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Os Guardiões da Montanha
Foto: Marcelo Brotto

        Título interessante este; Os Guardiões da Montanha. Antes, entretanto, de nos atermos a fantástica história que propõe este título, gostaríamos de fazer um breve comentário sobre nossa atual condição de montanhistas apaixonados pela Serra do Mar. Chegamos a conclusão unânime que não subimos nem 10% das nossas montanhas, ou seja, uma vida é pouco para quem deseja percorrer todos os caminhos que aqui existem. Voltemos então ao princípio desta aventura.

        Tudo começa em algum lugar...Sinceramente não lembro bem onde fica, mas...Lá existem árvores grandiosas que encantam qualquer um, principalmente um futuro engenheiro florestal como eu. Árvores extraordinárias numa floresta extraordinária.

        - Tu não concorda Alfredo?

        - É mesmo Marcelo!

        Continuando a trilha, o que víamos eram orquídeas, bromélias e riachos entre vales e montanhas, tudo de inacreditável beleza, quando perto de uma queda d'água resolvemos parar para lanchar. Havia se passado somente duas horas e nem tínhamos percebido. Só paramos porque começou a chover e também porque encontramos um teto de pedra para nos abrigar de frente ao riacho.

        Bem, degustado o lanche e amenizada a chuva, retomamos a caminhada. Nos entreolhávamos e ríamos. O Marcelo me dizia: "Que trilha hein". Eu respondia: "Nunca caminhei em um lugar tão lindo". Essas frases se repetiram por várias vezes. De vez em quando podíamos ver uma pequena montanha à nossa esquerda com um formato de cone perfeito. No décimo primeiro cruzamento de riacho nos deparamos com uma queda d'água um pouco maior, talvez com 5 metros. Apenas nos olhávamos e ríamos discaradamente, pensando o que a maioria das pessoas estaria fazendo em casa. Assistindo televisão? Comprando nos leitões de internet? Talvez conversando com a "paty" do "chat x", sem saber se ela é mulher mesmo.

        Bom, a nossa opção de passar o feriado logo se mostraria algo entusiasmante e da mesma forma também marcante para nós. Um pouco mais de subida em um bom desnível, talvez uns 100 metros, quando chegamos a uma clareira. As risadas se tornaram em gargalhadas com a vista que tínhamos aos nossos olhos, quando o Marcelo me perguntou: "Se eu te mostrasse uma foto desse visual você diria que é da nossa Serra?", logo, respondi que não, pois o que estava vendo era irreconhecível ao paranaense. Bom, ainda tínhamos que subir até o acampamento onde nos serviria de base a outras montanhas. Nos dirigimos à esquerda de onde estávamos. Eu ia à frente, quando o Marcelo me chamou.

        - É verdade. Chamei pois tinha encontrado o primeiro dos guardiões da montanha. Lembro que te mostrei aquele sapo psicodélico na palma da minha mão e você exclamou: "Que é isso! Muito louco!!!"

        O fato é que aquele bicho é muito louco mesmo, só vendo pra crer. Quando eu encontro um desses penso... Estamos no caminho certo!

        Subimos até os campos e armamos a barraca. O céu estava nublado com um aspecto não muito amistoso. Horas mais tarde, já no meio da madrugada, começou a chover. Era apenas mais uma frente fria daquelas que fazem qualquer barraca parecer um brinquedinho de criança. Tal era a força das rajadas de vento que a água atravessava as duas camadas de nylon. Passamos a sexta-feira secando as coisas e tentando contato com os amigos pelo celular. Falamos com o Aranha à noite. Segundo ele a previsão do tempo dissera que iria abrir apenas no domingo. Seria tarde demais para nós. Isso daria fim ao plano de atacar a montanha mais alta, que por força maior chamaremos apenas de "Pico X", afinal de contas, se dissermos o nome dela fica fácil demais e não é isso que você quer, não é mesmo?

        Mas para nossa sorte a coisa começou a mudar já no sábado pela manhã.

        - Conta você agora Alfredo.

Foto: Marcelo Brotto
Sábado pela manhã e a frente fria se afastando para o oceano.

