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Iviturui Subtropical

Texto e fotos por Marcelo L. Brotto
Publicado em 10 de julho de 2007

       O plano era o Ferraria. Por isso passei a semana imaginando o conjunto Ibiteruçu e toda a paisagem de bairro alto e adjacências. Em minha mente recriava a paisagem de outrora, banhada de luz, sob um céu azul impecável. Mas, como diz o ditado, não se deve contar com o ovo dentro da galinha.

       Tanto é que, quando eu e meus companheiros do Clube Paranaense de Montanhismo chegamos ao pé do Caratuva, nos deparamos com um panorama climático desfavorável. Pesadas nuvens varriam impiedosamente o cume desta e das montanhas ao redor. Não víamos o Taipabuçu, quanto mais o Ferraria. Diante da situação decidimos acampar na entrada da floresta. Dali poderíamos fazer um "ataque" sem a obrigação de pernoitar no topo, evitando o mau tempo, afinal de contas, estávamos sob influência de duas frentes frias.

       Levantado acampamento, eu, Dulce, Lourdes, Camila e Alysson, tomamos o rumo do Taipabuçu, enquanto o restante do pessoal ou foi buscar água ou ficou por ali mesmo.

       Aportamos no cume, totalmente imerso na neblina, após percorrer a nova trilha aberta em 2001. Com um raio de visão limitado só nos restou lanchar, papear e tirar algumas fotos. Uma hora depois retornamos ao campo base. Lá, enquanto escurecia e esfriava, nos esquentamos com “choconhaque” e um rodízio de sopas que entrou pra história.

       As 19:30h a lua cheia surgiu por detrás do Caratuva, junto com um punhado de estrelas e nuvens que insistiam em cruzar a grande barreira na direção contrária da massa polar continental. Somado a temperatura que já era de apenas 3ºC positivo, aumentava significativamente a chance de nevar. Pra isso acontecer, bastava a temperatura cair a menos de zero e a nebulosidade aumentar de densidade a ponto de garoa. Fui dormir com a esperança de ver a Serra verde coberta de branco.

       Como a esperança é a última que congela, as 7:30h da manhã ao acordar, abri a porta da barraca pra conferir como estava o dia. Deparei-me com gelo sobre a lona. – Aí, Zé Luis. Está tudo congelado aqui fora! – disse, embora isso não tenha surpreendido meu companheiro de abrigo. Então, fechei e voltei a me deitar. Ficamos papeando por uns 20 minutos até me animar a sair pra fazer um café. Pois bem, me vesti, saí e no que olho para o Itapiroca, vejo a copa das árvores brancas. Quase não acreditei! Nisso, uma nuvem passou e o encobriu, e logo voltou a abrir. Olhei de novo e não tive dúvida, ele estava branco.

       Meus colegas, entretanto, olhavam e diziam que não era nada de mais. Ou não tinham acordado direito ou estavam com preguiça de ir lá conferir. Sem esperar que mais alguém tivesse certeza de que sim ou que não, peguei minha câmera fotográfica, coloquei-a na mochila e parti junto com o Alysson rumo ao Itapiroca.

       Na trilha, uma situação curiosa. Os passarinhos estavam todos no chão da floresta. Inclusive um bando de tirivas que só levantou vôo quando cheguei perto. Também, não era pra menos. A copa das árvores estava congelada.

       Na bifurcação pro Pico do Paraná tive a confirmação. O Itapiroca estava coberto de gelo. Bati uma foto dali mesmo. Assim começou o rolo de filme que entrará pra história. Pra minha, pelo menos!

       Seguimos a trilha e quando chegamos ao campo, a surpresa. Era muito gelo! Tudo branco, brilhante como cristal! Um sonho de anos estava acontecendo, ali, aos meus olhos e ao meu toque. Sempre soube que era raro, mas naquele instante era real. E, antes que meus dedos congelassem, bati muitas fotos. Registrei de tudo um pouco. Detalhes do gelo nos arbustos, nas caratuvas, no campo, sobre o cume e na caixinha de registros, sobre a trilha, sobre a rocha, enfim, tudo que me parecesse belo. Era como se tivessem colocado o Itapiroca no freezer.
Foto 1 foto 2 foto 3 foto 4 foto 5 foto 6

       Um corajoso que estava acampado ali me garantiu que fizera -3ºC dentro da barraca. É possível que fora estivesse -8ºC, sem contar o vento que vinha da direção do Pico do Paraná. Infelizmente havia muita nebulosidade para aquele lado e não foi possível saber se lá o panorama era o mesmo. Víamos apenas o Caratuva, com sua face sudeste igualmente branca, inclusive a antena do cume.

       Não há como descrever melhor o que vi e senti. Apenas as fotos podem dar uma noção da beleza da paisagem. Uma montanha de cristal. Talvez essa seja a melhor definição. Inclusive, deixo minha reverência a vegetação alto montana. Esse punhado de espécies que entra ano sai ano, ou melhor, que atravessa glaciação e inter-glaciação vivendo no lugar mais áspero do Paraná, a cumeada da Serra do Mar.

       Haja resistência! Que o diga nossa querida Chusquea pinifolia, a caratuva, ou então o Ilex dumosa, da família da erva-mate. Plantas acostumadas à chuva orográfica e, de vez em quando, uma geada orográfica.

       Que aquecimento global, que nada! Antes de ir embora guardei uma amostra do gelo pros colegas que ficaram na base. Algo como um picolé sabor nuvem.

       Enfim, não há mais o que dizer. Estou de alma lavada, ou seria congelada?! Um dia que jamais esquecerei e mais um sonho que perdi. E se der branco? Bom, antes que o sol volte a capricórnio, fazendo parecer que minha terra não é subtropical, me permita congelar a cena!

       Aos meus colegas: Ronaldo, Alfredo, José Luiz, Thiago, Pollyana, Camila, Lourdes, Dulci e Alysson.


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