Serra do Ibitiraquire

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Saci e Conjunto Ibiteruçu a partir do Ferraria. Foto: Marcelo Brotto

Stairway to Heaven

Por Marcelo L. Brotto
19 de julho de 2003

       Não há como premeditar os dias que passamos entre as montanhas. Muitas coisas nos vêm a imaginação quando temos pela frente algum feriado prolongado. Definimos rotas, tempo de percurso e conferimos a previsão meteorológica, quase sempre em vão, pois estando lá encontramos uma outra realidade. Lugar onde não circula dinheiro, onde tudo que temos são uns aos outros, onde quem dita as regras ainda é a mãe natureza.

"...Há uma dama que com certeza toda aquela purpurina é ouro
E ela está comprando uma escada para o paraíso..."


       Nosso destino no feriado de Corpus Christi era novamente a Serra do Ibitiraquire via caminho do Cristóvão. Sob nuvens não muito animadoras iniciamos nossa caminhada partindo do planalto em direção a Bairro Alto, vilarejo de Antonina encravado aos pés do Conjunto Ibiteruçu. Nosso primeiro objetivo seria o Ferreiro, montanha com aproximadamente 1.565 metros acima do nível do mar.

       Estávamos em três, eu, o Ronaldo e a Jaqueline. Progredíamos com boa velocidade pelo caminho colonial quando, na parte mais alta da trilha, topamos com algumas diferentes no barro. Tinham o tamanho de uma mão fechada, três grandes dedos, espaçamento de 15 centímetros entre uma e outra e com profundidade que sugeria um animal de aproximadamente 100 quilos. Automaticamente nos veio a cabeça que poderia se tratar de uma anta, mas descartamos essa hipótese por pensarmos estarem extintas da Serra do Mar. Dias mais tarde fui consultar um livro sobre pegadas de animais no setor de Zoologia da Universidade Federal do Paraná e para minha surpresa lá estava ela, idêntica a que tínhamos visto. Dizia: Tapirus terrestris, conhecido popularmente como anta. Fiquei feliz por constatar que elas ainda habitam por essas bandas. Mais uma prova de que a natureza é pródiga e de que devemos conservar o que ainda nos resta de Floresta Atlântica.

       Não passava das onze e meia quando entramos na "trilha" do Ferreiro, ou melhor, na rota que nos levaria aos campos de altitude onde passaríamos a noite - o caro leitor deve estar se perguntando o porque das aspas - pois bem, lembro que no começo da subida nos deparamos com um tronco caído sobre o curso d' água, o que nos fez ajoelhar para ultrapassar o obstáculo. Observando nosso jeito o Ronaldo falou brincando: "É, temos que nos curvar perante a montanha e mostrar respeito para com ela". O que não imaginávamos é que repetiríamos o gesto muitas vezes, até que conseguíssemos encontrar a passagem para o cume, este guardado a sete chaves por uma mata praticamente impenetrável.

"...Numa árvore perto do riacho há um pássaro que canta
Às vezes todos os nossos pensamentos são pressentidos
Oh isso me faz imaginar, isso me faz imaginar..."


       Basta dizer que os conquistadores consideravam essa vegetação como sendo a mais tosca, insalubre, inculta, nojenta (e outros tantos adjetivos que não me vêm à memória) de toda a Serra do Ibitiraquire. Tucuns e unhas de gato, bambus e taquaras entrelaçadas como cama de gato impediam qualquer menção de progredirmos sem o uso dos facões. Era como se estivéssemos construindo nossa própria "Straiway to Heaven", um verdadeiro túnel que serpenteava incógnito encosta acima. Só conseguimos deixar para trás essa "quiçaça" quando o sol já apontava no horizonte. Chegamos no cume à noite, armamos a barraca, fizemos a janta e fomos dormir, pois estávamos esgotados.

       A sexta-feira amanheceu nublada. Fomos até a caixa de registros para assinar o caderno. Junto com ele encontramos algumas formigas que já pensavam em se alojar por ali. Infelizmente não pudemos apreciar um bom visual, que desta posição deve ser alucinante, diga-se de passagem. Algum tempo depois o céu começou a abrir, mas já era tarde. Deveríamos prosseguir em nossa jornada.

"...Há algo que sinto quando olho para o oeste
E meu espírito está chorando por partir..."


