22/01/04 - Investida ao Cume - Altitude 6300m - Temperatura 17 graus negativos
Este provavelmente vai ser o relato mais longo de todos e devido aos fatos
ocorridos vamos apresentar mais a frente a visão de cada um de nós.
Despertamos as 4:00 da manhã. Fazia muito frio aquela hora, mas ventava
pouco e o céu estava estrelado. Parecia o dia perfeito para atingir o cume
do Aconcágua. Levantamos, mas um de nós (Murilo) sentia um pouco de dor de
cabeça. O jeito foi mandar uma aspirina para guela. Esquentamos um chá
quente para nós e nos hidratamos para amenizar os males da altitude e o
frio.
Sair do saco de dormir é um parto. Custa muito. A barraca toda estava
congelada, fazia -13 graus dentro dela. Para evitar que tudo se congelasse
as coisas mais importantes estavam dentro do saco de dormir. A impressao é
que tinha mais coisa dentro do saco de dormir do que a gente mesmo. Para se
ter
uma idéia cada um dormia com 2 garrafas Pets cheias de água, a parte interna
das botas duplas, maquina fotográfica, rádio, lanterna, protetor solar e
mais umas coisas. Tudo fica nos pés para evitar muito incômodo. As garrafas
de água como estão um pouco geladas dificultam esquentar os pés. Mas melhor
que ficar sem água. Terminado o café da manhã com chá e bolacha começamos a
nos preparar para
sair da barraca.
É necessário muita roupa para sair. Para começar são três
meias. Uma fina e duas grossas. Depois são três calças. Uma que fica em
contato com a pele para absorver o suor, outra intermediária de fleece para
esquentar e uma externa que bloqueia o vento e o gelo para conservar o calor
interno. Na parte de cima da cintura usamos quase a mesma lógica. Uma em
contato com o corpo, uma fleece e uma externa de pluma de ganso para
armazenar o calor na região mais importante do corpo. Nas mãos, três luvas.
Uma fina, uma média e uma mitten externa. A mitten é aquela luva de dois
dedos onde somente o polegar fica separado dos outros dedos. Os quatro dedos
ficando juntos ajudam a conservar melhor o calor, no entanto, fica
impossível
fazer qualquer coisa, como por exemplo tirar fotos. É necessário removê-la
rapidamente e recolocá-la para não perder o calor das mãos. E por
último o gorro e/ou balaclava para protejer as orelhas e a cabeça.
Colocada todas estas roupas tiramos os pés da barraca para calcar as botas
duplas, para não dizer botas de astronautas. Colocamos primeiramente a parte
interna que ficou dentro do saco de dormir e depois a capa externa plástica.
Feito isso, colocamos os crampons que consistem em uma peça metálica cheia
de
pontas afiadas de ferro que possibilitam andar em gelo sem escorregar.
Naquele momento havia muito gelo e o uso de crampons era indespensável.
No momento em que partiamos rumo ao cume tambem partia um grupo de franceses
juntamente com nosso mais novo amigo, o argentino de Cordoba, Fernando. Eles
sairam na frente e em seguida fomos caminhando atrás. Neste momento o GPS
(sistema de localização via satelite) já estava ligado para marcar o caminho
até o cume. Isso garantiria que chegassemos de volta ao acamapamento Berlin
em caso de uma nevasca muito forte. Existe um fenômeno chamado
white-out que acontece quando uma forte nevasca cai. A nevasca deixa o céu
todo branco e pelo fato do chão estar nevado e ser branco também, fica
impossível diferenciar o céu do chão e perde-se qualquer tipo de referência.
A visilibidade não chega a um metro.
A previsão é de sete a oito horas de caminhada até o cume e três a quatro
horas de retorno, podendo totalizar ate 12 horas de caminhada. É um dia
longo e com a mochila leve levando o essêncial planejamos chegar. Na mochila
levamos um fogareiro, benzina, uma panela, kit médico com remédios para
edema
pulmonar, 4 litros de água, roupa sobresalente, rádio, lanterna, e
comida é claro. A comida consiste basicamente em barras energéticas pela
dificuldade que é comer com muito vento e muito frio. As barras vão
nos bolsos da pluma para que não se congelem. O plano é comer uma barra a
cada meia ou uma hora. Cada um leva de 12 a 15 barras.
Uma hora e meia depois caminhando sobre gelo parcialmente duro chegamos a
6100m para tirar fotos. Neste momento um de nós (Murilo) se sente tonto e
com uma sensação diferente dos sintomas de mal de altitude, resolve parar.
