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A equipe Preparação A montanha Expedição Aconcágua 2005


Expedição Aconcágua 2005

22/01/04 - Investida ao Cume - Altitude 6300m - Temperatura 17 graus negativos

Este provavelmente vai ser o relato mais longo de todos e devido aos fatos ocorridos vamos apresentar mais a frente a visão de cada um de nós.

Despertamos as 4:00 da manhã. Fazia muito frio aquela hora, mas ventava pouco e o céu estava estrelado. Parecia o dia perfeito para atingir o cume do Aconcágua. Levantamos, mas um de nós (Murilo) sentia um pouco de dor de cabeça. O jeito foi mandar uma aspirina para guela. Esquentamos um chá quente para nós e nos hidratamos para amenizar os males da altitude e o frio.

Sair do saco de dormir é um parto. Custa muito. A barraca toda estava congelada, fazia -13 graus dentro dela. Para evitar que tudo se congelasse as coisas mais importantes estavam dentro do saco de dormir. A impressao é que tinha mais coisa dentro do saco de dormir do que a gente mesmo. Para se ter uma idéia cada um dormia com 2 garrafas Pets cheias de água, a parte interna das botas duplas, maquina fotográfica, rádio, lanterna, protetor solar e mais umas coisas. Tudo fica nos pés para evitar muito incômodo. As garrafas de água como estão um pouco geladas dificultam esquentar os pés. Mas melhor que ficar sem água. Terminado o café da manhã com chá e bolacha começamos a nos preparar para sair da barraca.

É necessário muita roupa para sair. Para começar são três meias. Uma fina e duas grossas. Depois são três calças. Uma que fica em contato com a pele para absorver o suor, outra intermediária de fleece para esquentar e uma externa que bloqueia o vento e o gelo para conservar o calor interno. Na parte de cima da cintura usamos quase a mesma lógica. Uma em contato com o corpo, uma fleece e uma externa de pluma de ganso para armazenar o calor na região mais importante do corpo. Nas mãos, três luvas. Uma fina, uma média e uma mitten externa. A mitten é aquela luva de dois dedos onde somente o polegar fica separado dos outros dedos. Os quatro dedos ficando juntos ajudam a conservar melhor o calor, no entanto, fica impossível fazer qualquer coisa, como por exemplo tirar fotos. É necessário removê-la rapidamente e recolocá-la para não perder o calor das mãos. E por último o gorro e/ou balaclava para protejer as orelhas e a cabeça.

Colocada todas estas roupas tiramos os pés da barraca para calcar as botas duplas, para não dizer botas de astronautas. Colocamos primeiramente a parte interna que ficou dentro do saco de dormir e depois a capa externa plástica. Feito isso, colocamos os crampons que consistem em uma peça metálica cheia de pontas afiadas de ferro que possibilitam andar em gelo sem escorregar. Naquele momento havia muito gelo e o uso de crampons era indespensável.

No momento em que partiamos rumo ao cume tambem partia um grupo de franceses juntamente com nosso mais novo amigo, o argentino de Cordoba, Fernando. Eles sairam na frente e em seguida fomos caminhando atrás. Neste momento o GPS (sistema de localização via satelite) já estava ligado para marcar o caminho até o cume. Isso garantiria que chegassemos de volta ao acamapamento Berlin em caso de uma nevasca muito forte. Existe um fenômeno chamado white-out que acontece quando uma forte nevasca cai. A nevasca deixa o céu todo branco e pelo fato do chão estar nevado e ser branco também, fica impossível diferenciar o céu do chão e perde-se qualquer tipo de referência. A visilibidade não chega a um metro.

A previsão é de sete a oito horas de caminhada até o cume e três a quatro horas de retorno, podendo totalizar ate 12 horas de caminhada. É um dia longo e com a mochila leve levando o essêncial planejamos chegar. Na mochila levamos um fogareiro, benzina, uma panela, kit médico com remédios para edema pulmonar, 4 litros de água, roupa sobresalente, rádio, lanterna, e comida é claro. A comida consiste basicamente em barras energéticas pela dificuldade que é comer com muito vento e muito frio. As barras vão nos bolsos da pluma para que não se congelem. O plano é comer uma barra a cada meia ou uma hora. Cada um leva de 12 a 15 barras.

Uma hora e meia depois caminhando sobre gelo parcialmente duro chegamos a 6100m para tirar fotos. Neste momento um de nós (Murilo) se sente tonto e com uma sensação diferente dos sintomas de mal de altitude, resolve parar. Como este dia era o único em que permitiriamos uma eventual separação, um de nós (Rurik) seguiu a subida levando um rádio enquanto o outro (Murilo) permaneceu no local aguardando melhorar.


