17/01/05 - Nevasca em Nido de Condores - Altitude 5400m - Temperatura 13
graus negativos
Hoje o dia começou nublado. Tempo feio. Nosso corpo parece estar mais pesado,
a altitude aqui afeta também nossos ânimos. Estamos mais abatidos hoje e
decidimos descansar e deixar a caminhada até o segundo acampamento avançado,
Berlin, para amanhã. Não adianta forçar o corpo. Já que estamos adiantados 1
dia em relação à nossa logística, não vemos problema em dedicar o dia de hoje à
aclimatação. Além disso, o tempo lá fora está desanimador.
Passamos a manhã inteira derretendo gelo. Temos que fazer em média 10 litros
de água por dia, e isso demora. A tarde começa a nevar. A temperatura cai. Que
beleza! Agora neva pra valer. Venta bastante lá fora e de vez em quando alguns
trovões são ouvidos. É o chamado "Viento Blanco" que sopra do oeste carregado
de umidade do Oceano Pacífico. Estamos a apenas 170km do oceano.
Agora o jeito é se meter dentro do saco de dormir e começar a fazer palavras
cruzadas. Temos 3 livrinhos cada um. A outra opção de distração é um baralho,
mas sem uma mesa fica difícil jogar algo. Além do mais, o interior da barraca
está uma bagunça e não há espaço para mais nada. São muitos equipos, roupas,
comida, sacos de lixo, garrafas de água, panelas, lanternas, e uma série de
outros itens amontoados aqui dentro. Não adianta organizar, porque logo mais
tudo
fica desorganizado denovo. Já nem esquentamos mais a cabeça com isso. A única
regra que mantemos é deixar as botas externas, os escarpins e os resíduos
orgânicos para fora da barraca.
Por falar em resíduos orgânicos, fomos forçados a arrumar uma solução para a
urinada noturna. Devido ao alto consumo de líquido, estamos urinando cerca de 3
vezes durante a noite. Não dava para sair da barraca toda hora numa temperatura
inferior a -10 graus. Além disso, colocar todas as roupas demora muito e dá
trabalho. A solução foi arrumar uma garrafinha de 1 litro
para cada. Com concentração e muito cuidado resolvíamos essa questão toda a
noite. Depois de preenchida, bastava apenas colocar o braço para fora e despejar
o conteúdo fora. Com a prática fomos adquirindo habilidade e acabamos estendendo
a solução para os períodos diurnos de nevasca.
A noite chega e nada da nevasca parar. Preparamos uma sopa austríaca que
recebemos de um alpinista que acabara de chegar do cume. Aqui é normal a doação
de alimentos e combustível por parte daqueles que estão abandonando a montanha.
Bom para ambas as partes, pois ele desce mais leve e a gente inova o cardápio.
Amanhã é dia de subir ao segundo e último acampamento superior, Berlin, e
portear (transportar) a primeira parte dos equipos.
Hasta mañana
Murilo e Rurik
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