Serra do Ibitiraquire
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Por Marcelo L. Brotto
26 de abril de 2007
O Pico do Paraná foi descoberto pelo geólogo alemão Reinhard Maack em 1940, durante seus estudos a respeito da tectônica da Serra do Mar. Do seu comunicado oficial ao Instituto de Geografia, através de publicação no Boletim Geográfico (1972), destaca-se:
"...que o pico Marumbi não é o mais alto morro do Paraná, pois foi verificado que tem a altitude de 1.547 m."
Até então era atribuída a altitude de 1.810 metros para o Olimpo, pico culminante do conjunto Marumbi. Em seguida Maack descreve a metologia usada para nova aferição:
"...em agosto de 1940, a altitude obtida pela ascensão do Marumbi foi controlada pela medição de ângulos verticais e completada por uma série de medição de pressão do ar e temperatura. As medições barométricas em duas rotas de ascensão diferentes deram em média 1.549,22 m, razão por que foi mantida a altitude trigonometricamente determinada. Mesmo na vizinhança do pico do Marumbi, na serra do Mar, foi verificado um pico algo mais elevado, o morro do Leão, com 1.565 m."
Em seguida Maack comprova o que sua cuidadosa observação já intuia, que à norte havia um bloco de montanhas bem mais altas que o Marumbi, atribuindo então, 1.922 metros de altitude para o Pico Paraná.
"...foi descoberta a mais alta elevação do Estado do Paraná e de todo o Sul do Brasil. Era um monte até aí sem nome e antes não ascendido, de formas ousadas, visível de Curitiba como cone duplo. O monte foi por mim denomido Pico do Paraná."

A expedição organizada por Maack para a conquista do ponto culminante do Sul do Brasil durou 15 dias, logrando êxito no final da tarde de 13 de julho de 1941. Segundo Maack:
"Para a primeira ascensão ao pico do Paraná equipei expedição de cinco homens. Foi um empreendimento difícil. O morro situa-se no sertão, afastado de todas as vias de transporte. Os caminhos de chegada tiveram que ser descobertos, perguntando-se a um e outro, e abertos a foice e facão. Nem mesmo picadas de caçador atravessavam a paisagem difícil, coberta de mata virgem. Os moradores próximos nem conheciam o morro que para eles se situava em ângulo morto."
Faziam parte da expedição os experientes marumbinistas Alfredo Mysing e Rudolfo Stamm. Dos relatos do Stamm temos:
"Subimos os picos Camapuã e Tucum, onde os fiz recuar para depois subir e descer o pico Caratuva, parando no último vale com água ou até onde Maack foi e donde efetivou-se a conquista ao acaso." (TRAMUJAS, 2000)
A mesma dificuldade de encontrar a melhor passagem para o Pico do Paraná foi relatada por Maack:
"Levamos quinze dias para encontrar o espinhaço estreito, o único possível, a 1.545 e 1.600 m de altitude, que conduzia à íngreme base de granito do pico do Paraná. Nessa altitude, não mais havia mata virgem atrapalhando o prosseguimento da marcha. A vegetação consistia em arbustos rasteiros e, finalmente, em campos de alta montanha e mais adiante, no declive do morro, de blocos e destroços de decomposição mecânica do paredão. A ascensão, embora muito cansativa, não oferecia mais dificuldade de monta. Enquanto à cerca de 50 m abaixo do cume eu executava lavantamentos fotogramétricos, antes que as frentes de morros e os vales em altitude menor desaparecessem, dois dos meus companheiros alemães mais jovens, STAMM e MYSING, pediram-me licença para ascender ao ponto mais elevado antes de mim. Foram assim os primeiros a chegar ao cume que atingi só mais tarde."

