Serra do Capivari
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Texto e fotos por Alexandre Pacheco dos Santos
Publicado em 15 de novembro de 2008
Nome bem conhecido popularmente, diria que 90% das pessoas já ouviu falar nele pois a região comporta uma grande e famosa barragem e sempre há quem diga: “um tiozinho da família já foi pescar lá”. Para a maioria dos paranaenses este nome lembra também um grande roedor da fauna brasileira, que ironicamente vive em regiões baixas e alagadas, em grandes bandos e proliferam rapidamente como ratos, como aconteceu no Parque Tinguí, localizado próximo da minha casa em Curitiba. É tida com a fama de arisca e traiçoeira. Eu mesmo já levei um “corridão” de algumas delas uma vez que fui fazer uma pedalada relâmpago pela manhã. O bicho é feroz mesmo!!! Daí o ditado: “Minha sogra é braba como uma capivara!”.
Pois bem, brincadeiras à parte, o fato é que por muitos anos esta grande “obra” chamada de Barragem do Capivari forneceu sozinha energia elétrica para quase toda região da capital e cidades vizinhas, trazendo o “progresso” nos difíceis tempos de antigamente... Muito antes do progresso tecnológico, vale a pena lembrar que viver em Curitiba era muito mais difícil. Para os que hoje não sobrevivem sem as mordomias da eletricidade, a cidade era tocada a um gerador a “óleo diesel” que operava até as 22:00 h, isso por volta de 1940. Sua localização era ao lado do estádio de futebol do antigo Ferroviário, hoje Paraná Clube, bem.... Eu diria que nesses tempos difíceis a grande maioria dos jovens se ocupava lendo mais livros no quarto na luz do lampião, adquirindo cultura, casais namoravam mais, enfim as pessoas dormiam mais, tinham mais saúde do que os dias de hoje, enfim, a vida era mais devagar e menos agitada, ou seja, as dificuldades tecnológicas traziam uma certa vantagem.

Bom, voltando a falar das nossas montanhas, como seria interessante estar acampado no topo de alguma delas na serra, sentado em uma pedra a noite observando as luzes da capital e contando os segundos no relógio a espera do “apagão”! Seria algo meio estranho nos dias de hoje... O fato é que nesses tempos pouca gente ia para a montanha escalar e o que se ouvia falar é que a região era “selvagem”, inóspita, sem a presença regular do homem, uma casinha aqui outra lá e mais nada. O que se via a perder de vista era uma floresta virgem e intocada, milhares de hectares mata atlântica, uma verdadeira “metrópole de bichos e árvores apinhadas disputando um espaço para viver, o verdadeiro Sertão”, como o mateiro deveria falar. E dada as condições da região, isso motivou ainda mais os paranaenses da capital a projetar uma hidrelétrica inédita e única em seu conceito, transpondo pelo solo rochoso a grande muralha chamada serra do mar e seus maciços de granito. Para os padrões da época foi como que uma epopéia, tudo era longe e difícil, envolveu um enorme contingente de operários que se instalaram no local para trabalhar, muita mão de obra mesmo, eu diria que foi uma logística faraônica. Então os primeiros que ali chegaram, na teoria deles, tiveram que desbravar tudo no fio do machado e no cano da espingarda. Grandes áreas cheias de árvores como a Imbuia e Canelas foram derrubadas para o uso da madeira como escoras de concreto da barragem e toda a infra-estrutura como casas moveis, etc, sem contar o consumo como lenha de fogão. Por muitos anos foi assim, até a conclusão da obra.
Aí, então, as notícias que chegavam na capital relatavam um território assombrado por animais selvagens e perigosíssimos como a onça pintada, puma preto (sussuarana), jaguatirica, nome este que foi adotado por uma das vilas da região, e a anta ou Tapirus terrestis no cientifico, o maior mamífero brasileiro. Como dizia o meu saudoso avô que trabalhou na obra do túnel e morou por uns tempos em um sítio que hoje está debaixo d’ água, muitas foram as “excursões” vindas da capital em busca desse gigante das selvas Atlânticas, verdadeiros “safares tupiniquim”. As histórias que lembro dele ter contado é que lá era a morada delas, ou poderia dizer “quartel general”. Imagino como seria topar com uma delas na mata! Correr na certa seria uma opção, varando taquara no peito!!! Ou subir se escorregando em uma árvore qualquer ou então esfolar as pontas dos dedos nos cristais de quartzo em uma pedra grande o suficiente pra que o bicho não subisse, caso contrário o mínimo que poderia acontecer é ser atropelado pelo tanque de guerra!!!
Exageros à parte, o que dizem os especialistas em zootecnia é que ela é um animal muito solitário e de hábitos independentes e noturnos, passando a maioria do tempo procurando viver sozinha, alimentando-se e perambulando em seus territórios até a época do acasalamento, quando sai a procura de um par. Por estes e outros motivos é que nunca ouvi falar de alguém ter a visto ou topado com uma em uma trilha na mata, quer seja mateiro da região ou montanhista. O pouco que se viu e ouviu falar nos dias de hoje é sobre uma ou outra pegada com seus três grandes dedos, aqui ou acolá e ao contrário dos tempos difíceis de antigamente, ela migrou para onde ainda resta floresta, nos cumes e vales entre montanhas. Já a região da barragem do Capivari, fazendo uma rápida retrospectiva, nasceu como vila de moradores a procura de emprego na obra, atingiu o estado de vila depois da conclusão da obra permanecendo como tal até hoje, após a devastação de quase todos os recursos naturais e não vai passar de uma vila pobre e sem “progresso” pois o seu destino é uma incógnita. Após as “obras devastadoras” do pedágio nos quilômetros antecedentes, acredito que ela vai virar uma cidadezinha fantasma dessas de filme de faroeste com direito a capim seco embolado, rolando pelo chão, embalado pelo vento. Em quanto isso as antas que provaram não ser “burras como antas” saltarão um grau na sua cadeia evolutiva aprendendo a escalar montanhas, fugindo para longe e vivendo no que resta de mata atlântica, obedecendo a ridícula lei ambiental dos 1000 metros acima do mar... Burros são os homens que ainda chamam essas bandas de Serra do Capivari!!! Ou não seria melhor chamar de “Moradas das Antas”.
Imagens da Serra do Capivari
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