Mares e Montanhas
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Um bom dia de folga começa as 7:30 h da manhã. Cedo demais pra acordar? Nem tanto quando se está em um lugar tão agradável quanto um Patrimônio da Humanidade. Um cantão cercado por florestas, rios, cachoeiras e muita vida silvestre. Este lugar se chama Reserva Natural Salto Morato e foi de lá que parti para uma caminhada que me levou a belas paisagens e novos horizontes. O roteiro escolhido para este dia incluiu as trilhas da Reserva e uma visita ao Morro do Bronze em Guaraqueçaba, município do litoral norte paranaense.
Pra quem não sabe, Guarakessaba, na língua dos indígenas que já viveram aqui, significa 'pouso do guará' ou 'ninho de guará'. Infelizmente apenas o nome resistiu ao tempo. Tanto os índios quanto as aves foram extintos da região.
Um passeio pela RNSM
Não canso de dizer que é impossível imaginar o que vai acontecer daqui a poucos minutos. Quem dirá até o dia terminar. É por isso que sempre tenho um plano B quando vou a algum lugar desconhecido. Ao final desse relato você vai compreender melhor o que estou querendo dizer.
Tudo precipitou após o café da manhã. Com minha câmera fotográfica e tripé parti rumo a famosa figueira do rio do Engenho. Esta é uma das principais atrações da Reserva. Trata-se de uma árvore que lançou sua raiz sobre os seis metros de largura do rio do Engenho formando uma inusitada ponte natural. Obra da natureza que impressiona pela quantidade de vida que sustenta sobre seus ramos. A outra grande atração é o próprio Salto Morato, fotogênico em todos os seus 100 metros de queda. 

Da figueira sigo por uma trilha que atravessa a encosta de um morro. Ali observo a Floresta Ombrófila Densa Sub-Montana. Uma característica dessa formação do bioma Floresta Atlântica é a grande quantidade de lianas e bromélias pendurados às árvores. Jovens palmeiras também chamam a atenção. Dentre as árvores que mais se destacam está o Pau-alazão, característico por seu tronco vermelho-alaranjado e também o Caovi, uma das mais altas da Floresta Atlântica.

Sigo em frente e só paro no aquário natural do rio Morato, onde um mergulho entre os lambaris é mais do que obrigação, principalmente quando se está de folga! Depois do banho volto ao alojamento, pego a mochila com as duas câmeras fotográficas, lanche, água e corro pra não perder o ônibus que vai a Guaraqueçaba. Chegando lá vou ao encontro de Gustavo, estudante de turismo, que estivera dois dias antes na Reserva, e com quem combinei de subir junto o Morro do Bronze.
Um bronze no Bronze
O sol estava de tostar a cuca. Definitivamente um verão como todo mundo gosta. E pra aproveitar esse bom tempo lá fomos nós pela estrada de terra rumo leste. Durante a aproximação fotografamos a face ocidental do morro com suas características paredes cor de...bronze, lógico (nada que uma boa doze de imaginação não resolva)!

Depois de uma hora a estrada terminou inusitadamente no fundo de uma baia. Dali, segundo orientações do antigo proprietário da área, deveríamos seguir à direita passando por uma casinha que estava fechada e continuando por uma trilha que margeava a borda do mangue. Mais a frente encontramos outra casinha igualmente fechada. No fundo do terreno em meio ao bananal havia um canil que mais parecia uma jaula, então disse ao Gustavo: "Aqui em vez de cachorro tem uma onça pra cuidar da casa, mas parece que ela ta solta. Daqui um pouco ela ataca a gente!".
Fomos em frente até chegar a um porto de canoas. Do outro lado da baia pudemos ver casas de pescadores. Fiquei impressionado com a beleza e tranqüilidade do lugar. Uma combinação de ambientes muito diferente do que a maioria dos montanhistas paranaenses está acostumada a ver. Baia, manguezal, floresta de planície, formações incrivelmente bem conservadas.
Após vasculhar o local encontramos um rastro que subia paralelamente a um riacho. Seguimos por ele e abastecemos os cantis. Dali em diante não tivemos grande dificuldade, digo, quase não tivemos. Em um ponto da trilha nos deparamos com uma confusão de formigas. O Gustavo ao passar correndo por um tronco que servia de ponte sobre um buraco acabou levando a pior. A madeira estava podre e ele foi parar no fundo do buraco junto com as formigas. Felizmente ele conseguiu se safar dessa.
Continuamos subindo, passamos ao lado de uma grande rocha e logo depois por um descomunal Guapuruvu, árvore de madeira leve utilizada para fazer canoas. Tal era a altura do gigante que acabei exclamando: "Olha só, essa árvore da pra fazer não só uma, mas duas canoas!".
Mais a frente fomos barrados por uma outra armadilha, esta realmente perigosa. Nada mais nada menos do que duas jararacas camufladas sobre o folhiço. Curiosamente elas tinham tonalidades e tamanhos diferentes. Uma tendendo mais para o tom palha e a outra para o marrom avermelhado. Sem incomoda-las prosseguimos na subida até encontrar a primeira janela com visual para as ilhas. E que visual! Sem dúvida um dos panoramas mais privilegiados de Guaraqueçaba.

