Serra do Ibitiraquire
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Por Marcelo L. Brotto
09 de maio de 2003
Sexta-feira Santa dia 18 de abril.
Encostas orientais e campos ocidentais, duas grandes placas plantadas sobre um largo cume e antigas caratuvas ressequidas pelo tempo. Uma das mais desejadas e resguardadas montanhas de nossa Serra do Mar ergue-se a 1.692 metros de altura sobre o eixo principal do Ibitiraquire. O Ciririca, conquistado em 12 de julho de 1.949 por Vespa, Arame e Lanterna era nosso destino na Páscoa de 2003.
Partimos em 8 pessoas com tempo bom, embora soubéssemos que esta não seria uma constante durante o feriado. Da BR-116 em diante cada um tratou de digerir da melhor maneira aquelas longas 9 horas do trajeto. Caminhamos sob a floresta cruzando vales, grotas e cursos d' água num sobe e desce interminável. Macacos, cogumelos coloridos, micro-orquídeas e cachoeiras, entre elas a "do Professor", surgiam um após o outro evidenciando a riqueza dessas terras. Por falar nisso, aqui se encontram alguns exemplares arbóreos centenários que nos remetem às palavras de Américo Vespúcio: "as suas árvores são de tanta beleza e suavidade que pensávamos estar no Paraíso".

Enfim, após muito caminhar chegamos ao famoso "rio da última chance". Descansamos alguns minutos antes de iniciar a subida propriamente dita. Saí na frente, pois queria armar a barraca antes de escurecer. Mochila nas costas e muita força de vontade nessa hora. A cada metro vencido desvendava-se atrás de mim o cenário que a tanto tempo esperava vislumbrar.
Tucum, Luar, Cerro Verde, Pico Paraná. Estavam todos ali, eloqüentes gigantes, cravados entre os verdes vales do Ibitiraquire. Olhando acima via a crista "morrer" no céu onde as antigas caratuvas balançavam ao sabor do iviturui. Imediatamente a minha esquerda o abismo e o som das águas do rio Cacatu. Vastidão e liberdade. Passo após passo até avistar as duas placas sobre o cume. Enfim, o Ciririca!
Foi então que me deparei com um grave problema. O lugar estava lotado e não havia uma única clareira vaga.
Sábado de Aleluia.
Já passava das quatro da tarde e a situação continuava desfavorável. Peguei o caderno de cume que estava com a gente desde manhã e comecei o meu relato.
"Todos sabiam que iria chover. Então por que vieram? Doze barracas empilhadas por todos os lados e até no barranco sobre as caratuvas. O que há de tão especial aqui? Seriam as vozes da montanha que nos chamam para que possamos contempla-las? Ou quem sabe é a companhia de nossos grandes amigos que nos fazem buscar o sol onde só há chuva, vento e frio..."
Questionei sem deixar resposta, pois cada um tem suas próprias aspirações. A verdade é que nenhum de nós estava satisfeito com tanta chuva. Neste dia tivemos uma trégua de meia hora pela manhã e mais meia hora no final da tarde. Nos reunimos apenas nesses intervalos de tempo. Gastamos o resto do dia jogando conversa fora, dormindo e secando a água que vertia para dentro de nosso abrigo.
Domingo de Páscoa.
Acordei sem grandes esperanças. Coloquei a cabeça para fora da barraca e surpreendentemente vi o Agudo da Cotia. A chuva havia cessado e o sol dava mostras que iria brilhar embora ainda houvesse muitas nuvens a sua frente. A oeste o céu estava quase azul. Mesmo assim quem estivesse em Curitiba não podia vê-lo devido a serração que pairava sobre a capital. Pegamos o que havia para o café da manhã o fomos fazer uma social lá em cima com a galera, afinal de contas fazia mais 24 horas que não nos reuníamos. O tom da conversa foi evidentemente a chuva e o vento. Tentávamos descobrir quem havia se empenhado mais por causa do mau tempo. Enquanto isso aproveitei para subir na placa e registrar a moçada lá de cima. foto1..
foto2..
Nesse instante fui surpreendido por uma cena de rara beleza protagonizada pelo astro rei, quando este projetava sua luz sobre a as nuvens. Bati a foto posteriormente intitulada "cidade dos anjos". foto3..
As onze da manhã iniciamos o retorno. Chegando ao rio da última chance nos dividimos em dois grupos. Metade retornaria por baixo, ou seja, pela trilha direta do Ciririca e o outro grupo retornaria por cima, perfazendo a travessia do Luar, Tucum e Camapuã. Como nenhum de nós conhecia esse trecho entre o rio e o cume, redobramos a atenção e seguimos o rastro que nos levou sobre uma vertente de água subterrânea. Em seguida topamos com uma pequenina cascata que escorria sobre a laje. Atravessamos também um trecho formado por árvores antiqüíssimas. Dali em diante o que se viu foi "- Com licença senhora taquara, com licença, obrigado!". A trilha fechada me rendeu o recorde absoluto de "taquaradas" no olho e escorregões. Com o tempo encoberto passamos batidos pelo cume do Luar. Ainda hoje imagino como seria a vista a partir dos seus 1.624 metros de altitude. Descemos lutando com a inclemente vegetação até próximo ao cruzo Cerro Verde-Tucum. Paramos no rio e fizemos uma sopa instantânea que nos devolveu a força antes de prosseguirmos encosta acima.
Quando chegamos na caixa de registro ventava forte. Isso fez com que as nuvens se afastassem para o sul. Dali para o Camapuã foi um "pulo". Lá fomos recepcionados por um pôr do sol daqueles que estamos acostumados a ver. foto4..
Era a recompensa pelo esforço empreendido. Era a resposta que faltava. Estávamos ali pelos nossos amigos, pela nossa paixão, pelo que ainda não tínhamos visto. foto5..
Finalmente tempo firme, céu estrelado e "rango massa". A vida que pedimos a Deus! Por falar na janta vale a pena lembrar do cardápio. Salada a base de milho, ervilha, cebola, cenoura, atum e sardinha temperados com um bom limãozinho, caldo de feijão, polenta com pedacinhos de calabresa e ainda um maravilhoso macarrão ao molho rosê com pedaços de queijo derretido. Fala sério...
Segunda-feira dia 21 de abril, Tiradentes.
Acordamos sobre um mar de nuvens. As montanhas à leste e sudeste, inclusive o Ciririca, continuavam encobertas e o sol custava a brilhar sobre os campos do Camapuã. Tomamos o café, juntamos nossas coisas e partimos com a certeza que valeu a pena. Apesar de tanta chuva, ainda assim valeu a pena!