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Morro Sete. Foto: Alexandre Pacheco dos Santos

À margem do Mãe Catira

Por Marcelo L. Brotto
23 de janeiro de 2008

       Antes de qualquer coisa vale comentar como essa imagem foi capturada. Certa vez estava em companhia de Beto Joly tentando chegar ao alto da pedra do Sete quando, enfim, o chão acabou. Então segurei num galho da última árvore e inclinei-me para frente, olhei pra baixo e lá estavam elas, 200 metros mais perto do centro do planeta do que eu. Um pouco mais adiante a estrada da Graciosa.

       Mas, voltando à primeira imagem, aquela que mostra um maciço florestal cobrindo parte do estado do Paraná. Nela se vê a Serra do Ibitiraquire ao fundo e o planalto onde surge o rio Mãe Catira. Já, a impressão de cada pessoa em relação à imagem pode ser tão diversa quanto a floresta que de longe parece tão homogênea. Pode-se pensar, por exemplo, que o lugar seja reduto de uma fauna completa, ou que seja um vazio demográfico vigiado apenas pelos fiscais do Estado, ou ainda, que não há quem cobice os bens que estão na floresta ou embaixo dela.

       De fato, o que a imagem mostra é um exemplo de conservação da natureza, uma floresta primária de grande extensão. Mas, uma coisa é o que se vê do alto, a outra você só vê se mergulhar no problema.

       Tive o privilégio de ser apresentado a esse pedaço de chão por um grande conhecedor da região, Julio Fiori. Já no início da caminhada ele advertiu: “não houve uma única vez que eu não tenha me perdido nesse lugar”. E não foi diferente, andamos em círculo. Talvez seja a magnitude da floresta que nos deixe desnorteados com tamanha beleza. Pelo sim pelo não, o ideal é não se preocupar e deixar que o acaso nos guie.

       Enquanto caminhávamos sem destino certo observei os sinais que surgem aos olhos de um bom mateiro. Nada de xaxim-bugio, nem palmito-juçara, rastros de trilha pra todos os lados, carteira de cigarro vagabundo, cartucho de bala, mas também árvores centenárias que nunca ouviram o som do aço. Fora isso a natureza em sua plenitude. Tanto é que, pelo acaso, certa vez se encontra a caça, uma queixada, refeição do predador, uma onça. Certa vez o predador fareja a caça, um montanhista, ou este topa com o caçador, um matuto. Só quem não aparece são os homens do Estado!

       Quem conhece bem a região sabe que ali é o reduto da fauna. Onde se encontra veado, cateto, jacu e onça rondando barraca não é história inventada. Por isso, topar com um caçador com o dedo no gatilho é ‘causo ocorrido’. Como diz Fiori, o matuto não consegue entender como tem gente que se embrenha naquele mato do diabo só por prazer. É algo tão díspar quanto dizer que uma legislação complexa pode proteger a complexa natureza tropical.

       Por falar nisso, o Estado (aquele mesmo que nunca aparece por lá) na tentativa de proteger a floresta criou as Unidades de Conservação, onde teoricamente os fiscais passariam a exercer sua função. Mas não é bem isso que acontece na prática. Como em qualquer lugar os donos da terra são os que marcam presença. Não é à toa que onde tem muito montanhista tem bicho e tem palmito. Não é o caso da bacia do rio Mãe Catira. Ali ainda tem muito ladrão pra pouco montanhista. Fica aí a reflexão.

Foto: Andressa Zanlorenzi.
Excursionista no alto da Serra da Graciosa.
Foto: Andressa Zanlorenzi.


       Impedir o acesso? Área intangível? Vão ter de explicar isso pra dois seres estranhos. O primeiro costuma andar em grupo, com bota de montanha, mochila, calça, camiseta, anorak (achando que está frio demais!), babando de boca aberta, deslumbrado com a beleza da floresta. O segundo, usando bota sete léguas sem meia, bermuda, sem camiseta (frio?!), saco de estopa amarrado ao ombro com barbante, a espreita do primeiro com uma espingarda de cano duplo na mão - palavras do Fiori.

       Então, vai dizer o quê? Que a Serra não tem dono? Quem conhece sabe e protege. É preciso estar imerso pra compreender o valor da natureza. Essa é a crítica a idéia de impedir o acesso em área “protegida”. O fato de ter gente andando por lá pode afugentar quem rouba a floresta. Portanto, recomendo o lugar pra quem é dono. Caminhar ao redor do Mãe Catira é conhecer uma natureza completa. Inevitavelmente você vai se apaixonar, mas há uma ressalva. Uma vez dentro não é fácil de sair.




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