Por Murilo:

Como a tontura não passava resolvi descer devagar. Combinei com o Rurik de nos comunicarmos a cada 15 minutos mantendo o rádio ligado a medida que ele continuava a subir. Descansaria e tentaria o cume no dia seguinte. Havia tempo. Desci então de volta ao acampamento Berlin, 5900m. Sentei e comecei a tomar água e descansar para ver se a tontura passava. A mochila dexei ao lado no chão e permaneci sentado em uma pedra.

Passados uns 15 minutos sinto minhas mãos e meus pés ficando gelados e logo percebo que se trata de uma arritmia cardiaca. Assustado levanto e começo a caminhar para tentar estabilizar a freqüência cardiaca que parece cair e deixar minha pressao baixa. Em 2 minutos ela se normaliza, no entanto fico bastante assustado e preocupado. Tento ver se há alguém no acampamento para que caso ocorra alguma coisa peça resgate. Não encontro ninguém.

Alcalmo-me e entro na barraca para descansar e me recompor do susto. No entanto, praticamente deitado na barraca sinto novamente a sensação de mãos e pés gelando e agora uma arritmia mais forte acontece. Desta vez uma dor no peito acompanha o susto. Procuro o sal na cozinha da barraca e coloco um pouco embaixo da lingua e saio da barraca desesperado. Como não havia ninguém chamo pelo rádio o Rurik que já esta em Independência a 6300m rumo ao cume. Comunico a ele que estou com problemas no coração, provavelmente uma parada cardiaca ou infarte. Desepesrado ele começa a descer. Pelo rádio verifico sua posicao porque sigo muito preocupado e já não consigo mais confiar no estado do coracao.

Não sabemos o que está acontecendo. Passados 30 minutos permaneço caminhando e verificando a posição do Rurik no rádio. Não me permito parar porque tenho impressão que baixando a adrenalina o coração resolva querer parar. Passados mais 10 minutos o Rurik chega. Temos que descer para o acampamendo Nido de Condores para ter alguma possibilidade de ajuda ou resgate via helicoptero.

Para adiantar, o Rurik vai até um grupo que tem um rádio HT que permite comunicar com os guarda parques e entao explica a situação para que vão adiantando qualquer tipo de resgate e ajuda via helicoptero. Pedimos que um deles nos acompanhe até a descida ao acampamento seguinte Nido de Condores, mas não descem não. Assutados descemos eu e o Rurik até o Acampamento. São mais ou menos 45 minutos de descida rápida onde eu me escoro no Rurik para evitar qualquer tipo de esforço. Bastante surpreso e muito abalado com a situação descemos o mais rápido possível. Falo coisas para o Rurik que quero sair vivo dali. O desespero é grande porque nunca havia passado por coisa igual. Fiz um check-up completo com ecocardiiograma a 6 meses atrás e acusou tudo normal. Era algo muito incomum, parecia um verdadeiro pesadelo.

Chegamos em Nido de Condores desesperados e caminhamos até o trailler dos guarda parques. Desesperado explico a situação e espero que o resgate via helicoptero chegue. Mas ao contrario, os guarda-parques nos acalmam e dizem que isto é normal. Fazem um chá quente e me servem. Muito assustando insisto que não há nada de normal na situação, explico que quase tive uma parada cardiaca e que ao menos tragam um médico até o acampamento. Com tanta insistência eles se comunicam com um médico que está em Plaza de Mulas (4300m) para explicar a situação. O médico passa algumas instruções para que o guarda-parque verifique se tenho os musculos laterais do peito contraidos. Isso seria um indício importante de infarto. Os musculos estão relaxados. O médico pede para que me deem um analgésico e que me acalmem. Passo mais ou menos uma hora com os guardas e tento me tranquilizar. Enquanto isto o Rurilk volta a subir ao acampamnento Berlin para organizar as coisas que ficaram jogadas no acampamento e aguardar uma nova posição. Permanecemos nos comunicando via rádio.

