Ibitirati, 1.846m União, 1.818m Pico Paraná, 1.877m Tupipiá, 1.727m Camelos, 1.579m Cerro Verde, 1.652m Taquaripoca Jacigearoca, 1.592m Luar, 1.624m Ciririca, 1.692m Agudo da Cutia, 1.384m Agudo da Cuíca, 1.357m

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Ferraria, Taipabuçu e Caratuva vistos do Camapuã. Foto: Marcelo Brotto

Reveillon na montanha é coisa pra maluco

Por Marcelo L. Brotto
12 de janeiro de 2002

       Se pessoas normais passam o fim de ano em lugares normais, definitivamente somos malucos. Isso pode até parecer música do Raul Seixas ou então três caras subindo o Itapiroca em doses homeopáticas. Caminhando 15 minutos, descansando 15 minutos, caminhando 30 e descansando 30 e assim por diante até chegarmos ao cume a 1.799 metros de altitude. Não se assuste, esse realmente não é o procedimento normal para subir uma montanha tranqüila como é o Itapiroca. O problema é que naquele 29 de dezembro de 2002 fazia um calor infernal e carregávamos mochilas pesadas com comida para 4 dias.

Cume do Itapiroca. Foto: Carlos (Aranha)

       Ficamos pouco tempo por ali. Logo pegamos a crista sudeste rumo ao Cerro Verde onde passaríamos a noite. Ainda na crista podíamos ver a nossa esquerda as nuvens cobrindo o cume do Pico Paraná e mais abaixo a junção com o Caratuva. Quando dobramos à direita rumo ao vale entre o Cerro e o Itapiroca mais problemas apareceram. A trilha encontrava-se muito fechada, resultado da multiplicação dos bambus durante o verão. Tivemos que ir abrindo o caminho até sair nos primeiros campos do Cerro Verde. Dali para frente foi fácil.

       Lá em cima, a 1.652 m, o visual estava alucinante. Que o diga o PP que agora flutuava sobre um cinturão de nuvens. Ao sul o Ciririca e seus eternos campos contrastavam com sua própria sombra, projetada sobre o alvo mar. Já o Itapiroca e Caratuva exibiam um verde intenso. Ficamos por ali escrevendo no caderno de cume até o sol apontar no horizonte. Nesse instante o Pico Paraná tomou um tom cobre belíssimo. Depois disso tratamos de descansar e preparar a janta. Da porta da minha barraca observava as estrelas surgirem de trás do ápice paranaense. Que dia! Que paisagem! E o melhor de tudo é que não fazíamos idéia do que os próximos dias nos reservavam.

       - Acorda aí Marcelo, ta amanhecendo! - gritou o Aranha.

       Abri o zíper da minha barraca e a primeira coisa que vi foi isso... Dá pra acreditar? Coisa de maluco! Pulei pra fora e estranhamente não vi nem o Aranha nem o Raul.

       - Ei, o que vocês estão fazendo aí dentro que não vem aqui pra fora? -indaguei sem obter resposta.

       Então peguei minha velha Yashica e fui para a pedra do cume esperar o sol nascer. Registrei e voltei para tirar mais um cochilo.

Foto: Marcelo Brotto

       Lá pelas 11:00h já estávamos baixando o acampamento. Nosso próximo destino era o redondo rochoso Tucum. Vista do Cerro Verde a subida pela face leste parece ser tranqüila embora já soubéssemos que não era. Antes de começar a descer ainda bati uma foto do sol reinando sobre o Marumbi, sobre o Morro Sete e sobre nós mesmos. O calor estava de volta, o que nos fez caminhar rápido, serpenteando pelos campos até o rio na base da montanha, onde descolamos uma merecida sombra. Ficamos por ali uns 50 minutos para então encarar o trepa mato, com direito a muita taquara no rosto. Felizmente chegamos em pouco tempo ao colo, que é a ante-sala para o cume. Dali em diante foi só alegria!

       Do alto dos seus 1.739 metros o Tucum mostra-se como um dos mais belos visuais dessa serra. Podemos observar de ponta a ponta as principais montanhas do Ibitiraquire.

Passe o mouse sobre os cumes para identificar as montanhas. Foto: Marcelo Brotto

       Da esquerda para a direita: Guaricana, Ferreiro, Ferraria, Taipabuçu, Caratuva, Itapiroca, Ibitirati, União, Pico Paraná, Tupipiá, Camelo, Cerro Verde, Taquaripoca, Jacigearoca, Luar, Ciririca, Agudo da Cotia, Agudo Cuíca e Araponga. O próprio Tucum é uma montanha bonita. Seu cume é amplo, coberto por rochas e caratuvas. Ficamos por ali assinando o caderno, enchendo de elogios as linhas que guardarão para o futuro as lembranças deste dia maravilhoso, de muito sol, céu azul e até de uma chuva que vinha em nossa direção.

