Serra do Ibitiraquire
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Por Marcelo L. Brotto
12 de janeiro de 2002
Se pessoas normais passam o fim de ano em lugares normais, definitivamente somos malucos. Isso pode até parecer música do Raul Seixas ou então três caras subindo o Itapiroca em doses homeopáticas. Caminhando 15 minutos, descansando 15 minutos, caminhando 30 e descansando 30 e assim por diante até chegarmos ao cume a 1.799 metros de altitude. Não se assuste, esse realmente não é o procedimento normal para subir uma montanha tranqüila como é o Itapiroca. O problema é que naquele 29 de dezembro de 2002 fazia um calor infernal e carregávamos mochilas pesadas com comida para 4 dias.

Ficamos pouco tempo por ali. Logo pegamos a crista sudeste rumo ao Cerro Verde onde passaríamos a noite. Ainda na crista podíamos ver a nossa esquerda as nuvens cobrindo o cume do Pico Paraná e mais abaixo a junção
com o Caratuva. Quando dobramos à direita rumo ao vale entre o Cerro e o Itapiroca mais problemas apareceram. A trilha encontrava-se muito fechada, resultado da multiplicação dos bambus durante o verão. Tivemos que ir abrindo o caminho até sair nos primeiros campos do Cerro Verde. Dali para frente foi fácil.
Lá em cima, a 1.652 m, o visual estava alucinante. Que o diga o PP
que agora flutuava sobre um cinturão de nuvens. Ao sul o Ciririca
e seus eternos campos contrastavam com sua própria sombra, projetada sobre o alvo mar. Já o Itapiroca e Caratuva
exibiam um verde intenso. Ficamos por ali escrevendo no caderno de cume até o sol apontar no horizonte. Nesse instante o Pico Paraná
tomou um tom cobre belíssimo. Depois disso tratamos de descansar e preparar a janta. Da porta da minha barraca observava as estrelas
surgirem de trás do ápice paranaense. Que dia! Que paisagem! E o melhor de tudo é que não fazíamos idéia do que os próximos dias nos reservavam.
- Acorda aí Marcelo, ta amanhecendo! - gritou o Aranha.
Abri o zíper da minha barraca e a primeira coisa que vi foi isso...
Dá pra acreditar? Coisa de maluco! Pulei pra fora e estranhamente não vi nem o Aranha nem o Raul.
- Ei, o que vocês estão fazendo aí dentro que não vem aqui pra fora? -indaguei sem obter resposta.
Então peguei minha velha Yashica e fui para a pedra do cume esperar o sol nascer. Registrei e voltei para tirar mais um cochilo.

Lá pelas 11:00h já estávamos baixando o acampamento. Nosso próximo destino era o redondo rochoso Tucum.
Vista do Cerro Verde a subida pela face leste parece ser tranqüila embora já soubéssemos que não era. Antes de começar a descer ainda bati uma foto
do sol reinando sobre o Marumbi, sobre o Morro Sete e sobre nós mesmos. O calor estava de volta, o que nos fez caminhar rápido, serpenteando pelos campos até o rio
na base da montanha, onde descolamos uma merecida sombra. Ficamos por ali uns 50 minutos para então encarar o trepa mato, com direito a muita taquara no rosto. Felizmente chegamos em pouco tempo ao colo, que é a ante-sala para o cume. Dali em diante foi só alegria!
Do alto dos seus 1.739 metros o Tucum mostra-se como um dos mais belos visuais dessa serra. Podemos observar de ponta a ponta as principais montanhas do Ibitiraquire.

Da esquerda para a direita: Guaricana, Ferreiro, Ferraria, Taipabuçu, Caratuva, Itapiroca, Ibitirati, União, Pico Paraná, Tupipiá, Camelo, Cerro Verde, Taquaripoca, Jacigearoca, Luar, Ciririca, Agudo da Cotia, Agudo Cuíca e Araponga. O próprio Tucum é uma montanha bonita. Seu cume é amplo, coberto por rochas e caratuvas. Ficamos por ali assinando o caderno,
enchendo de elogios as linhas que guardarão para o futuro as lembranças deste dia maravilhoso, de muito sol, céu azul e até de uma chuva que vinha em nossa direção.
Botamos as mochilas nas costas e demos no pé rumo ao Camapuã. Deixamos o Aranha pegando água na vertente e subimos correndo para armar a barraca. Chegamos no cume, a 1.699 m, às 4:30 h da tarde. Foi o tempo de levantar a dita cuja e começou a chover. Logo apareceu o Aranha com a água. Algum tempo depois chegou o Ronaldo, a Jaque e a Bia vindos da trilha normal do Camapuã. Havíamos combinado de nos encontrar para comemorarmos juntos o Reveillon. Iniciamos as festividades com um rodízio de sopas e vinho. Nem preciso dizer que até 2003 só rolou "rango massa".
O último dia do ano começou tão belo
quanto o dia anterior. Aproveitamos a parte da manhã para escalarmos alguns "boulders" plantados sobre os largos campos do Camapuã. Além das rochas também encontramos orquídeas
terrestres, o que dá noção do grau de preservação do local. Após o almoço, a base de risoto de legumes, armou-se uma terrível tempestade.
Sobre o Mãe Catira e o Sete precipitava literalmente chuva sobre chuva. Nunca tinha visto algo parecido. Em minutos a massa de vapor
já estava passando bem a nossa frente. Formava-se ali o cenário perfeito para a foto perfeita. Nuvens negras, raios e montanhas iluminadas pelo sol da tarde. Dá pra imaginar? É algo mais ou menos assim...
O único problema é que o fotógrafo,
este que vos fala, não conseguiu flagrar os dois raios que despencaram sobre o Araponga. Mesmo assim trouxe para casa fotos singulares daquele inesquecível 31 de dezembro de 2002.
Depois da chuva fomos buscar mais água e aproveitamos para encarar alguns "boulders" na encosta do Tucum. Chegamos e pegar algumas "quiçaças" como diz o Ronaldo. No final das contas acabamos subindo até o cume e enquanto assinávamos o caderno podíamos ouvir a galera conversando no Camapuã.
- Fala mais baixo aí! - gritei.
- Tudo bem! - responderam.
- Não fala mal de mim que eu estou ouvindo! - retruquei, só para tirar um sarro.
O silêncio era realmente apaziguador. Já estava escurecendo quando voltamos para as barracas. Na direção da capital caia outra tempestade
que de longe parecia assustadora. Lá pelas 23:00h começamos preparar a janta. Na hora da virada começou a chover e entramos os 5 dentro da barraca. Fazia uns 30º C lá dentro. Mesmo assim tudo foi festa!
- Adeus ano velho, feliz ano novo!... - entoamos todos juntos.
Assim terminava 2002. Confesso que foi o melhor Reveillon que já passei em minha vida. Na montanha, junto aos meus amigos e num cenário espetacular. Que o diga a "foto perfeita" que não consegui flagrar. Mas a recompensa ainda estava por vir. Como diz o ditado: Nada como um dia após o outro ou ainda, nada melhor que uma foto após a outra, afinal de contas, o dia 1º ainda estava apenas começando....
Não lembro direito quem me acordou, só lembro que tive um certo trabalho para sair da barraca, pois a bagunça era generalizada. Quando subi nas pedras e olhei para o Atlântico, vislumbrei o verdadeiro eldorado dos montanhistas.

Definitivamente Reveillon na montanha coisa para maluco! 
