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Mil pedras no caminho
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 Jornal Estado de Minas - Lugares - 14/12/2004

Considerada um dos sonhos de consumo dos mochileiros, a trilha inca, no Peru, segue desafiando corações. Percurso exige esforço físico, mas compensa com visuais e emoção


Luiz Fernando Campos
Do Peru

O percurso árduo – e considerado por muitos inalcançável – não desanima nem mesmo o mochileiro de primeira viagem. As pernas bambeiam, o cansaço aperta, o ar rarefeito sufoca, mas nada como a vontade de superar os limites. Vale até pedir ajuda à Pachamama (deusa da Terra para os povos andinos) para driblar as dificuldades da Trilha Inca, no Peru. Para os adeptos de um trekking com saudáveis pitadas de misticismo e história contada em ruínas de uma das civilizações mais antigas das Américas, os Incas, está na hora de rumar para estas terras peruanas. O percurso é de cerca de 40 quilômetros e chega-se a uma altitude de 4,2 mil metros.

O visual exuberante das montanhas, cercadas de muito verde, lagos, rios, cachoeiras, neve, sem falar no mistério que envolve as construções detalhadamente construídas com pedras, compensa qualquer esforço. A arquiteta mineira Juliane Garcia, de 27 anos, topou o desafio. Tanto que não hesitou em escolher o Peru – e especialmente o caminho que era percorrido pelos mensageiros incas – como seu primeiro destino ao exterior. E não se arrependeu, apesar dos percalços. “Não foi uma coisa fácil, mas toda a dificuldade valeu pelo visual privilegiado da região que temos à nossa frente. Eu incentivo qualquer pessoa a fazer a trilha é uma grande experiência”, conta ela. O jeito é contratar uma agência cidade peruana de Cuzco com antecedência e garantir lugar num dos grupos, que reúne gente de vários países. Nada de comparações com o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. E desfrute dessa emocionante aventura.

Primeiro Dia

O ponto de partida é o quilômetro 82, após rápida passagem pela vila de Ollantaytambo. O grupo de mochileiros descem do ônibus e de longe vê a descida do rio Urubamba, cercada por grandes montanhas, uma pequena mostra do que está por vir. Após receber as orientações dos guias, os turistas passsam pelo posto de controle, bastante rigoroso com a documentação, e dão seus primeiros passos na Trilha Inca. Se trata de um dia fácil, curto e com caminhadas leves.



O objetivo é alcançar a mística cidade, perdida nas montanhas

No meio do caminho, chega Sandrita. A menina de apenas seis anos, moradora de uma das vilas da região, pede “candies” (balas) aos aventureiros. Apesar da resposta negativa, ela insiste em acompanhar o grupo. Conta que já sabe escrever em espanhol – o dialeto falado é o quechua – e adora cuidar das ovelhas da família. Ela se despede e vai embora.

Após uma subida, chega-se a um imponente sítio arqueológico, de nome Llaqtapata, destinado à agricultura. Ao final do dia, o acampamento com as barracas já montadas espera o grupo, que se junta para o jantar. No cardápio, sopa, arroz, batatas e frango, além, é claro, de chá de coca. Barriga cheia, é hora de dormir.

Segundo dia

Os guias anunciam que esse será o dia mais difícil. A caminhada não dura o dia todo, mas é alternada por subidas e descidas que exigem muito esforço. O grupo sai em disparada, ainda com o céu escuro, e a tensão está visivelmente estampada no rosto de cada um. O início do aclive faz o grupo se separar. Os mais resistentes mantêm o ritmo, mas quem não tem fôlego vai ficando para trás. E nessa hora a mão amiga traz conforto a quem sente mais as dificuldades.

