Em algum lugar...

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Rumo à Serra Desconhecida
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Um olhar sobre a Serra

Rumo à Serra Desconhecida
Foto: Marcelo Brotto

        Não foi a serração que pairava sobre nós quem escondeu os obstáculos que estavam por vir. Aliás, ela nunca foi problema pra quem conhece os segredos da Serra e suas florestas. O maior vilão, por incrível que pareça, foi a nossa falta de bom senso. Ela, hoje e sempre, é quem nos tira de casa para que durante alguns dias nos embrenhemos no mato em busca das paisagens esquecidas em Serras esquecidas. Sabemos muito bem das dificuldades que estarão pela frente, mas simplesmente as ignoramos apenas pelo prazer de desbravar novos horizontes. Lembro de ter dito "vai ser fácil", ainda quando planejava a travessia, embora lá no fundo soubéssemos que a palavra "fácil" nada tem a ver com o ambiente alto-montano.

        Sinceramente não esperávamos por tantos obstáculos. Olhando as montanhas de pontos conhecidos, essas pareciam repletas de campos, o que nos fez imaginar que caminharíamos sem dificuldade durante a maior parte do tempo, que de fato aconteceu só no primeiro e último dia da travessia. Aliás, como já dizia o poeta...uma travessia é sempre uma travessia, por mais amistosas que as montanhas possam parecer. Talvez isso explique o porquê daqueles montes estarem esquecidos...

        Esquecidos, porém iluminados em quatro dias de sol. Sabíamos que sem ele teríamos imensa dificuldade pra cruzar aqueles quarenta quilômetros. Só o que poderia nos tirar daquela imensidão verde seria a bússola e a carta topográfica. Felizmente o percurso foi traçado praticamente só no visual embora isto não tenha evitado erros que nos custaram horas a mais de caminhada.

        E por falar em visual, que visual! Sem falsa modéstia, é uma das mais belas paisagens do leste paranaense. Só vendo pra crer! Mas se você não crê em nada, ao menos leia e imagine...

        Imagine montanhas cobertas por um mosaico de campos e florestas. Cristas e vales salpicados por pequenos e grandes blocos de granito. Um patamar limitado à oeste pelo planalto e à leste por uma vertiginosa escarpa bordejada pela densa Floresta Atlântica. Se as nuvens não o impedirem o oceano estará logo ali. Se a chuva não o castigar o céu azul e um vento polar virão visita-lo durante o inverno. Suaves cristas ligam as elevações, quando não, são interrompidas por vertentes que as cortam de leste a oeste ou no sentido contrário e não raramente os cursos d' água atraem a matinha nebular até próximo aos cumes. Esses por estarem em um largo patamar acumulam um bom volume de água ainda no alto da Serra, formando cascatas nas proximidades da escarpa. Atravessamos alguns rios e pequenas quedas esquecidas nos confins da Serra esquecida, e isto me passou a impressão de que nunca mais verei aqueles lugares. Mais fácil, porém, seria esperar a primavera e o verão transformem os charcos em delicados jardins floridos. Quanto às panorâmicas, são muitas, tanto pra nós como para gaviões e corujas que encontram ali um refúgio tranqüilo pra viver. Definitivamente um lugar perfeito para quem não tem um mínimo de bom senso. Quem tem fica em casa.   

1º dia - Estado alcoólico

        Tudo começou em uma dessas estradas, que leva ao pé de alguma dessas montanhas. Lá, de baixo de um sol promissor eu e meus colegas, Alfredo e Rafael, percorremos os dez quilômetros mais filosóficos de nossas vidas. O tema em pauta era o homem e a natureza. Não entrarei em detalhes, mas dentre os assuntos discutidos estava a contaminação biológica por plantas exóticas e invasoras, como por exemplo o Pinus, que pra quem não sabe é o pinheiro mais utilizado para exploração florestal no Brasil e o mais odiado por nós ecologistas.

        Voltando ao que interessa, tão logo iniciamos a subida percebi que algo estava errado comigo. Começou com um mal estar, evoluindo rapidamente para a embriagues. Quando alcançamos o riacho já estava completamente leso. Acredite se quiser, era o efeito de um quentão que havia tomado no dia anterior. Por algum motivo o estado alcoólico acabou chegando atrasado.

        Me deitei sobre o campo esperando por uma melhora, porém nada aconteceu. Quando resolvi continuar, olhei para o cume e vi seus inofensivos 1.600 metros se transformarem em 2.600!!! Nada que a força de vontade não pudesse superar.