       Botamos as mochilas nas costas e demos no pé rumo ao Camapuã. Deixamos o Aranha pegando água na vertente e subimos correndo para armar a barraca. Chegamos no cume, a 1.699 m, às 4:30 h da tarde. Foi o tempo de levantar a dita cuja e começou a chover. Logo apareceu o Aranha com a água. Algum tempo depois chegou o Ronaldo, a Jaque e a Bia vindos da trilha normal do Camapuã. Havíamos combinado de nos encontrar para comemorarmos juntos o Reveillon. Iniciamos as festividades com um rodízio de sopas e vinho. Nem preciso dizer que até 2003 só rolou "rango massa".

       O último dia do ano começou tão belo quanto o dia anterior. Aproveitamos a parte da manhã para escalarmos alguns "boulders" plantados sobre os largos campos do Camapuã. Além das rochas também encontramos orquídeas terrestres, o que dá noção do grau de preservação do local. Após o almoço, a base de risoto de legumes, armou-se uma terrível tempestade.

       Sobre o Mãe Catira e o Sete precipitava literalmente chuva sobre chuva. Nunca tinha visto algo parecido. Em minutos a massa de vapor já estava passando bem a nossa frente. Formava-se ali o cenário perfeito para a foto perfeita. Nuvens negras, raios e montanhas iluminadas pelo sol da tarde. Dá pra imaginar? É algo mais ou menos assim... O único problema é que o fotógrafo, este que vos fala, não conseguiu flagrar os dois raios que despencaram sobre o Araponga. Mesmo assim trouxe para casa fotos singulares daquele inesquecível 31 de dezembro de 2002.

Pico Paraná. Foto: Marcelo Brotto

       Depois da chuva fomos buscar mais água e aproveitamos para encarar alguns "boulders" na encosta do Tucum. Chegamos e pegar algumas "quiçaças" como diz o Ronaldo. No final das contas acabamos subindo até o cume e enquanto assinávamos o caderno podíamos ouvir a galera conversando no Camapuã.

       - Fala mais baixo aí! - gritei.

       - Tudo bem! - responderam.

       - Não fala mal de mim que eu estou ouvindo! - retruquei, só para tirar um sarro.

       O silêncio era realmente apaziguador. Já estava escurecendo quando voltamos para as barracas. Na direção da capital caia outra tempestade que de longe parecia assustadora. Lá pelas 23:00h começamos preparar a janta. Na hora da virada começou a chover e entramos os 5 dentro da barraca. Fazia uns 30º C lá dentro. Mesmo assim tudo foi festa!

       - Adeus ano velho, feliz ano novo!... - entoamos todos juntos.

       Assim terminava 2002. Confesso que foi o melhor Reveillon que já passei em minha vida. Na montanha, junto aos meus amigos e num cenário espetacular. Que o diga a "foto perfeita" que não consegui flagrar. Mas a recompensa ainda estava por vir. Como diz o ditado: Nada como um dia após o outro ou ainda, nada melhor que uma foto após a outra, afinal de contas, o dia 1º ainda estava apenas começando....

       Não lembro direito quem me acordou, só lembro que tive um certo trabalho para sair da barraca, pois a bagunça era generalizada. Quando subi nas pedras e olhei para o Atlântico, vislumbrei o verdadeiro eldorado dos montanhistas.

       Definitivamente Reveillon na montanha coisa para maluco!








[1] Itapiroca. Pedra esfolada. De itá, pedra, metal, sino, rocha, e piroca, esfolar, descascar, escamar.
[2] Ciririca/Siririca. Grande mãe dos caranguejos do mato.
[3] Tupipiá. Pequeno pai, paizinho. Caminho do pai. Pai afastado.
[4] Taquaripoca. O estalo da taquara.
[5] Jacigearoca. Quarto minguante. Meia lua.
[6] caratuva (Chusquea pinifolia).
[7] Camapuã. Colina arredondada em forma de seio.
[8] Boulder. Pequeno bloco de pedra.
[9] Orquídeas. À esquerda na foto Oncidium sp. e à direita Habenaria sp.

Referências bibliográficas:
MILLER, D.; WARREN, R. Orquídeas do Alto da Serra na Mata Atlântica Pluvial do Sudeste do Brasil. Salamandra. 1996.

TRAMUJAS, ALVARO DE PAOLA. A Vegetação de Campos de Altitude (Áreas de Refúgio) no Maciço Ibitiraquiri - Serra do Mar no Estado do Paraná. Dissertação nº 302. UFPR. Curitiba, 2000.



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