Serra do Ibitiraquire
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Por Marcelo L. Brotto
12 de fevereiro de 2002
Não me esqueço daquele sábado véspera do carnaval de 2002. Estávamos eu o Alexandre e a Regina, tentando resolver o dilema: Arriscar a Serra do Mar em pleno carnaval - vale lembrar que por essas bandas os carnavais são abençoados ano após ano pelo deus da chuva - ou passar três dias escalando em São Luis do Purunã. Essa tarefa de escolher que rumo tomar torna-se muito mais difícil quando não temos uma condução certa. Acontece que demoramos demais para decidir e acabamos perdendo o ônibus que ia a São Luis. Resolvemos então apostar todas as fichas na Serra do Mar. Liguei pro meu pai e pedi uma carona até a chácara do Bruno em Terra Boa.
Dia seguinte, domingo, amanheceu com tempo bom. Começamos a subir às 8:45 h chegando ao Getúlio em tempo de ver o sol secar os paredões do Itapiroca, ainda molhados pela chuva do dia anterior. Dali se tem a verdadeira noção do contraforte que divide o planalto da planície litorânea. Da esquerda para a direita enfileiram-se o Ferraria, Taipabuçu, Caratuva e Itapiroca. Essa primeira barreira de montanhas oculta toda a parte oriental da Serra do Ibitiraquire incluindo seu ponto culminante, o Pico Paraná.
Até esse momento não tínhamos um roteiro pré-definido. Foi então que nos surgiu a idéia de alcançar o Taipabuçu armando acampamento no Caratuva. Continuamos a caminhada parando no rio do almoço para pegar aquela maravilhosa água gelada. Encontramos a "janela" de onde se pode ver o "Taipa" por volta do meio-dia. Mais algum tempo subindo até sairmos do interior da mata altomontana para então caminhar em meio as caratuvas, que nos guiaram até o final, já a 1.852 metros de altitude. Com apenas mais alguns passos transpusemos o cume donde descortinou a inigualável paisagem. A mesma visão que desde 1941 instiga grandes montanhistas a conquistarem o tão famoso Pico Paraná. Naquele ano, os desbravadores Mysing e Stamm foram os primeiros homens a pisar nas inéditas paragens do ponto mais alto do sul do Brasil. De lá pra cá a paisagem pouco mudou. A nordeste a extensa Floresta Atlântica, Patrimônio da Humanidade. A sudeste a baía e as cidades de Paranaguá e Antonina, por onde se iniciou a colonização do Estado. A leste o maciço em questão ergue-se imponente e solitário. Particularmente nessa tarde o panorama estava belíssimo. Pequenas nuvens passavam ligeiras em direção do oceano, pontilhando de branco o azul celeste e recortando a face do Pico Paraná
com suas sombras.
Logo atrás de nós chegaram mais alguns bem aventurados e entre eles uma moça que vinha com os olhos vendados. Pensei se ela saberia o que estava preste a ver ou se fazia alguma idéia da onde estava. Quando seus olhos foram descobertos, o PP e um bom pedaço do Paraná estavam bem à sua frente. Quem já teve a oportunidade de ver isso sabe muito bem do que estou me referindo!
Resolvemos então ir até o Taipabuçu,
pois o tempo estava ótimo. Escondemos nossas mochilas ao lado da clareira que fica no começo da trilha e iniciamos a descida pela crista. Durante a caminhada fomos surpreendidos por um bando de jacutingas que assustadas voaram para longe de nós. Essa crista de ligação entre as duas montanhas lembra muito a última hora de caminhada que se faz no Pedra Branca do Araraquara, tendo à nossa direita o abismo, próximo apenas a alguns metros da trilha. De repente surge uma "janela" e as imponentes paredes do Taipabuçu
erguem-se à nossa frente. Mais um motivo para uma nova parada e mais uma foto para minha coleção. Do "Hiato", como é chamada aquela pequena elevação ao lado do "Taipa", seguimos descendo e depois subindo até chegar à pedra da cabeça da tartaruga. Ali as rochas se equilibram na beira do penhasco formando uma verdadeira plataforma de onde se tem uma visão por completo do Ibitirati
, União e do Pico Paraná. É um lugar perfeito para tirar ótimas fotos e foi isso que fizemos. Aproveitei para registrar o lado norte do Caratuva
com uma participação especial muito importante. A outra máquina fotográfica! Tiradas todas as fotos fizemos o ataque final chegando ao cume,
a 1.734 metros de altitude. Fui dar uma olhada no Ferraria
e me surpreendi com o profundo vale que os separa. Ainda não conhecia esse pedaço de Serra. Enquanto fazíamos mais uma "boquinha" assinamos o caderno. O Pacheco fez referência ao tamanho das butucas que não paravam de nos importunar, enquanto eu ressaltei as vantagens desse carnaval..."Sol, calor, no pagode! no axé!! no black music!!!"