Posteriomente Paulo Henrique Schmidlim (Vitamina) publicou, em Informativo do Clube Paranaense de Montanhismo (1985), interessantes detalhes sobre a expedição, salientando as dificuldades daquela época. Este relato é mais completo que o de Maack.
"Na idade do ouro do marumbinismo, alcançado na década de quarenta, as escaladas restringiam-se exclusivamente as circunvizinhanças do Marumbi e com o comunicado do Maack, impulsionou o pessoal para as novas eminências. O diabo era como se chegar até lá!
O conjunto Ibiteruçu ficava totalmente isolado e protegido contra qualquer incursão civilizatória. O PP, como denominamos o Paraná, estava cercado de altos picos.
Ainda não existia a 116 e nem a estrada Antonina-Guaraqueçaba. Inviabilizável qualquer ataque pelo litoral, pois a única estrada mais próxima, era o da Graciosa, com o seu ramal São João-Antonina. As observações que Maack fez do alto do Mãe Catira, garantiam, também, a impraticabilidade pela Graciosa. Um cinturão contínuo e dominando 10 a 20 quilômetros de largura precintava o Conjunto desde as suas bases. Maack em seus estudos concluiu que a melhor investida só poderia ocorrer pelo lado do planalto. A via de acesso de maior aproximação rodoviária, ainda que precária, era a estrada da Praia Grande. Seguia-se pela Graciosa até a altura do "alto-da-serra" (restaurante do Elpidio) e ali desviava-se para esquerda, por mais 28 quilômetros para Taquari, Timbú, Praia Grande e Bairro Alto. Adiante separava-nos puro sertão. Não existia levantamentos aerofotogramétricos. Algumas sondagens aéreas feitas pelo Schiebler, comprovaram o acerto da abordagem pela face oeste.
Num feliz o oportuno casamento entre Maack e a dupla Mysing/Stamm, ensejou a montagem de uma expedição com o intuito de alcançar o ponto culminante do Estado. Após muitas considerações e uma estimativa de provisão para um máximo de oito dias, partem animados no dia 28 de junho de 1941, com o concurso de um carro fretado e o rumo da Praia Grande, onde Maack já antes acertara o apoio de três tropeiros e ainda mais carga. Em seguida dirigem-se à Terra Boa. Ali nova dificuldade técnica causada pela própria conformação da Serra, que na verdade, constitui-se em duas fileiras de cumiadas, progredindo no mesmo sentido, paralelas entre si, separados por enorme valo. A primeira formação, consequentemente mais próxima do seu observador, integrada pelo Ferraria, Taipabuçu, Caratuva, Itapiroca e Tucum, impediam a visão para a outra fileira de picos que incluíam o Ibitirati, União, PP, Camelos, Siririca e Agudo da Cotia. Nestas condições tornava-se difícil determinar a rota adequada para uma ascensão segura. Fazem ligeiramente escalada a um morrete próximo, mas pouca coisa conseguem vislumbrar. Terminam optando pelo ataque na extremidade meridional do Conjunto Ibiteruçu, envolvendo as cumiadas do Camacuan, Camapuan e Tucum, onde foram recompensados por irresistível panorama, num desmedido anfiteatro. No centro desse cenário alpestre envolvente, soerguia-se o impoluto pico Paraná. O visual sobre o desconhecido serviu para aumentar o anseio pelo mais alto. Até agora havia dispendido dois dias num esforço de abrir caminho por entressachados de arbustos flexuosos, caraguatás e unhas-de-gato. Os seis expedicionários decidem pela continuação da marcha rumo ao objetivo tão almejado, apesar de considerável distância que ainda os separava. Logo constataram que a velocidade da marcha, mesmo com o emprego de seis pares de braços resolutos, pouco representaram na prática, apenas perlongaram os sofrimentos. Não lhes restara outra alternativa do que recuarem para tentarem outra via. Debaixo do maior aguaceiro voltam ao acampamento base, para reiniciar os trabalhos no dia 07 de julho, tendo já completados dez dias. Na Terra Boa ficam sabendo da existência de um caboclo de nome Josias Armstrong que já estivera num dos picos da região, logo identificado como sendo o Caratuva (ex Getulio Vargas) e que concordou em auxilia-los. Partiram divididos em dois grupos revezando-se cada hora na frente e no transbordo da carga. Demoraram dois dias até o cume do Caratuva onde desfrutaram de inigualável vista sobre um perfil fantástico empinado a pique do Paraná, tendo a sua frente uma possante parede de tono morrom-avermelhado, afigurando-se numa muralha sensacional."

"Veio também a certeza da rota perseguida. Estancaram surpreendidos pelo fastígio das montanhas. Cuidadosas reavaliações confirmam a trajetória que deve prosseguir por uma apreciável bocaina, separando as vertentes do Caratuva e Paraná, terminando em uma estreita selada recheada de terríveis despenhos. Novos aguaceiros forcando a outro recuo até a base envolvendo mais dois dias. Dia 12 de julho, já com dezesseis dias de operações, novo ataque para transmontarem o Caratuva e infletirem por impérvios refertos de bromélias espinescentas e outros percalços. A expectativa do desconhecido no talvegue felizmente assegurou-lhes a passagem. Vararam-na por uma estreita faixa numa combinação de salientes e reentrantes, galgando terreno escabroso até o Pouso Avançado, no Campo Inclinado (atual Abrigo de Pedra) transmudando-se a flora, Maack permanece envolto em seus instrumentos, anotações e cuidadosas observações enquanto Mysing/Stamm e mais um tropeiro desejam explorar um pouco adiante, apesar do adiantado da hora. Breve o terceiro acompanhante retorna exaurido. Os dois escaladores persistem, apesar das imensas dificuldades intercorrendo paragens inéditas por entre fragais de granito expostos, radiculares e vegetação virente sobressaindo-se as copas baixas das vilosidades entumecidas por caratuvas. Próximo ao final, num estreito rechã, assoma uma parede vertical cindida por intrigantes traços silhares dando a impressão de hieróglifos ou mensagens cabalísticas...Finalmente, logram alcançar o páramo descalvado do Paraná com seus 1965 metros. Deixam uma placa provisória trazendo gravado o nome de todos os expedicionários. Estavam no dia 13 de julho de 1941. Os gritos de euforia ecoaram pelos desfiladeiros e quebradas, alcançando os demais excursionistas.
Estava conquistado o ponto culminante!"

O retorno procedeu-se pela rota de até então enquanto não surgia a 116 de Terra Boa por trilha de muares até Cacatu, e dali, em canoa-de-remo para Antonina onde apanharam o "Flecha" até Curitiba desembarcando no dia 19.
A Segunda escalada aconteceu quatro anos depois (18/04/1945) pelo Hatschbach, Bresemayer, Schiebler, Pereira e Josias Armstrong. Maack só pode alcançá-lo em 27 de julho de 1946. E, as primeiras mulheres foram a Ely Claassen (mãe da Lize, de Morretes) e Rosemarie Blohm.
(...)
A abertura do desvio da "Sela" pelo Pugsley a Adyr, terminou com a obrigatoriedade da escalada do Caratuva."