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Na parede

Edemilson Padilha fala de sua nova conquista no ES: No Fio da Navalha

O escalador paranaense Edemilson Padilha, o Ed, é um dos mais experientes e respeitados escaladores de parede do Brasil. Recentemente ele esteve na cidade de Castelo no Espirito Santo junto com Valdesir Machado e Élcio Muliki e conquistaram a via “No Fio de Navalha” na impressionante Pedra do Fio. Trata-se de uma grande via de parede de 700 metros de altura com grau de dificuldade elevado que exigem bastante comprometimento.

Fonte: Redação

AltaMontanha: Qual foi seu parceiro nesta empreitada?
Edemilson Padilha: Estávamos em 3 escaladores: Edemilson Padilha, Valdesir Machado e Élcio Muliki, todos de Curitiba. Eu e o Val já escalamos juntos há 15 anos, mas com o Élcio só tínhamos escalado vias curtas, mas nunca feito uma empreitada deste porte. Claro que já o conhecíamos bem e pelas conquistas que havíamos realizado juntos em Piraí do Sul, não deu outro resultado, a equipe funcionou perfeitamente. Todos muito sintonizados, e sempre que dois estavam cansados o terceiro assumia a ponta da corda e fazia a sua parte.
 
AM: Como soube da existência desta montanha e como foi a escolha da linha?
EP: Tínhamos alguns informantes da região. Há tempos converso sempre com o Naoki Arima sobre as montanhas de lá e mais recentemente ele postou uma foto incrível da Pedra do Fio. No início de abril também conversamos com o Roberto Teles que mora lá perto, em Afonso Cláudio e este nos convidou para irmos para a região. O que acabou sendo o estopim para armarmos uma expedição para lá. Decidimos meio encima da hora porque o clima estava instável ainda na região. Mesmo quando saímos de Curitiba ainda não sabíamos se o tempo iria colaborar. Procuramos bastante para encontrar um site que tivesse um bom prognóstico climático, pois a maioria dizia que ia chover (rs).
 
AM: Quanto tempo levou a conquista?
EP: Partimos de Curitiba na quinta à noite, dia 16 de abril. Rodamos 19 horas e aportamos na base da pedra depois do almoço na sexta. Deu tempo de caminhar por lá e eleger o nosso caminho pra cima. No sábado conquistamos 350 metros e deixamos as cordas fixas. No outro dia entramos com tudo e levamos mais 3 dias de escalada, dormindo num platô horrível a 400 metros de altura. O lugar é bacana, super visual, mas o chão é totalmente irregular sem nenhum lugar plano para dormir. Mas era o que tínhamos...
 
AM: Como ficou a via? Graduação, comprometimento. E quais são as características se alguém quiser repetir?
EP: Ficou uma via dura, de 700 metros, com grau médio de 6º, duas enfiadas de 8ª em móvel, um trecho de furos de cliff (A1) e uma parte exposta no início (E3). Acreditamos que possa ser repetida em um dia por uma equipe forte. Mas é melhor considerar dois dias. É interessante o fato que quase não pegar sol na parede. A partir das 11H ou até antes o sol passa para trás da montanha. Isso contribuiu para ficarmos torrando na parede. Os 400 metros iniciais são mais deitados, mas os 300 finais são ou 90º ou negativos! Tem alguns trechos um pouco ruins de rapelar se não deixar corda fixa devido às transversais.
 
AM:  Conte algumas das situações que vocês enfrentaram na parede. Dificuldade ou perrengue 
EP: A dificuldade maior foi no terceiro dia de escalada. Subimos eu e o Élcio, sabíamos que seria um trecho duro. Meu parceiro na punta caliente da corda e eu na seg. Progredia lentamente, mas de repente levou uma boa queda, ficou calado por uns instantes e logo me gritou que teria de descer, pois havia se machucado. Por sorte estava bem no meio da corda e o desci até a parada; havia cortado queixo e um doa dedos na queda. Subo eu, tento em livre, não rola, vou em artificial e um furo se rompe, também levo uma queda das boas e corto a mão. Desastre, mas não preciso descer. Continuo um bom tanto em artificial e bato a parada aérea, daquelas de cortar as pernas e a cintura. Meu parceiro assume a ponta e depois o Val sobe pra ajudar e terminamos o dia com poucos metros conquistados e pouca água. Descemos para o ponto de bivaque e nem o feijão liofilizado nos animou, dormimos preocupados com o próximo dia.
 
AM: Mais alguma consideração
EP: No quarto dia de conquista, por sorte fomos brindados com 3 esticões lindos e todos em livre, o primeiro, que tive a honra de guiar, é uma fissura perfeita de 55 metros. Com pouca água e muita motivação atingimos o cume lá pelas 3 da tarde, com a tempestade se formando. Iniciamos os rapéis achando que ia cair o mundo, todavia a chuva nos poupou e em algumas horas pisamos em terra firme. Muita água era só o que queríamos. Depois banho e dormir sem ter de acordar as 4 da madrugada.
 
Quem for repetir a via pode falar com o Felipe Spilare, o qual possui um refúgio excelente de frente pra pedra.Toda a família Spilare é incrivelmente hospitaleira.
 
Agradecemos aos amigos capixabas (Naoki e Roberto) pelas dicas e ao Willian Lacerda e Alessandro Haiduque pelos equipos emprestados.
 
Croquis da via "No fio da Navalha" na Pedra do Fio em Castelo ES. Por Edemilson Padilha.
 
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