Serra do Ibitiraquire

Serra do Capivari
Serra do Ibitiraquire
Serra da Graciosa
Serra da Baitaca
Serra do Marumbi
Serra da Prata
Serra de Araçatuba
Serra da Mantiqueira
Serra dos Órgãos
Em algum lugar...
Mares e montanhas
Iviturui Ambiental
Flora Altomontana



Descoberta e Conquista
Carnaval Perfeito
Reveillon na Montanha é Coisa pra Maluco
O Sol Sempre Brilha Acima das Nuvens
Stairway to Heaven
Águas de Julho
Tão Perto, Tão Distante
A História se Repete
Uma Viagem ao Sertão
Iviturui Subtropical


Encostas do Pico Paraná rasgando as nuvens. Foto: Carlos (Aranha)

Águas de Julho

Por Raul Passos
17 de setembro de 2003

       Não estava chovendo em Curitiba por aqueles dias. Fato que, para um montanhista, é carta branca para se embrenhar no mato. Somado a um tanto considerável de motivação, era o que faltava para que, mais uma vez, o trio (o mesmo) que se havia entrevado na travessia Itapiroca - Cerro Verde - Tucum em plena véspera de ano novo, se decidisse a enfrentar uma semana no Pico do Paraná... Ah, mas quem pode ter certeza do tempo na capital paranaense? Foi precisamente o nosso erro, ou melhor, o descuido que transformou nossa semana numa molhada epopéia.

       Partimos de Curitiba no domingo, dia 13, a uma temperatura de 7 graus (ainda tépido para o inverno curitibano!). O nosso querido Aranha, para variar um pouco, com a mochila mais pesada do que ele mesmo (até hoje não consegui entender como é possível uma mochila pesar tanto. Sempre o vejo a carregar e ainda não descobri onde ele põe o chumbo!). "Meu termômetro está marcando 10", relatou ele. Os céus estavam promissores. Prometiam chuva, para nosso desespero.

       Começamos a subida bastante animados. O Marcelo nos motivava ainda mais: atacaria de mestre confeiteiro fazendo uma sobremesa surpresa no cume. O Aranha subiu aos suspiros (apaixonado?). A tempos que o não via assim! Ele com certeza se utilizou desse recurso para esquecer do container que carregava no lombo. De cada 10 palavras que falava, 11 eram "ela". Eu, com a mochila mais leve, no entanto já sentia arrepios pelo aquaflex que teria de carregar a partir do A2. Habituado a carregar a comida, ainda não me entrava na telha a idéia de subir com a água.

       Um pouco depois do cruzo Caratuva - PP, encontramos escoteiros. Vinham em bando. As meninas com seus travesseiros e ursinhos de pelúcia, fofinhos e cheios de pico-pico. Ainda um pouco mais à frente cruzamos com o pessoal do "Nas Nuvens", grupo de montanhismo. Todos se surpreendiam com o trio que, enquanto tantos desciam, estavam empenhados em subir e, pior, permanecer uma longa semana que já prometia ser, por assim dizer, não das mais secas!

       Já começava a ventar forte e a temperatura baixava consideravelmente ao cair da noite, quando atingimos o Abrigo de Pedra, perto da última bica. Enquanto Marcelo e Aranha buscavam água, fiquei resguardado com nosso equipamento. Foi o meu pior erro: sentia o vento entrar nos ossos e aquilo foi congelando meu rosto e meus dedos. Tentei mexê-los, mas já perdiam a agilidade notória de alguém que, até o inicio da subida, era pianista por profissão. No entanto, naquele mesmo lugar senti uma sensação incrível de paz, como jamais houvera experimentado. Por vezes não se escutava sequer o vento (talvez por já me haver congelado as orelhas), mas o fato é que aquele silêncio foi uma das coisas mais sensacionais que já me aconteceram em meus 20 aninhos de vida!

