Serra do Ibitiraquire

Serra do Capivari
Serra do Ibitiraquire
Serra da Graciosa
Serra da Baitaca
Serra do Marumbi
Serra da Prata
Serra de Araçatuba
Serra da Mantiqueira
Serra dos Órgãos
Em algum lugar...
Mares e montanhas
Iviturui Ambiental
Flora Altomontana



Descoberta e Conquista
Carnaval Perfeito
Reveillon na Montanha é Coisa pra Maluco
O Sol Sempre Brilha Acima das Nuvens
Stairway to Heaven
Águas de Julho
Tão Perto, Tão Distante
A História se Repete
Uma Viagem ao Sertão
Iviturui Subtropical


Agudos fotografados do Ciririca. Foto: Marcelo L. Brotto

Uma Viagem ao Sertão

Por Marcelo L. Brotto
06 de junho de 2006

       É verdade que estudante paga meia, mas isso nada tem haver com o lugar pra onde vamos. Se a pressa é inimiga da perfeição e os Agudos do Ibitiraquire são a perfeição, logo... A regra que vale é caminhar, caminhar muito, quanto mais longe se quer chegar. Se não fosse isso, o que seria da recompensa sem o sacrifício?

       O roteiro é o de sempre. O primeiro dia até o Ciririca, o segundo de ataque até o Cutia e o terceiro para o retorno. Poucos são os destemidos que realizaram esse percurso em um único dia e esse não era o nosso caso. Meu companheiro Völtz e eu pretendíamos caminhar sem pressa, usufruindo as belezas que o caminho tem a oferecer.

       Assim seguimos através da selva hora após hora até a base da montanha pretendida. Lá chegamos, a tempo de ver a nebulosidade guardada nos vales desde cedo se dissipar. Uma recepção digna de quem é bem quisto por essas bandas. Adiante inflectimos sobre o Ciririca, só parando quando pisamos o cume. Este por si só não é grande coisa. A sensação de estar nele, essa sim é uma grande coisa.

       Olhando para o norte a 1.692 metros de altitude o que se vê é o conjunto Ibiteruçu em toda a sua imponência. Ao sul uma visão um tanto bizarra, por assim dizer. Refiro-me as duas enormes placas cravadas sobre o campo arbustivo que cobre o Ciririca.

       Surpreendente ainda, mas não tão bizarra, é a presença de outra dupla no alto de uma das placas e que logo descobri se tratar dos camaradas Giancarlo e Emerson, serranistas que como nós estavam ali por pura diversão. Ao final da tarde aportaram também o casal Adriano e Daiana, com quem tive o prazer de caminhar na Serra Fina dois anos antes. Enfim, tínhamos ali, sob cúpula estrelada de uma noite calma, praticamente uma reunião em família.

O céu do esmisfério Sul e a placa de reflexão de micro-ondas. Foto: Marcelo L. Brotto
O céu do esmisfério Sul e a placa de reflexão de micro-ondas.

       Esse dia marcou também a primeira vez que não tomara um banho (no sentido figurativo) no alto dessa montanha. E mais, o dia seguinte prometia ser melhor ainda e possivelmente me permitiria às fotos dos Agudos como sempre desejei.

       Dito e feito, o domingo amanheceu sem nuvens. Com a câmera em punho subi a placa e registrei o contorno do PP sob um tom contra-luz alaranjado. Virei-me para o lado oposto e registrei todas as Serras em tom azul esverdeado contrastando com o amarelo dos campos mais próximos.

       Foi então, com a certeza de bom tempo que nós seis, reunidos sem querer no Ciririca, resolvemos unir forças e embarcar na "viagem" que nos levaria ao coração do sertão. Carregando apenas o necessário lá fomos nós, ladeira abaixo através da úmida e sombria face sul, disparando fotos e mais fotos até pisarmos o pediplano Agudos.

       Se eu não estiver enganado, essa formação geológica que atende pela denominação de pediplano tem a conformação típica de época semi-árida, ocorrida em tempos pretéritos no Paraná, conforme esclarecem Bigarella e Maack. Hoje ele apresenta-se como um alto patamar à frente do conjunto dos Agudos, coberto por uma vegetação de campo limpo, campo arbustivo e floresta nebular. Os próprios campos representam uma vegetação pretérita, típica de época mais seca e fria e que hoje está restrita ao alto da Serra. Não seria exagero, portanto, dizer que uma ida aos Agudos é uma viagem no tempo.

       Já, eu e o Rafael preferimos chamar este fim de mundo de 'sertão', lembrando as palavras de Maack quando se referiu ao Pico Paraná em sua conquista: "O morro situa-se no sertão, afastado de todas as vias de transporte". Era lá onde estávamos, perto das montanhas e longe de tudo.

