Mares e Montanhas
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Já é tempo de se atentar nestas preciosas matas, nestas amenas selvas que o cultivador do Brasil, com o machado em uma mão e o tição em outra, ameaça-as de total incêndio e desolação. Uma agricultura bárbara, ao mesmo tempo muito dispendiosa, tem sido a causa deste geral abrasamento. O agricultor olha ao redor de si para duas ou mais léguas de matas como para um nada, e ainda não as tem bem reduzido a cinzas já estende ao longe a vista para a destruição a outras partes. Não conserva apego nem amor ao território que cultiva, pois conhece mui bem que ele talvez não chegará a seus filhos.
José Vieira Couto, 1799
Olho acima da capoeira para os morros que me cercam. Uns são cobertos de matas virgens e densas. Outros parecem ter sido saqueados de seus melhores paus. Ainda assim a natureza mostra toda a sua graça. Tucanos e gralhas azuis voam sem cerimônia, fazendo esquecer o mal que avança sobre a floresta como um câncer. Mas a natureza é forte e com certeza não tem interesse em se render frente a mãos calejadas. Recuperar o que se perdeu é fundamental e isso ela faz como ninguém.
Este ar puro e quente lembra que não estou em casa. O murmurar das águas e o canto dos pássaros me questionam. Por que este pedaço da Floresta Atlântica escapou do ferro e do fogo que arruinou os bosques brasileiros? Esta definitivamente não é uma resposta fácil.
Estou em Guaraqueçaba, município do litoral norte paranaense, mais precisamente na Reserva Natural Salto Morato, um lugar que tem garantia de conservação pela Fundação O Boticário de Proteção à Natureza e que foi declarado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
Mas isso não parece ter sensibilizado nosso governo. Aqui ainda impera o antigo embate: comunidades tradicionais versus IBAMA¹; populações carentes de propostas e fartas de proibições; a velha tensão de forças entre a ordem e o progresso; a Reserva como uma ilha de acertos em meio a um mar de abandono chamado APA de Guaraqueçaba. E no meio de tudo isso está a floresta e seus naturais habitantes.
Aquela agricultura bárbara ilustrada por José Vieira Couto ainda no século XVIII parece percorrer o tempo, contaminando nossa tradição como uma doença e expandindo seu destino a Guaraqueçaba. Aqui, pastos abandonados e falta de perspectivas para os filhos dessa gente parecem comprovar o inevitável. Não há apego nem amor ao território onde se cultiva. Assim tanto faz ter a floresta de pé ou no chão, se tendo comida na mesa é o que basta, mesmo que ela seja de caça.
Qual será o destino da última área de grande extensão da Floresta Atlântica? Será que expulsar essa gente daqui é o melhor que podemos fazer? Renunciaremos então a tentar aprender a viver em meio às matas? Felizmente há quem pense o contrário. Alguns profissionais² já dedicam seu tempo a novas oportunidades de trabalhar a terra. Mas isso é apenas um começo. Ainda virá o dia em que essa essas mãos acostumadas à destruição serão amansadas. E quem sabe seus filhos criem raízes e passem a amar esse lugar assim como os povos índios que aqui viveram por milênios.
Devemos, então, esquecer essa horrenda tradição. As matas não são reduto inculto de monstros e feras e muito menos uma barreira ao desenvolvimento. O grande problema é que esquecemos quem somos. Eu lhe digo quem somos. Somos brasileiros e ainda não aprendemos a viver nessa terra. Além da ordem e do progresso nossa bandeira traz o verde imenso das florestas e isto é algo que não poderemos renunciar jamais.
por Marcelo Brotto
Curitiba, 04 de abril de 2005

| http://earth.jsc.nasa.gov/sseop/efs/missions/STS091/thum/STS091-729-54.JPG |
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