Estava bom demais para ser verdade! Iniciamos nosso regresso encontrando novamente a "janela" do Hiato. Fomos forçados a fazer uma nova parada, pois esse lugar é realmente mágico! Ali a impressão que se tem é de estar em um anfiteatro. Cercado pelo Taipabuçu
à esquerda e o Caratuva à direita, com os paredões do Ibitirati e do PP dourados pela luz do sol que se esvaia vale abaixo. O silêncio era absoluto e apenas nossos olhares corriam pela paisagem. Com um pouco de atenção poderíamos libertar nossos sonhos e deixá-los planar entre as montanhas...
Chegamos ao Caratuva a tempo de pegar o pôr do sol. Ali já haviam aportado três "pagodeiros perdidos" e também um colega do COSMO acompanhado pelo primo.
Fiz questão de armar minha barraca de frente para Paranaguá. Logo que acabamos a arrumação pusemo-nos a fazer uma sopa de aipim e tomamos um capuchino que o colega nos ofereceu. Enquanto segunda etapa da janta era preparada, ficamos a observar uma furiosa tempestade despejar seus raios sobre o Atlântico. Jantamos nada mais nada menos que um macarrão a bolonhesa acompanhado de vinho branco. Ficamos tão empolgados com o cardápio que classificamos a barraca como uma autêntica "cuccina italiana" das montanhas. Convidamos os dois colegas para experimentar o "manjare" e continuamos batendo papo, contando histórias da serra até o sono nos vencer por completo.
Dia seguinte amanheceu frio e com o céu absolutamente limpo, como se fosse pleno inverno. Levantamos acampamento e lá pelas 10:30 h começamos a descer a crista
do Caratuva em direção ao Abrigo 1. O sol já brilhava forte e a descida se tornou um martírio quando vorazes e impetuosas butucas formaram um enxame sobre nós. Nessa descida tive a sorte de encontrar um canivete que pretendia comprar em breve (tomara que o dono desse canivete nunca leia esse texto). Do A1 fomos buscar água e voltamos descendo até a junção das montanhas. No início da crista do PP encontramos o Tarquino que nos garantiu que havia poucas barracas acima. Chegamos no A2 num calor infernal! Dois caras estavam desmontando acampamento, pois queriam passar a noite no cume. Foi ali mesmo que rearmamos as nossas barracas. Nesse instante, nuvens já se acumulavam próximas aos Camelos. Era quase certo que pegaríamos tempo fechado dali por diante, resultado de um típico dia quente de verão. Descansamos um pouco e depois fomos rumo aos 1.877 metros de altitude, a última fronteira entre a terra e céu.
Chegando lá encontramos os dois camaradas sozinhos no cume. Ouvimos relâmpagos ao fundo da baía e por um momento relutamos em tentar atingir o Ibitirati. Mas ele estava logo ali. Perto demais para montanhistas apaixonados como nós. Apesar de não enxergar nem mesmo o União, resolvemos descer o verdadeiro peral que é a face nordeste do PP.
As nuvens rodopiavam de um lado para outro e os relâmpagos continuavam, só que agora mais próximo. Passamos pelo União e subimos a estreita trilha que culmina em 1.846 metros de altitude. Finalmente o Ibitirati!
O Pacheco desceu até a última rampa antes do "nada" e me chamou para ver o abismo. A Regina nem quis chegar perto, pois estávamos realmente no limite. Foi quando o tempo começou a abrir para o lado do Ferraria e do Taipabuçu. Então corremos para garantir algumas fotos.
Nessa hora sentimos a fúria do deus trovão. A tempestade rugia a poucas centenas de metros. Estava muito próxima, mas não podíamos vê-la. Sabíamos que inevitavelmente seríamos engolidos pela chuva. Arrumamos as coisas para dar no pé quando de repente uma rajada de vento dispersou a neblina que estava sobre nós mostrando a cortina de água bem a nossa frente. Minutos se passaram e o sol conseguiu romper entre as nuvens formando um belo arco-íris.
Pegamos novamente as câmeras enquanto a tromba d' água contornava Bairro Alto. Só posso dizer que o que se seguiu foi uma das mais belas imagens que já vi por essas bandas. Fachos de luz atravessavam por dentro do arco-íris
iluminando a vila
e esta, via crescer nossa sombra, a sombra do Ibitirati. Imagens indescritíveis!
Imagens surreais!
Imagens para a eternidade! 
Em meio àquele cenário espetacular iniciamos nosso retorno, já com saudade daquele pedaço de chão chamado Ibitirati.
Mais uma seção de fotos espetaculares para atingirmos novamente o páramo descalvado. Os dois colegas estavam assim como nós, exibindo um sorriso que ia de um lado para o outro do rosto. Esperamos o sol se pôr atrás das nuvens e retornamos serpenteando pela crista, montanha abaixo.
Naquela noite, mortos de fome, devoramos um risoto de legumes acompanhado de uma espetacular salada de sardinha.
Na terça de carnaval acordamos tarde. Fomos rumo ao Camelos.
Chegando lá nuvens brancas cobriam e descobriam os campos de altitude. Pudemos observar toda a imponência do lado sul do PP. Esta seria a última montanha daquele carnaval, que por sinal foi perfeito! Perfeito porque estávamos bem e em casa.
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