Mares e Montanhas
|

Janeiro de 2.003. Mês com muita chuva e tempo encoberto aqui no primeiro planalto paranaense, prejudicando as atividades ecoturísticas nas regiões serranas próximas. Assim para fugir deste clima fechado, surge a opção de uma viagem para o litoral, mais precisamente o litoral de Santa Catarina, sob as bênçãos do astro-rei.
Após um prévio planejamento do roteiro e dos detalhes técnicos para a empreitada, marcamos a data da partida, ajuntamos os apetrechos e zarpamos.
Capítulo 1 - Praia do Rosa
Ao se chegar na praia, vendo-se o colorido de suas areias logo se descobre o motivo do seu nome. Ao norte da praia, de penhascos
e encostas ajardinadas com bromélias e flores rasteiras multicoloridas, pode-se ter uma visão panorâmica de toda a extensão de areia, onde banhistas se divertem nas águas do Atlântico. Após o banho de mar, um relaxamento numa lagoa de águas mornas, vizinha à praia, é a opção para encerrar o dia antes de voltar para o camping.
Mansões de vários estilos e para vários gostos, encravadas entre as matas remanescentes nas encostas, guardam para si uma visão privilegiada do litoral fantástico que se descortina abaixo, onde acontece o espetáculo interminável em que os personagens (o mar, a praia, as rochas, as gaivotas) nunca se cansam de encenar.
Capítulo 2 - Praia do Silveira
Partimos cedo do camping onde estávamos na Praia do Rosa. Nosso destino: Garopaba. Antes de chegarmos à cidade, onde faríamos base, decidimos conhecer a Praia do Silveira, que ficava no meio do caminho a uma certa distância do centro de Garopaba, e seria inviável voltar para conhecê-la, devido ao tempo "cronometrado" que tínhamos que administrar para poder conhecer todos os pontos que planejamos para esta expedição. Após nos informarmos com moradores locais sobre o caminho, saímos da via principal e pegamos uma estrada de terra com uma subida não muito animadora, mas para nossa recompensa, no topo desta subida tivemos uma surpreendente visão se revelando diante de nós. Podíamos ver uma grande parte da praia banhada por um mar caribenho que nos acompanhou durante toda a nossa jornada. Companheiro este, vestido de um tom azul-esverdeado
indescritível.
Capítulo 3 - Garopaba
Cidade movimentada para o seu tamanho. Ponto de observação da baleia Franca, avistada normalmente nos meses de inverno e primavera onde se concentram para reprodução. Com sua igreja histórica assentada num local estratégico com uma bela vista para o litoral, e suas mansões
"hollywoodianas", privilegiadamente localizadas ao sul da cidade, nas encostas gramadas próximas ao mar.
Capítulo 4 - Guarda do Embaú
Cidade com uma praia especial, apresentando o encontro da foz
de um rio com as águas do mar, compondo um cenário raro. Trilhas contornando os morros
com visões panorâmicas do mar, alternando entre encostas rochosas
com pedras
esculpidas em diferentes formas, remanescentes de matas e vegetações rasteiras compostas por gramados e plantas nativas ornamentais e floríferas
formando um belo jardim natural.
Capítulo 5 - Floripa
-Praia da Lagoinha Leste
Uma trilha saindo bem diante da pousada onde estávamos hospedados, subindo por um morro até o ponto mais alto, onde há um mirante instalado para se apreciar a vista do mar e da praia selvagem (ou quase isso) logo abaixo, com areia muito macia, preservada pela dificuldade de acesso até ela. Escondida atrás de uma faixa de duna e outra faixa de vegetação: a lagoa, origem do nome da praia, com seu formato alongado e suas águas inertes ficava ali indiferente ao mar agitado, vivendo a eternidade do momento presente.
-Trilha Praia do Saquinho-Praia da Caieira
Para quem gosta de trilha, não dá para resistir à tentação de conhecer a trilha que liga a Praia do Saquinho até a Praia da Caieira, atravessando uma área de vegetação no extremo sul da Ilha. Um longo trecho com uma trilha totalmente cimentada unia a Praia da Solidão com a Praia do Saquinho. A trilha subia até atingir um mirante de onde podíamos avistar uma longa faixa da Praia do Pântano Sul e do outro lado a Praia do Saquinho, escondida numa pequena baia envolvida com um manto verde de um trecho remanescente de Mata Atlântica. Lá estava a praia com suas milhares de pedras esparramadas, ocupando grande parte da areia. Um bom lugar para quem foge de praias convencionais e que gosta de sossego. Muito sossego!