Enquanto estava com o guarda-parque tenho uma queda de pressão sem arritmia. Mas olhando minha palidez, o guarda parque se assusta e chama o médico via rádio. O médico pede que eu me tranquilize e fique descansando. A pressão volta ao normal. 15 minutos mais insisto ao guarda-parque para que então desça comigo até o médico. Não suporto mais ficar na dúvida do que está se passando comigo. Ele me pergunta se prefiro descer andando ou arrastado dentro de um barril de plástico cortado ao meio que eles usam para tirar pessoas da montanha. O meio barril serve de uma espécie de carrinho. O problema de descer arrastado no barril é que demora muito e causa machucados por toda a perna. Só em caso muito extremo. Já que o médico não vai subir e que nenhum helicoptero vai vir, desço muito devagar atrás dele bastante apreensivo. Ele me acompanha a cada passo e verifica minha freqüência cardiaca informando ao médico de hora em hora. A freqüência varia muito. E em dois momentos volto a ficar pálido e vejo o susto estampado na cara do guarda-parque. Ele pede que eu descanse. Paro para que a pressão se normalize. Assuto-me quando vejo a cara do guarda-parque. Tenho a impressao que não vou dar conta de chegar. Algo muito extranho está passando. A descida até plaza de mula tarda quase 4 horas, o dobro do normal. Não vejo a hora de chegar e estar ao lado de um médico para que me avalie e me de uma solução e explicação para o que está se passando. Minha maior preocupação é quanto a não ficar nenhum problema permanente no coração.

Chego finalmente ao acampamento Plaza de Mulas e o médico vem me receber. Agradeço ao guarda-parque Pachacho por ter me acompanhado e ele me deseja sorte. Realmente estou precisando de muita. O médico apalpa a região do torax próximo ao coração e aperta entre as vértebras para verificar se a dor que sinto é devido a alguma inflamação por carregar o peso da mochila. Eu sei que nao é, mas estou mais tranquilo por estar ao lado de um médico. Ele me pede que eu entre na cabina de guarda-parques em Plaza de Mulas e me sente.

Ali ele mede minha pressão sangüinea, minha frequência cardiaca e minha saturação. Esta tudo aparentemente normal e fica descartada a hipótese de um infarto grande. No entanto, é necessário exames mais minuciosos para avaliar se não houve um infarto pequeno. Eles me tranquilizam bastante e discutindo tentam arrumar uma explicação. Não levo muito a sério o médico porque ele em vários momentos ri e transparece não acreditar em mim. Acha que tudo foi psicológico. No entanto, permaneço sentanto tomando um suco que me oferecem. Passo a posição ao Rurik que está em Berlin. Ele fica mais aliviado. Falo que vou descansar um pouco ali junto ao posto médico e que vou caminhar até o Hotel Refugio Plaza de Mulas, pois lá é o único lugar que tenho para dormir já que todos os nossos pertences estão em Berlin. São 20 minutos de caminhada até lá, mas não vou fazer esta caminhada tão cedo até que perceba que meu coração esta mais sossegado. Permeço sentado na casa dos guarda parques tomando um suco tang que eles me serviram.

Comunico com o Rurik para que fique em Berlim e tente o cume no dia seguinte para o sucesso da expedição. Eu vou descansar. Respiro fundo, crio coragem e chego até o Hotel Refugio. Vou pensando a melhor opção de sair de forma segura e rápida do parque para visitar um cardiologista de confiança em Mendoza para verificar mais profundamente a minha saúde e buscar uma explicação do que pode ter ocorrido.


Por Rurik:

A 6100 metros de altitude O Murilo não está se sentindo bem e resolve voltar. Pego com ele a máquina fotográfica, acerto o esquema de comunicação via rádio e continuo subindo. O dia está perfeito e não estou sentindo nem um pouco de dor de cabeça. O cume a apenas 6 horas parece estar certo. O caminho possui muito gelo, neve e pedra. É bem inclinado também. Andar com os crampons é estranho, principalmente quando se anda sobre as pedras. O visual é muito bonito daqui, estou acima de todas as demais montanhas. Tudo está abaixo, bem abaixo. O Sol da manhã projeta uma sombra gigantesca do Aconcágua para oeste. É impressionante. O vento não é muito forte, mas o frio é intenso e sinto meus dedões das mãos adormecidos. Os pés estao ok.

Procuro andar num ritmo lento para evitar as paradas. Mesmo assim, paro a cada 50 metros. Passa pela minha cabeça em bater fotografias a todo momento, mas o processo é meio complicado e demora. Não quero perder muito tempo aqui no começo. De 15 em 15 minutos o Murilo me chama pelo rádio. Está tudo ok. Chego a 6200m, a visão começa a se abrir para Leste. Está cada vez melhor. A neve aqui está batendo nos joelhos e prefiro seguir as pegadas dos franceses um pouco mais a frente.