Como este dia era o único em que permitiriamos uma eventual separação, um de
nós (Rurik) seguiu a subida levando um rádio enquanto o outro (Murilo)
permaneceu no local aguardando melhorar.
Por Murilo:
Como a tontura não passava resolvi descer devagar. Combinei com o Rurik de
nos comunicarmos a cada 15 minutos mantendo o rádio ligado a medida que ele
continuava a subir. Descansaria e tentaria o cume no dia seguinte. Havia
tempo. Desci então de volta ao acampamento Berlin, 5900m. Sentei e comecei a
tomar água e descansar para ver se a tontura passava. A mochila dexei ao
lado no chão e permaneci sentado em uma pedra.
Passados uns 15 minutos sinto minhas mãos e meus pés ficando gelados e logo
percebo que se trata de uma arritmia cardiaca. Assustado levanto e começo a
caminhar para tentar estabilizar a freqüência cardiaca que parece cair e
deixar minha pressao baixa. Em 2 minutos ela se normaliza, no entanto fico
bastante assustado e preocupado. Tento ver se há alguém no acampamento para
que caso ocorra alguma coisa peça resgate. Não encontro ninguém.
Alcalmo-me e entro na barraca para descansar e me recompor do susto. No
entanto, praticamente deitado na barraca sinto novamente a sensação de mãos
e pés gelando e agora uma arritmia mais forte acontece. Desta vez uma dor
no peito acompanha o susto. Procuro o sal na cozinha da barraca e coloco um
pouco embaixo da lingua e saio da barraca desesperado. Como não havia
ninguém chamo pelo rádio o Rurik que já esta em Independência a 6300m rumo
ao cume. Comunico a ele que estou com problemas no coração, provavelmente
uma parada cardiaca ou infarte. Desepesrado ele começa a descer. Pelo rádio
verifico
sua posicao porque sigo muito preocupado e já não consigo mais confiar no
estado do coracao.
Não sabemos o que está acontecendo. Passados 30 minutos permaneço caminhando
e verificando a posição do Rurik no rádio. Não me permito parar porque tenho
impressão que baixando a adrenalina o coração resolva querer parar. Passados
mais 10 minutos o Rurik chega. Temos que descer para o acampamendo Nido de
Condores para ter alguma possibilidade de ajuda ou resgate via helicoptero.
Para adiantar, o Rurik vai até um grupo que tem um rádio HT que permite
comunicar com os guarda parques e entao explica a situação para que vão
adiantando qualquer tipo de resgate e ajuda via helicoptero. Pedimos que um
deles nos acompanhe até a descida ao acampamento seguinte Nido de Condores,
mas não descem não. Assutados descemos eu e o Rurik até o Acampamento. São
mais ou menos 45 minutos de descida rápida onde eu me escoro no Rurik para
evitar qualquer tipo de esforço. Bastante surpreso e muito abalado com a
situação descemos o mais rápido possível. Falo coisas para o Rurik que quero
sair vivo dali. O desespero é grande porque nunca havia passado por coisa
igual. Fiz um check-up completo com ecocardiiograma a 6 meses atrás e acusou
tudo normal. Era algo muito incomum, parecia um verdadeiro pesadelo.
Chegamos em Nido de Condores desesperados e caminhamos até o trailler dos
guarda parques. Desesperado explico a situação e espero que o resgate via
helicoptero chegue. Mas ao contrario, os guarda-parques nos acalmam e dizem
que isto é normal. Fazem um chá quente e me servem. Muito assustando
insisto que não há nada de normal na situação, explico que quase tive uma
parada cardiaca e que ao menos tragam um médico até o acampamento. Com tanta
insistência eles se comunicam com um médico que está em Plaza de Mulas
(4300m) para explicar a situação. O médico passa algumas instruções para que
o guarda-parque verifique se tenho os musculos laterais do peito contraidos.
Isso seria um indício importante de infarto. Os musculos estão relaxados. O
médico pede para que me deem um analgésico e que me acalmem. Passo mais ou
menos
uma hora com os guardas e tento me tranquilizar. Enquanto isto o Rurilk
volta a subir ao acampamnento Berlin para organizar as coisas que ficaram
jogadas no acampamento e aguardar uma nova posição. Permanecemos nos
comunicando via rádio.