        Não só começou a mudar, como sofreu uma total metamorfose. Sentimos o vento estremecer a barraca de forma peculiar. Percebemos que ele mudara de direção. Aprontamos o café e nos deliciamos, então saímos da barraca pra ver a espessa nuvem que nos cobria ser carregada para o oceano e logo depois as nuvens que cobriam o 1º planalto, montanhas e litoral deste lindo Estado, simplesmente serem levadas para bem longe por um vento gelado; para bem longe...por um vento bem gelado! Descortinou-se ali um visual que nos fez arrumar imediatamente a mochila de ataque. "Pico X aí vamos nós!".

        Tínhamos um rastro do caminho até uma planície entre os vales, daí uma coordenada de 60º nordeste a partir de um rastro menos visível. O que encontramos nesta planície foi de 10 a 12 rastros, só que de anta, com fezes, pegadas e tudo que tínhamos direito. Parecia-se mais com um labirinto do que com um caminho, tudo em meio a uma floresta baixa com "árvores de doende", o que nos fez lembrar do filme "Senhor dos Anéis".

Foto: Marcelo Brotto
A floresta encantada na "bacia". Onde estaria a verdadeira entrada?

        Bem, acabamos por passar a entrada correta e tomamos um caminho mais ou menos 500 metros à frente. Resultado: A caminhada durou 4 horas invés de 2:30 horas. Subimos a montanha literalmente pelas costas. Temos plena certeza de que fomos as primeiras almas vivas que usaram este caminho, e não pretendemos faze-lo de novo! Enquanto escalaminhávamos entre grandes blocos de rocha, empilhados nas encostas da montanha, cobertos por uma "densa" mata nativa, procurávamos saber se nos entregávamos as gargalhadas ou nos derramávamos em lágrimas. O resultado foi que ficamos num misto de risadas curtas com comentários das belezas que estávamos vivenciando ali e reclamações do tipo: "Puts, se um de nós cair em alguma dessas gretas o que o outro pode fazer é jogar comida, uma blusa e se despedir" e; "É, mas se não acontecer isso, assim mesmo acho que a possibilidade de dormirmos nesta mata, sem chegar a algum lugar específico é muito grande". E assim íamos caminhando, "Para o alto e avante". Foi quando encontramos uma pequena clareira na encosta. Era uma parte bem vertical do caminho onde o granito estava exposto. Aí tivemos a primeira visão do nosso campo base desde que saímos cedo. Já eram umas 2:50h da tarde. Ficamos animados e deslumbrados. Esquecemos quase que instantaneamente o que havíamos passado a poucos minutos e percebemos que logo chegaríamos ao cume.

        - Não é Marcelo?

        - É isso mesmo. Você lembra a dificuldade que foi ultrapassar esse trepa mato no granito. Foi sem dúvida o ápice da adrenalina!

        Após ultrapassar mais alguns obstáculos, chegamos aos campos de altitude. Nos assustamos ao ver os blocos do cume tão perto de nós, ou seja, o plano inicial não previa chegar direto a essas pedras. Foi aí que confirmamos o brutal erro de trajetória.

        Enfim, ali estávamos nós no cume do "Pico X", por sinal muito bem vigiado por dois urubus, os guardiões da montanha. Descemos até a base dos blocos e começamos a subi-los. Nossos camaradas falconiformes resolveram alçar vôo, deixando o cume apenas para nós. Então escalei o último bloco, coloquei-me de pé e fui surpreendido por um panorama inimaginável. "Alfredo, eu não acredito! Cara, suba aqui pra ver isso".

Foto: Marcelo Brotto
Os Guardiões no cume da montanha.

        Dali, daquele ângulo privilegiado, montanhas e florestas dominavam a paisagem como nunca havíamos visto. As aglomerações humanas pareciam restritas a pequenos espaços e já não agrediam nossos olhos, parecendo conviver em harmonia com a floresta. Vimos tudo o que a curvatura do planeta nos permitiu. O ar era límpido como um cristal. A soberana floresta cobrindo grandes espaços e a quantidade incontável de montanhas bastou-nos para inscrever este dia na seleta lista de melhores dias de nossas vidas, e dar-nos a impressão de que nunca conseguiremos subir todas elas. Será?