A quase 6300m recebo uma chamada no rádio do Murilo dizendo que não se sente bem. Digo para tomar outra aspirina (ele já havia tomado uma logo pela manhã). Continuo subindo. Este está sendo o trecho mais exigente. Mas a próxima chamada via rádio muda tudo.

Com uma voz muito assustada o Murilo me chama: "Rurik, me ajuda que acho que estou tendo um infarto!".

Putz!
Sem entender direito a situação, dou meia volta e começo a descer a rampa de neve. Enquanto desço a passos largos vou perguntando oque está se passando com ele. Isso não é sintoma de mal da altitude. Digo para ele chamar alguém do acampamento onde está para ajudá-lo.

Não dá para ir muito rápido. O crampon atrapalha, o fôlego acaba e tenho que tomar cuidado para não capotar no chão irregular. Peço para o Murilo não falar mais no rádio, quero me concentrar na descida. Mas ele não pára. Está nitidamente bem assustado.
Levo 45 minutos para chegar a Berlin.

Em Berlin começo a ir de barraca em barraca procurar alguém que possua rádio HT, pois é o único meio de se comunicar com os Guarda Parques. Encontro um guia com rádio dentro de uma das cabanas, explico rapidamente a situação e peço para ele solicitar o helicóptero em Nido via rádio.

Começo a descer para Nido com o Murilo. Ele está bem assustado e com medo de desmaiar. Ele não quer perder tempo. Esta com medo que ocorra uma 3a arritmia. Peço ajuda para mais uma pessoa descer comigo, pois não conseguirei carregá-lo caso desmaie.

Levo mais 45 minutos para descer de Berlin a Nido. Ele havia tirado seus crampons, então precisou se escorar em mim durante a descida.
Descida tensa.
Minha maior preocupação é de não deixá-lo desmaiar, porque não conseguiria fazer mais nada. Chegamos à cabana dos Guarda Parques e explicamos toda a situação. Estão surpresos, não haviam recebido o chamado via rádio.

Fico observando os guardas avaliarem o Murilo. Estão com o médico no rádio. O médico passa as informações e os guardas seguem o procedimento. Fico um tempo com eles e percebo que não tenho mais o que ajudar. Agora é com os guardas.

Deixo o rádio com o Murilo e volto a subir a Berlin. Todas as nossas coisas estão jogadas pelo acampamento. Durante a subida, mais calmo, tento entender oque está se passando. Foi tudo muito rápido. São 10:00h da manhã. Nunca ouvi falar que altitude afeta o coração. Nem de ninguém que tivesse sofrido infarto num ambiente desses. Agora penso no que será. Para ele, o cume estava fora de cogitação. Para mim, ainda posso tentar o cume amanhã.

Mas se o problema for sério ele terá que sair da montanha urgentemente. Deixo para tomar a decisão mais tarde quando receber uma posição do médico de Plaza de Mulas que vai consultá-lo logo mais.

Depois de 2 horas chego de volta a Berlin e organizo o acampamento. Monto a mochila do Murilo com os equipamentos que não serão mais usados. Deito e espero o contato via rádio.

Depois de umas 2 horas o Murilo retorna a posição do médico. Eles não sabem precisar oque aconteceu.

Reconsidero a situação. Penso em ficar para tentar o cume amanhã, mas não sei se o Murilo pode sofrer outra arritmia. Afinal ele ainda continua em altitude elevada (4.300m).
Se eu continuar e ele sofrer um infarto enquanto tento o cume? Acho que não suportaria a culpa. Ele está mal e não sabemos oque está acontecendo. Só em Mendoza, com uma avaliação mais apurada poderemos saber.

Desisto do cume e começo a desmontar acampamento. O cume vai ficar para outra vez.
Com cordins, amarro as 2 mochilas numa só e começo a descer. Tem muito peso. Em Nido, deixo uma delas e continuo descendo até Mulas.

Lá encontro o Murilo no Hotel Refúgio, ele está com um aspecto bem melhor. São 20:00h, e resolvo pagar um porteador para trazer a outra mochila de Nido. Nem pensar em subir denovo. Estou um bagaço e amanhã pela manhã sairemos da montanha.

Janto e capoto no próprio hotel. Hoje o dia foi punk, amanhã eu penso com mais calma em tudo que aconteceu.

Murilo e Rurik

ATENÇÂO: toda a informação contida aqui não implica em responsabilidade ao autor.
Toda escalada deve ser realizada seguida de um mínimo de experiência e conhecimento local.
O montanhismo e suas modalidades apresentam risco de vida, não se aventure além de seus limites técnicos e psicológicos.
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