       Quanto mais se contempla, menos se reclama. Mas o fato é que eu teria de passar a noite inteira contemplando esse oceano de paz para não reclamar daqueles litros d'água que me ceifariam as costas nos metros restantes até o cume. Ali percebi o quanto as pedaladas que deixei de dar nas (poucas) tardes quentes de maio em Curitiba me fizeram falta. O Aranha, que subia como o próprio artrópode, ainda se ofereceu para carregar 4 dos 10 litros que eu levava. E eu, além de perplexo com minha ineficiência para burro de carga, estava atarantado em ver meu quase irmão subindo como um serelepe. O Marcelo, a essa altura do campeonato (uns 1700m) já tomava distancia.

       "Cheguei ao meu limite", foi meu primeiro pensamento ao atingir o cume. Caminhava como um bêbado que tentava fingir estar sóbrio, quando contornei a ultima pedra, onde, desconhecendo o quanto faltava, decidi parar para retomar o fôlego. O Aranha, que mais tarde me confessou que também não lembrava o quanto faltava naquele ponto (insignificantes 5m!!!), tratou de não me deixar parar. De fato, se parasse, eu, que a essa altura não sentia nem braços nem pernas, teria muito mais dificuldades para chegar. O famoso "uhuuuuu!!!" que o Marcelo teve a honra de ser o primeiro a gritar quando chegou lá em cima, a 1.877m, me soou tão distante como se eu estivesse a quilômetros dele. A distancia que nos separava então era de 15m. A sensação térmica no cume era de 0 grau. Apesar dos membros lassos, tinha consciência do quanto era maravilhoso estar no ponto mais alto do sul do Brasil. Dormimos os três como nenéns, tamanha a fadiga. Até nos esquecemos de assinar o livro de cume.

       E tempo para isso não nos faltaria no dia seguinte. Choveu a cântaros. Água à Bangu, mesmo... E, ironicamente, nossa maior preocupação era com o estoque de água (maldição eterna ao aquaflex!). Confinados os três ao interior da barraca, passamos o dia a filosofar e, numa brecha intermitente da chuva, a preencher o livro de cume com nossos devaneios (o Mal da Montanha...). "10 graus está marcando o termômetro", disse o Aranha. "Acho que esse teu termômetro está viciado, hein?", comentei. O chimarrão foi outra feliz idéia que nos ajudou a passar o tempo. Mais três montanhistas atingiram o cume neste dia (na certa pensando que estariam sozinhos naquele dilúvio. Mas a Arca de Noé sempre reserva surpresas. Esta nossa até aranha tinha...). Permaneceram apenas um dia e, possivelmente, desceram escorregando.

       A constante neblina não nos permitiu sequer fotografar o amanhecer do dia 15. Segunda surpresa desagradável, posto que, qual não foi o nosso assombro ao constatarmos, no café da manha, a primeira delas: um infame ratinho da montanha havia dado cabo de alguns legumes e (mais previsível) do queijo ralado. "Bem que eu escutei um barulho de sacola se mexendo, de madrugada", relatou o Aranha, indignado. No entanto, mais importante agora, era que havia estiado. Decidimos aproveitar a brecha (e a temperatura de 10 graus, no termômetro do Aranha) para ir até o cume do Ibitirati. Passamos pelo União e, ao chegarmos ao topo com nossas maquinas fotográficas em punho, fomos surpreendidos pelo visual. Não vou nem fazer um relato muito extenso, pois as fotos falam por si. Maravilhosos !!!