Ilhas cobertas de verde e recortadas por canais de azul profundo. Uma luz mágica! Que tarde maravilhosa!!! Na linha da praia de Superagüí conseguimos ver com nitidez o brilho branco das ondas da arrebentação, enquanto que a ilha das Peças era recoberta por uma floresta glamurosa. Um verdadeiro espetáculo de luzes e cores. Uma paisagem que por si só justificaria sua vocação para conservação da natureza.
Eu já tinha visto algumas fotos tiradas desse morro, mas não pensava que fosse tão lindo assim. De fato a experiência pessoal nunca se compara com qualquer tipo de foto, filme ou mesmo um relato como este. Nada vale mais do que sentir o vento batendo no rosto e a certeza de ter chegado ali pelo seu próprio esforço.
Continuamos subindo até galgar o cume, exatos 338 metros acima do nível do mar. Foi então que constatamos que para tirar mais fotos precisaríamos subir nas árvores visto que ele era coberto por floresta. E foi isso mesmo que fizemos. Primeiro fotografamos o quadrante sul com a ilha das Peças e ilha do Mel, depois a cidade de Guaraqueçaba no quadrante oeste e por último a Serra da Utinga e Salto Morato no quadrante noroeste. 


Perguntei pro Gustavo que horas eram. Ele respondeu: "cinco horas". Exatamente quando o último ônibus partia de Guaraqueçaba. Automaticamente meu plano B entrava em prática, ou seja, eu teria que arranjar um outro meio de retornar a Reserva cerca de 18 km distante dali. Então começamos a descer sem pressa. Chegamos no pé do morro, pegamos a estradinha e nos despedimos na encruzilhada Guaraqueçaba-Antonina.
A essa altura já estava escuro, mas isso não seria problema, pois a lua cheia também fazia parte do plano bem como uma carona providencial (infelizmente apenas a primeira parte deu certo!). Quanto a distância eu sabia que iria conseguir vencer mesmo com as pernas já bastante cansadas.
Em um determinado ponto da estrada cruzei com uma Bandeirantes da Polícia Civil. Eles me perguntaram se eu não tinha medo de caminhar sozinho por ali e disse que não. Afinal de contas, medo de animal selvagem eu não tenho, ainda mais hoje em dia que mamíferos como a onça-pintada e o puma são tão raros.
Segui caminhando. De vez em quando parava pra descansar, sentando bem no meio da estrada em vez de sentar na beira, lógico! Eu disse que os felinos são raros, mas, é bom não dar sorte pro azar!!
A noite estava maravilhosa. Acompanhei a Serra da Utinga por um bom trecho. Enquanto prosseguia ouvi dois tiros ecoarem na mata. Mais a frente, em um trecho de reta, ouvi uivos ao longe. Imaginei: 'É hoje que vou ser comido! Deve ser uma matilha de cachorros do mato se preparando pra me atacar (biólogos, não levem em conta a minha ignorância quanto ao hábito desses animais!). Quando cheguei perto (ia segurando pedras na mão) me deparei com três vira-latas na primeira casa que apareceu. Pensei: 'como eu sou ridículo', ou então, 'não era eu que não tinha medo dos bichos da floresta?'. Enfim, nada de mais aconteceu.
Parei pra descansar na ponte sobre o rio Guaraqueçaba. Sabia que faltava pouco e que o pior já havia passado. Então olhei para o vulto da Serra Gigante e me permiti sonhar um pouco com o dia em que eu estiver lá. Afinal de contas, são os sonhos que alimentam essa vontade quase incontrolável de conhecer novos lugares e entrar em novas "roubadas". Definitivamente a vida de um montanhista pressupõe isto para ser considerada completa.
Já descansado, me levantei e fui embora.
por Marcelo Brotto
Curitiba, 04 de abril de 2005
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