Cruzando por pequenos regatos e cachoeiras com águas refrescantes, agora já não mais cimentada, a trilha começava a subir por uma colina até atingir, no seu topo, uma pastagem de onde se podia vislumbrar ilhas ao longo do mar. Mais precisamente 3 ilhas, as Ilhas das Três Irmãs.
O calor abafado daquele dia, mais o cansaço do longo trecho ascendente de trilha percorrido começavam a mostrar seus resultados em nós. Para completar após o topo não havia mais uma trilha demarcada e sim um pasto ocupado por um pequeno rebanho bovino que fazia seu "lanchinho" despreocupadamente até a nossa chegada, pois agora pareciam um pouco incomodados com a nossa presença.
Após um trecho de trilha abandonada, encoberta pela vegetação, onde após várias tentativas, finalmente reencontramos o "fio da meada" e retomamos a trilha certa. Descemos uma colina, até que finalmente, para a nossa satisfação, diante de nós se descortinou a Baía Sul com a Praia da Caieira "bem abaixo de nossos pés".
Já que estávamos no extremo sul da Ilha, aproveitamos para ir até a Praia dos Naufragados, ponto mais extremo da Ilha de Santa Catarina, com seu farol inativado e abandonado a sua própria sorte, servindo de mirante para quem se atrever a aventurar na subida de sua apertada escada caracol. Para aqueles que se derem a este trabalho, serão recompensados com uma vista panorâmica do litoral sul da Ilha, destacando bem diante dos espectadores a ilha onde fica a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição.
-Centro e Norte da Ilha de Santa Catarina
O dia de nossa mudança de base para o norte da Ilha amanheceu nublado. Após uma rápida passagem pela Praia da Armação, com sua mística paisagem composta por um pequeno promontório pipocado por formações rochosas, esculpidas pelo mar (um jardim de pedras banhado por um mar vigoroso), seguimos rumo norte.
Um dia nublado e chuvoso não permite banho de mar sem se tomar um banho de chuva também. Assim, decidimos que o melhor para este dia seria um "banho de cultura", começando com o Campus da U.F.S.C., visitando o Centro de Estudos Antropológicos onde pudemos obter informações sobre a vida de povos primitivos que viveram naquela região, informações estas que iríamos complementar com uma experiência prática nos próximos dias. E para encerrar o dia cultural, visitamos, no norte da Ilha, a Fortaleza
de São José da Ponta Grossa, com sua arquitetura portuguesa, guarnecido com canhões
do séc. XVIII, que ainda continuam apontando para o mar. Quem sabe a espera de algum galeão espanhol fantasma, ávido por saquear as riquezas do povoado português que se instalou no lado ocidental da Ilha nos tempos idos.
-Praia do Santinho
Cá estamos no norte da Ilha, com suas praias movimentadas, algumas, verdadeiras cidades independentes com comércio e vida próprios, banhadas por um mar de um azul indescritível. Mas, indo mais para o leste, gradualmente a movimentação de pessoas começa a diminuir e também diminui o número de habitações. Lá neste "cantinho" do norte da Ilha fica uma praia
que esconde segredos de décadas, séculos, milênios atrás. Quem sabe como seria este local e quem ali habitava. Porém algumas pistas foram deixadas para os atuais habitantes que observarem detalhadamente as rochas
dos penhascos próximos ao mar.
Capítulo 6 - Bombinhas
Bombinhas,
ponto de despedida da expedição. Última parada, mas uma verdadeira "chave de ouro" para fechar esta viagem. Quantas pessoas tiveram o prazer de poder apreciar um belo visual do mar sem precisar sair de suas barracas? Pois nós tivemos este privilégio: assistir a um cenário deslumbrante, sem precisar sair de dentro de nossas barracas, armadas a poucos metros da arrebentação. 
Através de suas águas transparentes, verdadeiro paraíso para os praticantes de mergulho, podia-se ver os detalhes do fundo do mar, incluindo os cardumes de peixes coloridos que desfilavam agrupados, num balé sincronizado.
Onde os quatro elementos básicos da natureza, o céu (ar), o mar (água), o sol (fogo) e as rochas e costões (terra), em suas formas mais intensas se encontram, não poderia resultar em outra coisa senão no fantástico espetáculo que pudemos presenciar ao longo desta aventura.
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
O tempo parece parar quando, em companhia de uma pequena platéia de gaivotas, sentamos nos costões rochosos para observar a dança incansável das ondas de um mar colorido pelo entardecer, chocando-se contra as pedras. Imagem gravada na alma, para se levar como lembrança desta viagem.
por Evandro Andrade Leite
Curitiba, 29 de junho de 2003