       Voltamos ao Cristóvão, trilha de antas e de majestosas árvores. Seguimos até o rio do Ferraria onde fizemos um lanche. O percurso sobre o leito deste rio é lindíssimo, ornamentado por uma flora exuberante e acompanhado por uma sinfonia de cantos de diversos pássaros. Nos confundimos em alguns afluentes, mas logo reencontramos o caminho que leva à nascente, já na encosta na montanha. Saindo da floresta vimos o cume e a extensa subida reluzindo sob um azul celestial. Sem dúvida uma das cristas mais bonitas de toda a Serra e que proporciona um ótimo panorama do Guaricana e Serra do Capivari.

"...Em meus pensamentos tenho visto anéis de fumaça através das árvores
E as vozes daqueles que ficam olhando
Oh isso me faz imaginar, oh isso realmente me faz imaginar..."


       A todo instante podíamos mirar o cume que apontava a 1.735 metros de altitude. À leste nuvens se juntavam sobre a planície, onde as sombras dos gigantes deitavam-se lentamente. O Astro rei iluminava nosso caminho rumo ao topo. Estávamos subindo ao paraíso. Lá o iviturui já se fazia presente trazendo a certeza de bom tempo. Bastava-nos esperar o sol de um novo dia, que iluminaria a obra divina esculpida sobre o limbo do planeta azul. Contemplação. Nada mais, apenas contemplação...

"...Se todos nós pudemos entoar
Então o flautista ira nos guiar para a razão
E um novo dia irá amanhecer para aqueles que permanecerem
E as florestas irão ecoar as risadas..."


       Lá pelas 9:30h da manhã de sábado ouvimos os gritos de nossos amigos, Alexandre e Regina, que já estavam subindo pela crista norte. Depois de uma boa noite de sono acampados em baixo de um "mocó" no rio do Ferraria, vinham juntar-se a nós nesta aventura. Eu e o Ronaldo descemos um trecho da trilha para recepciona-los e dar um apoio moral. Retornando ao cume tratamos de armar a barraca e preparar o almoço. Como bons serranistas passamos o resto do dia apreciando a paisagem de que mais gostamos, as montanhas da Serra do Mar, em suas cores vivas pintadas em verde e azul, luz e sombra.

"...O flautista está lhe chamando para juntar-se a ele
Querida dama, você pode ouvir o vento soprar
E você sabia que sua escada está sobre o vento sussurrante da primavera?
E assim que ventamos pela estrada, nossas sombras são maiores que nossas almas..."


       Mais um dia estava se encaminhando para o fim, mas não sem antes deixar imagens inesquecíveis em nossa memória, como por exemplo, o imenso espelho prateado formado pela represa do Capivari ou então as cintilantes luzes de Bairro Alto envoltas pela absoluta escuridão da floresta. Contemplando estas cenas estávamos nós, sentados todos na mesma direção, batendo papo e esquentando o corpo com um legítimo conhaque.

"...Lá anda uma dama que nós conhecemos
Que brilha uma luz branca, ela quer mostrar
Como tudo ainda se transforma em ouro..."


       O belo alvorecer de domingo abriu o último dia na Serra. Após ajuntar e ajeitar todos os nossos apetrechos nas cargueiras nos despedimos do Ferraria e seguimos rumo ao Taipabuçu. Este percurso forma um verdadeiro "V" entre as duas elevações. Ambas as encostas abrigam uma agradável e intacta mata nebular. Paramos apenas para beber um mate e comer um amendoim japonês. Nada mal para uma manhã de domingo. Chegando ao cume III do Taipa fomos recepcionados por um panorama extraordinário. Ali pedras do tipo "venha subir em cima de mim" se equilibravam a beira do penhasco, a 1.709 metros de altitude. Do outro lado do vale o verdejante Caratuva e um pouco mais à esquerda o Pico Paraná envolto por nuvens que pareciam algodão-doce. Que vista! Que dia!! Tudo parecia conspirar a favor. Um cenário tão perfeito como uma boa obra de arte. Como uma música daquelas que ficam para sempre guardadas em nossa alma e soam como trilha sonora para os nossos dias entre as montanhas.

"...E se você ouvir bem atento
A canção virá a você no último instante
Quando todos são um e um são todos
Yeah, para ser uma pedra e não rolar
E ela está comprando uma escada para o paraíso."








[1] Ibiteruçu. Montanha Grande. De Ibitira e ussu, grande.
[2] anta (Tapirus terrestris).

Referências bibliográficas:
PAGE, JIMI; PLANT, ROBERT. Stairway to Heaven - Led Zeppelin IV. Atlantic. 1971.
Letra completa da música "Stairway to Heaven"

TRAMUJAS, ALVARO DE PAOLA. A Vegetação de Campos de Altitude (Áreas de Refúgio) no Maciço Ibitiraquiri - Serra do Mar no Estado do Paraná. Dissertação nº 302. UFPR. Curitiba, 2000.



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