômetros de largura e começou das encostas do Langtang Lirung e Langtang II.
 
Pequenos agrupamentos de casas como Thangshiap e Chiamky que ficavam próximos à Langtang, também foram soterrados pela avalanche. Há também problemas com uma série de deslizamentos de terra além de mais avalanches causadas pelas dezenas de terremotos secundários produzidos após o principal.    
 
O breve futuro econômico do Nepal e os transtornos causados pela mídia
 
Com o fechamento do Everest e o pânico causado em outras montanhas da região, a grande maioria dos turistas abandonou o vale do Khumbu e seus adjacentes e está neste momento tentando descer à Kathmandu para sair do país.
 
Vejo que a mídia sensacionalista teve um papel positivo e outro negativo.
O lado negativo foi o pânico. Cansei de ler matérias publicadas durante esta semana de repórteres que alegavam que “não tem nem eletricidade ou água” ou outro dizendo que demoraram muito mais do que esperado para chegar à capital do país. Para os que viemos muitas vezes aqui, costumamos dizer: “TIN: This Is Nepal”. O caos sempre tomou conta deste paizinho entalado no meio do Himalaya. Falta de recursos não é surpresa aqui! 
 
Chegar por terra à Kathmandu é uma ciência! Todos sabem dos comuns protestos nas estradas que são diariamente fechadas devido às dezenas de partidos políticos novos que apareceram após o fim da monarquia em 2006.
 
Venho aqui há 10 anos. O Nepal sempre teve cortes de energia. Normalmente a energia elétrica aqui é cortada por 16 horas do dia devido à problemas políticos e contratos com o governo indiano, assim nem sobra energia para o Nepal. O abastecimento de água aqui sempre foi instável, a internet é normalmente um pouco pior que a brasileira, ou seja, beeeem ruim.
 
O lado positivo foram recursos. Ao ver tanto caos, profissionais da medicina de dezenas de nacionalidades de fato se deram ao trabalho de vir aqui para ajudar. Além disso inúmeros recursos foram levantados para ajudar na tragédia. No entanto o problema agora é direcionar tudo isso!
 
A desinformação
 
Há inúmeros recursos chegando ao país há cada hora que passa. O que falta agora é organizar tudo isso. Falta gente que reúna toda a informação que chega sobre a tragédia e priorize os recursos de acordo com a necessidade. 
 
O maior problema aqui agora é a desinformação. Hoje ao chegar à Kathmandu após 2 semanas nas montanhas, vimos um grupo de paramédicos russos que tinham acabado de chegar ao Nepal. Um guia nepalês os ajudava. Após chegar, os russos já estavam com cara de “ok, já estamos prontos, onde vamos?”. Com o pouco nepali que falo consegui entender quando o guia chamou um amigo perguntando “ache uns estrangeiros aí e pergunta onde teve terremoto ruim!”.
 
Pânico e desinformação afugentaram toda a massa de turistas do Nepal e isso está afetando muito a economia local. Para um país que depende do turismo e está se reconstruindo, isso é grave!
 
Se estima que há uma massa de pelo menos 300 mil pessoas que estão saindo ou já saíram de Kathmandu temendo o pior. Muitos estão ficando com as famílias em regiões rurais. Por um lado isso vai descongestionar a cidade, por outro lado vai matar o comércio interno e isso provavelmente causará inflação no ano que vem. Com uma inflação já um tanto generosa nos últimos 8 anos, acredito que muitos turistas vão optar por outros destinos turísticos, ou seja, lá vem mais bomba para o pequeno Nepal!
 
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