        Chegamos ao topo entre alguma nebulosidade, ainda a tempo de conferir no visual a rota para o dia seguinte. Não lembro de muita coisa após isso. Tudo que sei é que comi um yakissoba do mestre cuca Alfredo antes de uma dor de cabeça e febre me abaterem. Seria o mal da montanha?

2º dia - Florestas estrangeiras

        Estranho, não lembro de ter saído do país, embora parecesse que caminhávamos sob uma floresta temperada no hemisfério norte. Seriam cenas do filme "A bruxa de Blair" mas, evidentemente, sem os desorientados jovens ianques. O fato é que durante dois dias caminhamos sem dificuldade pelos campos, com extrema dificuldade pelo vara-mato e com facilidade incontestável pela floresta de pinheiros. Se eu não fosse ecologista já teria proposto plantar Pinus por toda parte.

Foto: Alfredo Souza

        Um caso de estupro com a Serra do Mar. Uma vergonha que alimentamos em nome do progresso. Sempre achei balela essa história de conservar a natureza para as gerações futuras. Sou eu que vivo essa desordem ambiental, sou eu que respiro essa fumaça e é o meu espírito marumbinista que sofre ao ver os campos trocados por Pinus. Esta nossa atitude derrotista não vai nos levar a nada! Deixar que o futuro resolva nosso problema é covardia - calma, a filosofia acaba aqui.

        Atravessar povoamentos de uma árvore só foi fácil. Nunca me esquecerei do momento em que o Alfredo, do alto de uma pedra falou: "galera, to vendo um Pinus a 50 metros de distancia" - estas palavras chegaram como um alento para nós. Eu, arranhado e com um rasgo na calça, o qual foi costurado pelo nosso enfermeiro de plantão, disse: "Então é simples assim costurar a pele de uma pessoa? Se precisar eu já to sabendo!" - Enquanto isso Rafael tentava descobrir onde seus braços não estavam arranhados. Por mais que um facão possa abrir o vara-mato, nunca saímos ilesos dessa batalha. Engraçado foi quando o Alfredo desistiu do facão, dizendo: "Vou adotar a tática do COSMO" - e foi deitando o mato, abrindo passagem a força.

        Resultado: Monocultura dificuldade zero, floresta altomontana dificuldade máxima!

3º dia - Estado de êxtase

Foto: Marcelo Brotto

        Não é ilusão de ótica, é uma obra de arte. Uma terra quase virgem que em beleza rivaliza com o Ibitiraquire. Montanhas, florestas, o oceano e as estrelas. Se as fotos não convencerem então seu espírito não está preparado.

        Quando isso acontece, quando me faltam palavras pra descrever o que é indescritível, digo apenas que este é um dia perfeito, que esta é a paisagem perfeita!

Foto: Marcelo Brotto

4º dia - A pior coisa que pode lhe acontecer

        Por pouco essa epopéia não se chamou "cagando e andando". Percebi que um título como este poderia afugentar o caro leitor que já deve estar imaginando o desenrolar dessa estória...

        Alguns dias após o episódio o Ronaldo afirmou: "Diarréia na montanha é a pior coisa que pode acontecer" - eu concordo, e não desejo isso pra ninguém. Não sei porque cargas d' água adquiri esse desarranjo intestinal. Sei que ele subtraiu minha força. Caminhar cansado é uma coisa, caminhar fraco é outra. Mesmo no trecho mais fácil tive imensa dificuldade pra andar.

        A saída foi lançar mão da rota escapatória e descer o quanto antes a montanha - não ria! Literalmente desci cagando, e ao chegar lá em baixo corri para o vaso sanitário. Enfim a felicidade!

        Depois nos dirigimos a uma dessas lojas que vendem quitutes a beira da estrada. Sentamos do lado de fora, ao lado de um mendingo e ficamos a admirar as montanhas. Ainda quero saber porque ele saiu do nosso lado. Será que estávamos fedendo tanto assim?

        Quarenta quilômetros em quatro dias na montanha transformam a gente, para melhor é claro! Nos sentíamos reis. Olhar a Serra lá de baixo é bom demais. Saber o que há além daquela silhueta sob o crepúsculo alimenta nosso orgulho. Essa é a vida que escolhemos e é bom demais viver assim!!

        Aí você me pergunta: Onde é esse lugar? Seria o lugar perfeito para avistar a harpia? Não sabemos, mas temos a impressão que sim.

por Marcelo Brotto
Curitiba, 6 de outubro de 2005.








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