Foto: Marcelo Brotto

Faltou filme para registrar a catarse de vida, cores e harmonia que compunham a fenomenal paisagem a que nos víamos integrados. foto1.. foto2.. foto3.. "Valeu nossa semana", comentei com meus botões e, mais tarde, com Marcelo. Na volta, entre o Ibitirati e o União, nos detivemos por um instante a contemplar o vale que se precipitava a nosso lado, na forma de uma garganta colossal e profunda, a menos de um passo da estreita trilha onde estávamos. Aquela noite nos abraçou com uma incrível sensação, misto de satisfação e glória, que nos faria dormir intensamente, não fosse o inconveniente do rato. Mergulhamos em nossos sacos de dormir atentos a qualquer ruído de sacola e armados para cacetear o roedor no meio da noite, se ele ousasse aparecer na trincheira mais alta do Sul do Brasil. Eu, que estava com os pés envoltos por duas sacolas para amenizar o frio (de 10 graus), adormeci um pouco mais preocupado, atormentado pela idéia de, ao me mexer inconscientemente durante a madrugada, ser despertado por uma saraivada de porrete nos calcanhares.

       Uma aurora alucinante nos saudou por volta das 7 horas do dia 16. Foram poucos os minutos que tivemos para registrá-la, menos nas lentes que em nossas memórias, pois a neblina nos envolveu novamente. Fizemos as últimas tomadas do que se podia ver do litoral e do Tupipiá, do qual tínhamos uma bela vista daquele ponto. Do outro lado do cume, se avistava o inicio da travessia para o Cerro Verde e as montanhas do outro lado da serra. Desceríamos, então, até o A2, onde levantaríamos acampamento para o pernoite. Chegamos lá às 4 da tarde, com a ameaça constante da nuvem negra que se instalara sobre nós, a qual batizamos "carinhosamente" de "Nega Tamara". Persistente, não nos deixou pôr o nariz para fora da barraca. Quando ameaçávamos fazê-lo, no que aparentava ser uma trégua, ela despejava suas "lagrimas", por certo de saudades do trio que, até então, fora mais persistente que ela...

       A noite chegou estrelada, sem vestígios de chuva. O Aranha, ao sair da barraca, não conteve a infeliz exclamação de vislumbre: "Olhem, La City!!!", demonstrando dotes para as letras que estão como os meus para a física nuclear. Mas, de fato, Curitiba apontava como um amontoado gigantesco de pontilhadas luzes, dignas de um quadro de Georges Seurat. Olhei para o céu e constatei: "Estão aqui todas as estrelas do mundo". A tão esperada sobremesa do Marcelo veio, e sem decepções: uma surpresa gelada à base de mousse de limão, após um jantar no mínimo requintado para os padrões da montanha. Ceamos polenta com queijo e arroz com funghi secchi. Trouxemos comida "a migué". "Meu calvário na subida foi vão", pensei, desolado. Mesmo sem chuva, mas com vento, adormecemos a 10 graus, escala Aranha-Celsius.

       Estava brusco no alvorecer do dia 17, último de nossa excursão. Antes de iniciarmos a descida, e pela falta do ratinho do cume, improvisamos um rato para constar de nosso histórico fotográfico. E para quem nunca viu um montanhista com calça boca-de-sino, o Aranha posou com o modelito Rambo Anos 60. Durante a descida, cruzamos com um grupo que, naturalmente, subia. E nos colocamos no lugar daqueles que cruzaram conosco há 4 dias, ao pensarmos "Malucos, vão se molhar".

       Nos separamos ao chegar em Curitiba, gratificados pela experiência pouco ortodoxa de 5 dias encharcados no mato. Na rodoviária, disse ao Aranha: "Esse termômetro vai voar longe se estiver marcando 10 graus". Mas fui desarticulado pelo termômetro em frente à rodoviária: fazia 10 graus em Curitiba. E já não chovia...

       Agradeço ao Marcelo pela oportunidade que me cedeu de relatar a nossa façanha. Foi a prova de que, nem mesmo com chuva, o montanhista se abate, e tampouco deixa de curtir e contemplar o que a natureza lhe dispõe de melhor, em seu estado mais virgem. Montanhistas, uni-vos! São as Águas de Julho fechando o melhor da estação!!!








i


v


i


t


u


r


u


i