       Ao final da descida resolvemos alcançar o Agudo Lontra. Para chegar até ele abrimos caminho pelo campo, pois não havia rastro qualquer que pudéssemos seguir. A subida não foi difícil. Nos custou apenas quarenta minutos de marcha a partir da trilha que segue ao Cutia.

       Vencido o cume, pusemo-nos boquiabertos frente a este último. Para o nosso deleite o Cutia estava banhado de sol. Uma imagem singular. Não há descrição que possa reproduzir a força dessa paisagem. Também não há como fotografar sem distorcer o que só os olhos podem ver. Da iluminada encosta ao profundo vale que some na escuridão e nos separa. A vegetação que se agarra como pode a quem pode romper o plano e reinar sobre a exuberante floresta das baixas encostas. É tudo impressionante. Uma natureza inteira, pura, quase mística.

Agudo da Cutia fotografado a partir do Agudo Lontra. Foto: Marcelo L. Brotto
Agudo da Cutia fotografado a partir do Agudo Lontra.

       A muito sonhava com este dia. Estar ali frente a frente com o lendário Cutia foi inesquecível. Estar a "um palmo" da montanha que esta longe de tudo trouxe paz para nossa inquieta alma montanhista.

       Retornamos do alto do Lontra com a sensação do dever cumprido. Nos separamos à uma hora do Cutia, quando Emerson e Giancarlo tomaram o rumo sul para São João da Graciosa. O restante do grupo seguiu o rastro da trilha pela encosta oeste, chagando ao topo por volta das duas da tarde.

       A primeira tarefa foi encontrar um mirante com vista para o Ciririca. Sem muito esforço encontramos uma pedra digna de um camarote cinco estrelas. Tentarei descrever a paisagem, se bem que as fotos falam por si.

       Tínhamos sob nossos pés a Agulhinha da Cutia e o fundo do vale que nos separa do Lontra. O Pico Paraná e o Ciririca sombrios pelo contra-luz, lançando suas cristas ao nascente. Um relevo agressivo a nossa plana mente cartesiana. À leste a baía de Antonina e sua planície sob a sombra de poucas nuvens. Tão poucas quanto as cicatrizes na paisagem. De resto, tudo mais coberto pela mais bela das artes, a floresta.

       Após algum tempo apreciando essa vista fomos ao outro lado, onde novamente encontramos uma pedra "5 estrelas". Também ali o Cutia desaparecia sob nossos pés. A oeste o Agudo Cuíca com seu paredão igualmente vertical. Atrás do Cuíca o Coxotós, o Araponga, além a Serra da Graciosa e sobre tudo, entre aquelas montanhas, a Floresta Atlântica como não se vê em outro lugar do Brasil. Floresta não é mata. Esta é simplista, a floresta é infinita e incompreensível. E pensar que no meio daquele manto verde estavam Giancarlo e Emerson rumo a São João da Graciosa.

       Enfim, basicamente é isto que se vê do alto dos seus 1.384 metros. Certamente não é a maior das montanhas, entretanto, empinada para o alto como uma cutia que olha para o céu, arrisco a dizer que estar em seu cume é como sobrevoar o sertão e se há um lugar que ainda faz jus ser chamado assim, esse é o lugar.

Foto: Marcelo Brotto Foto: Marcelo Brotto Foto: Marcelo Brotto

       Evidente que essa história não acaba aqui. Faltava o retorno, indigesto retorno. Só quem já teve o privilégio de ver a imagem da singela trilha desafiando a face sul do Ciririca sabe do que estou falando. É como um dever a cumprir de que não se pode escapar.

       Então, lá fomos nós, durante 2h40min cumprindo com nossa obrigação. Chagando ao alto do Ciririca a única tarefa que nos sobrava era descansar para o longo retorno do dia seguinte. Antes disso, entretanto, enquanto o crepúsculo ainda me permitia escrever algo no caderno de cume, lembro de ter escrito ao lado de 'Lontra e Cutia' a seguinte palavra que sintetiza as duas primeiras: 'Sublime'.

       O feriado do dia do trabalhador começou com ameaça de chuva, mas que não passou disso, pois São Pedro não parecia estar disposto a trabalhar num dia de descanso. O retorno, como sempre longo e traumático. Voltar a cidade, essa verdadeira bomba onde vivemos não é das coisas mais agradáveis, principalmente depois de um fim de semana dos sonhos. Lógico que nem tudo é tristeza. Ter na lembrança as paisagens que vivenciamos, mesmo que por poucas horas, já é uma grande coisa. Saber para onde fugir quando a realidade apertar é uma dádiva própria de quem paga inteira para ir ao sertão.

       Deixo aqui a saudação aos colegas que nunca se reúnem, mas que se por acaso se encontrarem para uma caminhada serrana, certamente estarão no Ciririca. Giancarlo, Emerson, Adriano, Daiana e Rafael.








i


v


i


t


u


r


u


i