A mochila pesada traz dor nas costas e a falta de ar e taquicardia são amenizadas com folhas de coca na boca, mascadas levemente. O suor se mistura com frio das montanhas. Os porteadores, ou carregadores, ultrapassam com facilidade os turistas, ainda que estejam carregando barracas e comida nas costas. “Toda hora a gente pára para descansar e as pessoas são solidárias. Foi o momento que mais conversei com as pessoas e troquei experiências”, lembra Juliane Garcia. Depois de muita subida, a tão esperada chegada ao ápice da trilha, o monte Warmiwañuscca, a 4,2 mil metros de altura. O frio é intenso e a neve começa a derreter. Depois de um merecido intervalo, hora de descer. Fácil? Não, muitas vezes até mais difícil que subir, pois é preciso firmeza nas pernas...e o cajado ajuda bem. O caminho de pedras – durante toda a trilha – também é uma mão na roda. Finalmente chega-se ao acampamento e o corpo pede cama. E o resto do dia, só descanso.

Terceiro Dia

Mochila nas costas, é hora de encarar novos desafios. E de curtir o visual e mergulhar na história dos Incas, já que é dia com mais visitas à ruínas. O alívio é grande, pois o pior já passou. De cara, chegamos ao Runkuraqay, um lindo sítio arqueológico que mais parece uma nave espacial e era usado como observatório astronômico e local para cerimônias. Mais a frente, depois de avistar pequenos lagos de águas cristalinas, chegamos a Sayacmarca, a 3.580 metros, templo habitado por sacerdotes que cultuavam os deuses. Em seguida é a vez do Phuyupatamarca, mais conhecida como “cidade atrás das nuvens”, por estar no pico de uma montanha. O ponto mais alto servia de local para celebrações. A arquitetura impressiona, já que a construção é feita de pedra sobre pedra ou separadas por uma espécie de cimento. Na chegada ao acampamento, festa para a despedida dos carregadores, que já não seguem mais viagem.

Quarto Dia

Ainda é noite quando se chega à porta de entrada do parque. Quando os portões se abrem, às 6h, todos saem em disparada, como se fosse numa competição para ver quem chega primeiro. “Você está mais cansado, mas ao mesmo tempo tem mais disposição para chegar à tão esperada Machu Picchu”, resume Juliane. Os primeiros raios de sol dão o ar da graça, ao mesmo tempo que o coração palpita cada vez mais forte ao saber que se está quase na chamada cidade perdida dos Incas. Depois de subir uma escada quase em ângulo reto, é possível ter a primeira visão de Machu Picchu. E em mais meia hora, finalmente chega-se ao santuário sagrado, onde as pedras parecem falar. A emoção toma conta diante de tanta grandiosidade. Como alguém conseguiu construir uma construção dessas, há 700 anos? É a pergunta que não quer calar.

E saber que essa jóia rara, raríssima, só foi descoberta em 1911 pelo arqueólogo americano Hiram Binghan, após quatro séculos de silêncio. Se os espanhóis não tivessem comido mosca, talvez a ruína tivesse sido devastada. Mas a cidade resiste aos tempos, enigmática. É preciso pelo menos uma tarde para conhecer seus recintos, observatórios, terraços e escadarias. Após a visita e fim da árdua viagem, é hora de voltar para Cuzco.

Serviço

• Em média, o pacote para quatro dias e três noites de caminhada até Machu Picchu, incluindo transporte Cuzco – Ollantaytambo (ida-ônibus) e Águas Calientes – Cuzco (volta-trem), guias, refeições e barraca para dormir, não custa menos de US$ 180. O preço salgado se deve à ordem do governo peruano, há dois anos, de limitar em 500 o número de pessoas que circulam pelo parque diariamente. Temia-se que Machu Picchu perdesse o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, concedido pela Unesco, em 1983, já que o grande número de turistas poderia abalar a estrutura da cidade perdida dos incas.

Peru Explorers – Agência de Cusco que vende os pacotes para a Trilha Inca. Falar com Jorge Polack.
(51-84) 965-1588 - info@peruexplorers.com ou www.peruexplorers.com

Fonte: Jornal Estado de Minas

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