Enquanto estava com o guarda-parque tenho uma queda de pressão sem
arritmia. Mas olhando minha palidez, o guarda parque se assusta e chama o
médico via rádio. O médico pede que eu me tranquilize e fique descansando. A
pressão volta ao normal. 15 minutos mais insisto ao guarda-parque para que
então desça comigo até o médico. Não suporto mais ficar na dúvida do que
está se
passando comigo. Ele me pergunta se prefiro descer andando ou arrastado
dentro de um barril de plástico cortado ao meio que eles usam para tirar
pessoas da montanha. O meio barril serve de uma espécie de carrinho. O
problema de descer arrastado no barril é que demora muito e causa machucados
por toda a perna. Só em caso muito extremo. Já que o médico não vai subir e
que nenhum helicoptero vai vir, desço muito devagar atrás dele bastante
apreensivo. Ele me
acompanha a cada passo e verifica minha freqüência cardiaca informando ao
médico de hora em hora. A freqüência varia muito. E em dois momentos volto a
ficar pálido e vejo o susto estampado na cara do guarda-parque. Ele pede que
eu descanse. Paro para que a pressão se normalize. Assuto-me quando vejo a
cara do guarda-parque. Tenho a impressao que não vou dar conta de chegar.
Algo muito extranho está passando. A descida até plaza de mula tarda quase 4
horas, o dobro do normal. Não vejo a hora de
chegar e estar ao lado de um médico para que me avalie e me de uma solução e
explicação para o que está se passando. Minha maior preocupação é quanto a
não ficar nenhum problema permanente no coração.
Chego finalmente ao acampamento Plaza de Mulas e o médico vem me receber.
Agradeço ao guarda-parque Pachacho por ter me acompanhado e ele me deseja
sorte. Realmente estou precisando de muita. O médico apalpa a região do
torax
próximo ao coração e aperta entre as vértebras para verificar se a dor
que sinto é devido a alguma inflamação por carregar o peso da mochila. Eu
sei que nao é,
mas estou mais tranquilo por estar ao lado de um médico. Ele me pede que eu
entre na cabina de guarda-parques em Plaza de Mulas e me sente.
Ali ele mede minha pressão sangüinea, minha frequência cardiaca e minha
saturação.
Esta tudo aparentemente normal e fica descartada a hipótese de um infarto
grande. No entanto, é necessário exames mais minuciosos para avaliar se não
houve um infarto pequeno. Eles me tranquilizam bastante e discutindo tentam
arrumar uma explicação. Não levo muito a sério o médico porque ele em vários
momentos ri e transparece não acreditar em mim. Acha que tudo foi
psicológico. No entanto, permaneço sentanto tomando um suco que me oferecem.
Passo a posição ao Rurik que está em Berlin. Ele fica mais aliviado. Falo
que vou descansar um pouco ali junto ao posto médico e que vou caminhar até
o
Hotel Refugio Plaza de Mulas, pois lá é o único lugar que tenho para dormir
já que
todos os nossos pertences estão em Berlin. São 20 minutos de caminhada até
lá, mas não vou fazer esta caminhada tão cedo até que perceba que meu
coração esta mais sossegado. Permeço sentado na casa dos guarda parques
tomando um suco tang que eles me serviram.
Comunico com o Rurik para que fique em Berlim e tente o cume no dia seguinte
para o sucesso da expedição. Eu vou descansar. Respiro fundo, crio coragem e
chego até o Hotel Refugio. Vou pensando a melhor opção de sair de forma
segura e rápida do parque para visitar um
cardiologista de confiança em Mendoza para verificar mais profundamente a
minha saúde e
buscar uma explicação do que pode ter ocorrido.
Por Rurik:
A 6100 metros de altitude O Murilo não está se sentindo bem e resolve voltar.
Pego com ele a máquina fotográfica, acerto o esquema de comunicação via rádio e
continuo subindo.
O dia está perfeito e não estou sentindo nem um pouco de dor de cabeça. O cume a
apenas 6 horas parece estar certo.
O caminho possui muito gelo, neve e pedra. É bem inclinado também.
Andar com os crampons é estranho, principalmente quando se anda sobre as pedras.
O visual é muito bonito daqui, estou acima de todas as demais montanhas. Tudo
está abaixo, bem abaixo.
O Sol da manhã projeta uma sombra gigantesca do Aconcágua para oeste. É
impressionante.
O vento não é muito forte, mas o frio é intenso e sinto meus dedões das mãos
adormecidos.
Os pés estao ok.
Procuro andar num ritmo lento para evitar as paradas. Mesmo assim, paro a cada
50 metros.
Passa pela minha cabeça em bater fotografias a todo momento, mas o processo é
meio complicado e demora. Não quero perder muito tempo aqui no começo.
De 15 em 15 minutos o Murilo me chama pelo rádio. Está tudo ok.
Chego a 6200m, a visão começa a se abrir para Leste. Está cada vez melhor.