        As 4:00h da tarde iniciamos o regresso, agora pela rota correta. Descemos até um pequeno vale que começava a se formar a partir de um cume menor. Seguimos um rastro que parecia pouco definido, confuso em alguns momentos. Quando nos demos conta, estávamos seguindo os passos da anta, nossa querida anta. E adivinhe onde o seu rastro nos levou. O Alfredo disse: "Marcelo, ta ficando mole aqui, to vendo umas pegadas indo e vindo". Olhei melhor já imaginando o que isso queria dizer. Me agachei e passei por debaixo das folhas dos caraguatás como havia feito 4 horas antes, ainda quando tentávamos achar a entrada da trilha em direção a montanha. Eis que esta era a verdadeira entrada. A mesma que julgamos se tratar apenas de um rastro de anta. Este era o segredo da guardiã da montanha. Bastávamos acreditar em seus passos que estaríamos no rumo correto.

        Superstições à parte, a verdade é que a trilha para a montanha é o próprio caminho que animal faz pra subir até o topo. Um privilégio de que jamais me esquecerei. Sem dúvida será uma história de pescador, ou melhor, de montanhista que cotarei para meus netos. Será que eles acreditarão que um dia existiu um animal desses em nossas florestas?

Foto: Marcelo Brotto   Foto: Marcelo Brotto   Foto: Alfredo Souza

        - Segue você Alfredo.

        Bem, após rirmos de nós mesmos, continuamos o caminho de volta, contando vantagens ao nosso próprio ego. A noite foi chegando junto com o cansaço que se acentuava a cada passo. Já utilizando nossas "headlamps" paramos em um córrego que cruzava a trilha, para resgatar uma pedra que o Marcelo deixara ali (só para não carregar), e pegarmos água para a janta (que por sinal foi uma das mais deliciosas e festivas que já tive na montanha).

        Chegamos ao base e começamos a fotografar novamente, pois as luzes da cidade e resquícios de raios solares formavam paisagens belas e inesperadas. Sem tirar o sorriso do rosto pusemo-nos a preparar a janta, neste dia em especial com sobremesa de torta de limão com bolachas Maria (receita de nosso mestre Marcelo Brotto. Interessados em aprender a receita entrem em contato com o e-mail do site).

        Neste dia 12 junho de 2004 às 22:49h, recebemos a seguinte mensagem em meu celular: "DAI, ESTÃO CONGELADOS? O ARANHA, EU (ANDRESSA) E O PACHECO IREMOS KMINHAR ATÉ AÍ. DAI TRAREMOS VÇS D VOLTA". Depois de ler a mensagem, pusemo-nos a relembrar e exaltar ainda mais os fatos marcantes de nossa aventura de 4 dias e também sobre o que eles teriam perdido de ver e viver neste dia. Após o banquete desta noite só nos restou dormir.

        Dia seguinte, dado na meteorologia que este era o 2° dia mais frio no sul do país nos últimos 10 anos (o 1° foi no dia anterior), acordamos ás 5:30h para ver o nascer do sol que sinceramente, não tem comentários! Depois acabamos por ter que calçar botas congeladas (literalmente), para irmos ao "WC", retornando dessa experiência traumática com os pés igualmente congelados. Preparamos e degustamos um bom cappuccino com broas, pães, queijos, goiabada, granola, etc, etc e tal.

        Para aproveitarmos a manhã até nossos amigos chegarem, fomos a outras duas montanhas dominadas por campos e com muito visual. Chegamos até a segunda montanha, que por acaso é a mesma que avistamos no dia de aproximação (com formato de toca de duende). Quando eram mais ou menos umas dez horas, resolvemos dar um grito imaginando que nossos amigos estariam visualizando esta montanha, assim como nós no primeiro dia, quando não foi nossa surpresa, ouvimos um nítido "UHUUUUUUUU!!!!" em resposta ao nosso grunhido. Nos comunicamos por mais um tempo e então voltamos até nossas barracas para espera-los com um bom café em mãos. Depois disso foi só alegria! Eles foram até a toca de duende como nós, enquanto desarmávamos acampamento.

        Fomos embora deixando nossas pegadas e levando a saudade da montanha e de seus guardiões.

por Alfredo Souza e Marcelo Brotto
Curitiba, 13 de novembro de 2004.








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