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Conjunto Ibiteruçu sobre um céu azul de novembro. Foto: Marcelo Brotto

Tão Perto, Tão Distante

Por Marcelo L. Brotto
26 de novembro de 2003

       Esta é mais uma história que vale a pena ser contada. Vale a pena, pois é fruto das aventuras de alguns marumbinistas em busca de suas realizações pessoais.

       O objetivo era a travessia dos cinco cumes do Conjunto Ibiteruçu em um único dia. Diferentemente da primeira tentativa, quando fomos vencidos pela chuva, agora a sorte estava conosco. O sol e um céu azul quase sem nuvens prometiam contribuir com nosso plano. Mas antes disso, vale a pena lembrar onde essa aventura começou.

       Tudo precipitou no Centro Politécnico da UFPR quando, um dos meus colegas de turma, me convidou a ir com ele e mais dois ao Pico Paraná. Como eu já pretendia ir para aquela região na mesma data não hesitei em aceitar o convite. Marcamos então para nos encontrar na rodoviária numa terça-feira. Convidei também um outro colega, o Alfredo do CPM, que permaneceria comigo até quinta-feira, enquanto que os outros retornariam na quarta.

       Manhã de terça e lá estávamos nós, caminhando na tradicional estradinha rumo a última chácara, quando um dos graduandos me perguntou: "E aí, falta muito?". Foi então que confirmei a minha suspeita. Eu havia sido convidado para ser o guia! Tudo bem. Não vi problema quanto a isso. Só me preocupei um pouco, pois não tinha certeza se eles chegariam "vivos" ao destino. Brincadeiras à parte, o problema era que eles não tinham a mínima noção de quanto teriam de caminhar, e no Pico Paraná isto é um detalhe fundamental! Pra piorar um pouco o sol brilhava forte, mostrando que não teria piedade dos novatos.

       Felizmente tudo correu bem. Apesar das línguas de fora chegamos no final da tarde ao cume. O tempo estava excepcional. Sorte de principiante, ou melhor, de três!

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Cume do PP com o Ibitirati ao fundo. Foto: Bruno Truiti

       Quarta-feira, 9:35 h.

       "Hei, olha pra trás" - apontava para a abrupta crista do PP de onde acabávamos de descer. Estávamos quase lá e já nos preocupávamos com o retorno, o qual deveríamos enfrentar "abrindo taquara no peito" (como diz o Alfredo) sob um generoso sol de novembro. Chegando ao cume nos cumprimentamos com um tradicional aperto de mãos. Estávamos enfim na montanha que sempre viveu sob a sombra do todo poderoso, mas que naquela manhã era a estrela principal para dois obcecados marumbinistas. Eis o Tupipiá, 1.727 metros s.n.m., a primeira (ou a última) das montanhas do Ibitiraquire.

       Quarta-feira, 9:45 h.

       Aparentemente intocável. Uma montanha no fim da linha. Uma imagem que não me foge da memória. Por quantas vezes no Cerro Verde apreciei tuas formas? Parecendo querer escapar das sombras avança à leste, longe demais para quem já ultrapassou 1.800 de altitude. Mas nada é tão distante que não se possa tocar. Durante muitos anos me imaginei pisando essa terra, olhando de frente a face sul do Pico Paraná. Tendo vales e paredões sob meus pés. Por muitos anos eu sonhei, e sei que continuarei a sonhar. Mas aqui, tudo que tenho a fazer é sentir o som e as cores da Serra. Rochas que desafiam o tempo e andorinhas que desafiam ambos. Tudo que tenho a fazer é conspirar uma nova realidade, esculpir um novo sonho. Alimentar meu próprio ser e levar tudo isso de volta, até a próxima montanha e dessa para uma outra, e para uma outra, e outra...
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       Quarta-feira, 15:30 h.

       "Deve ser dura a vida de caratuva. Ficar aí balançando na beira do penhasco não é pra qualquer um!" - comentei.

       Sentados sobre um bloco de pedra curtíamos a vista que só o Ibitirati pode proporcionar. Abaixo (digo, imediatamente abaixo) o vale do rio Cutia e disco-porto e a noroeste o trio Caratuva, Taipabuçu e Ferraria compunham a fenomenal paisagem. Uma sombra e uma agradável brisa convidavam-nos a um cochilo, mas não podíamos ficar mais embora essa fosse nossa vontade. Deveríamos retornar ao PP e seguir aos Camelos para fechar com louvor àquela proveitosa quarta-feira.

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       Quarta-feira, 18:40 h.

       Penso com meus botões. O que faz dois malucos virem correndo dos Camelos ao abrigo 2 em menos de 6 minutos? A resposta é: uma terrível tempestade se aproximando. Ainda nos Camelos víamos incrédulos pingos de chuva carregados pelo vento, passando por nós horizontalmente a uma incrível velocidade, ou seja, literalmente chuva de lado. Ficamos pouco tempo por ali. Apenas o suficiente para tirar uma foto, comer alguns amendoins e apreciar a vertiginosa face do Pico Paraná por um outro ângulo. Quando retornamos à barraca puxei duas garrafas que estavam cheias, deixadas ali por algum...(não! Não vou ofender ninguém hoje). Bom, acontece que uma das garrafas era verde sem rótulo e a outra era transparente com um rótulo azul de uma marca de água mineral. Eis que, qual foi a nossa surpresa quando Alfredo abriu a garrafa transparente: "Marcelo, essa tampa está lacrada". Ele abriu e me passou. Eu cheirei, bebi e olhei pra ele já com um sorriso sarcástico no rosto, como quem diz: "estamos com sorte hoje".

Pico Paraná e Tupipiá vistos a partir do Camelos. Foto: Marcelo Brotto

       É isso que acontece quando o cidadão traz alguma coisa e não consegue levar de volta. Ele simplesmente deixa lá e nós apenas agradecemos, pois não é sempre que se toma água mineral no abrigo 2. Ah, e consegui também um bico dosador daqueles de garrafa PET e um maravilhoso papel higiênico verde e cheiroso que tive o prazer de utilizar, sem falar da panela nova que o Alfredo ganhou. Já imaginou se cada um que vai pra lá deixa alguma coisa? Poderíamos até montar um armazém. O "Armazém do Abrigo 2".

       Enfim, tudo aconteceu como planejamos. Quem diria que conseguiríamos fazer em um dia de sol o que não foi possível em cinco dias de chuva? Quem diria que tomaríamos um banho em pleno julho e que veríamos um límpido céu azul em novembro? Tudo fora perfeito! Mas é lógico!! Assim foi feita a Serra; perfeita.

       Dedico este texto aos camaradas da Engenharia Florestal, Bernardo, Bruno Truiti e Bruno Foresti, que estiveram pela 1ª vez no cume do sul do Brasil.








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