A neve aqui está batendo nos joelhos e prefiro seguir as pegadas dos franceses
um pouco mais a frente.
A quase 6300m recebo uma chamada no rádio do Murilo dizendo que não se sente
bem.
Digo para tomar outra aspirina (ele já havia tomado uma logo pela manhã).
Continuo subindo. Este está sendo o trecho mais exigente.
Mas a próxima chamada via rádio muda tudo.
Com uma voz muito assustada o Murilo me chama: "Rurik, me ajuda que acho que
estou tendo um infarto!".
Putz!
Sem entender direito a situação, dou meia volta e começo a descer a rampa de
neve.
Enquanto desço a passos largos vou perguntando oque está se passando com ele.
Isso não é sintoma de mal da altitude.
Digo para ele chamar alguém do acampamento onde está para ajudá-lo.
Não dá para ir muito rápido. O crampon atrapalha, o fôlego acaba e tenho que
tomar cuidado para não capotar no chão irregular.
Peço para o Murilo não falar mais no rádio, quero me concentrar na descida. Mas
ele não pára. Está nitidamente bem assustado.
Levo 45 minutos para chegar a Berlin.
Em Berlin começo a ir de barraca em barraca procurar
alguém que possua rádio HT, pois é o único meio de se comunicar com os Guarda
Parques.
Encontro um guia com rádio dentro de uma das cabanas, explico rapidamente a
situação e peço para ele solicitar o helicóptero em Nido via rádio.
Começo a descer para Nido com o Murilo. Ele está bem assustado e com medo de
desmaiar.
Ele não quer perder tempo. Esta com medo que ocorra uma 3a arritmia.
Peço ajuda para mais uma pessoa descer comigo, pois não conseguirei carregá-lo
caso desmaie.
Levo mais 45 minutos para descer de Berlin a Nido.
Ele havia tirado seus crampons, então precisou se escorar em mim durante a
descida.
Descida tensa.
Minha maior preocupação é de não deixá-lo desmaiar, porque não conseguiria fazer
mais nada.
Chegamos à cabana dos Guarda Parques e explicamos toda a situação.
Estão surpresos, não haviam recebido o chamado via rádio.
Fico observando os guardas avaliarem o Murilo. Estão com o médico no rádio.
O médico passa as informações e os guardas seguem o procedimento.
Fico um tempo com eles e percebo que não tenho mais o que ajudar. Agora é com os
guardas.
Deixo o rádio com o Murilo e volto a subir a Berlin. Todas as nossas coisas
estão jogadas pelo acampamento.
Durante a subida, mais calmo, tento entender oque está se passando. Foi tudo
muito rápido. São 10:00h da manhã.
Nunca ouvi falar que altitude afeta o coração. Nem de ninguém que tivesse
sofrido infarto num ambiente desses.
Agora penso no que será.
Para ele, o cume estava fora de cogitação.
Para mim, ainda posso tentar o cume amanhã.
Mas se o problema for sério ele terá que sair da montanha urgentemente.
Deixo para tomar a decisão mais tarde quando receber uma posição do médico de
Plaza de Mulas que vai consultá-lo logo mais.
Depois de 2 horas chego de volta a Berlin e organizo o acampamento.
Monto a mochila do Murilo com os equipamentos que não serão mais usados.
Deito e espero o contato via rádio.
Depois de umas 2 horas o Murilo retorna a posição do médico.
Eles não sabem precisar oque aconteceu.
Reconsidero a situação. Penso em ficar para tentar o cume amanhã, mas não sei se
o Murilo pode sofrer outra arritmia. Afinal ele ainda continua em altitude
elevada (4.300m).
Se eu continuar e ele sofrer um infarto enquanto tento o cume?
Acho que não suportaria a culpa. Ele está mal e não sabemos oque está
acontecendo. Só em Mendoza, com uma avaliação mais apurada poderemos saber.
Desisto do cume e começo a desmontar acampamento.
O cume vai ficar para outra vez.
Com cordins, amarro as 2 mochilas numa só e começo a descer. Tem muito peso.
Em Nido, deixo uma delas e continuo descendo até Mulas.
Lá encontro o Murilo no Hotel Refúgio, ele está com um aspecto bem melhor.
São 20:00h, e resolvo pagar um porteador para trazer a outra mochila de Nido.
Nem pensar em subir denovo. Estou um bagaço e amanhã pela manhã sairemos da
montanha.
Janto e capoto no próprio hotel. Hoje o dia foi punk, amanhã eu penso com mais
calma em tudo que aconteceu.
Murilo e Rurik
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