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Encantos e desencantos na Ilha do Mel


Pontinha, lado Oeste do Morro Bento Alves, Ilha do Mel. Foto: Marcelo Brotto
Encantos e desencantos na Ilha do Mel

Texto e fotos por Marcelo L. Brotto
Publicado em 27 de dezembro de 2009

       O Morro Bento Alves estava lá muito antes da Ilha do Mel ganhar seu nome, já nas primeiras décadas de 1500, ou antes mesmo da ilha ser ilha, o que só acorreu graças ao presente período climático interglacial, mais conhecido como aquecimento global. Mas não é sobre a gênese da ilha nem sobre o paleoclima que trata esse texto. É sobre como a Ilha do Mel perdeu seu encanto e conservou sua beleza, e como se faz para subir o Morro Bento Alves, seu ponto mais elevado.

       A Ilha do Mel localiza-se na entrada do estuário de Paranaguá entre Pontal do Sul e Ilha das Peças e é o ponto mais distante das montanhas da Serra do Mar no litoral paranaense. Ainda assim é possível avistar a imponente Serra da Prata e todo o arco de serras que se curvam ao Norte. Seu ponto mais alto é o Morro Bento Alves com aproximadamente 130 metros acima do nível do mar, nas coordenadas 25º33’52” Sul e 48º18’37” Oeste. É dele que verte a água que abastece toda a vila de Encantadas.

       A Ilha do Mel aparece com esse nome já nos primeiros mapas produzidos sobre o estuário ao Sul de Cananéia, junto com as ilhas das Peças e Superagüí e a vila de Paranaguá. São nomes muito antigos, assim como é antiga a ocupação humana nessa terra, seja por parte dos europeus ou dos Carijós. Já no século XX, os pescadores da ilha começaram timidamente a lotear suas terras, que na época valiam preço de banana. Foi então que meus tios Arliete e Joel adquiriram um terreno na vila de Encantadas, o qual foi base para minhas explorações desde a infância. Mas, ainda faltava uma. Subir o Morro Bento Alves e conferir como é a ilha vista lá de cima.

        Pra isso juntei na mochila água, binóculos, facão e máquina fotográfica. Calculei uma caminhada de cinqüenta minutos e parti pelos fundos do terreno da vizinha de minha tia, que me pediu para verificar uma tal figueira muito grande que deveria existir por ali. Comecei a subida e logo encontrei a árvore . Não era das maiores que eu já tinha visto, mas era bonito ver como ela lançou suas raízes sobre uma grande rocha. No chão estavam os pequenos figos que devem ser um manjar para a fauna .

       No início a inclinação do terreno era acentuada e eu caminhava com toda atenção pra não pisar numa cobra, que é bicho comum nos morros do litoral. Depois de uns vinte minutos a inclinação diminuiu. Percebi que estava no alto de um “ombro” que fazia ligação direta com o cume. A vegetação arbórea não era exuberante e tampouco dificultava a caminhada. Logo adiante encontrei um rastro de trilha que subia à esquerda. Segui esse rastro que logo confirmou o que já imaginava, era a trilha que levava ao cume. Adiante a inclinação aumentou a floresta ganhou porte. Pude então ouvir o som que vinha do mar de fora, das ondas e das pessoas conversando na praia. Logo cheguei ao ponto culminante que na verdade representava uma longa cumeada no sentido Leste-Oeste. Tinha gasto cinqüenta minutos nessa caminhada e para ver alguma coisa foi preciso subir numa árvore de uns 6 metros de altura. Fiz isso e fui recompensado por um vista encantadora sobre Encantadas (Figura 1)!

Encantadas, Ilha do Mel.
Figura 1: Encantadas vista do Morro Bento Alves.

       Com o ponto de vista bem elevado tudo lá em baixo ficou parecendo parte de uma maquete, a agitação dos turistas, os barcos que iam e vinham, as casas. De uma maneira que ainda não tinha experimentado a Ilha do Mel me encantou, pela beleza de sua natureza e tudo o que a cerca, com destaque para o mar de dentro, de fora, o lanço do campo, o farol novo, a Ilha da Galheta, o morro da gruta, Pontal, etc. Figura 2 , figura 3 , figura 4 , figura 5 , figura 6 , figura 7 , figura 8 , figura 9 .

       Para ter uma visão do lado Norte tive que subir em outra árvore. Pude ver o farol, o Morro da Baleia onde fica o forte, o ístimo que quase dividiu a ilha, a Ilha das Palmas, a vila de Nova Brasília e a grande planície protegida pela Estação Ecológica. Uma paisagem igualmente encantadora! Figura 10 , figura 11 .

       Na mesma viajem fui conhecer outro lugar que nunca tinha estado, a ponta Nhá-pina. Como fazia dez anos que não pisava em Encantadas me surpreendi com a faixa de areia que se formou no mar de fora e que se ligava a Nhá-pina. Antigamente não havia muita areia nesse trecho e quem quisesse passar por ali teria de esperar a maré baixa, ou ir pulando sobre as pedras. Tia Arliete me contou que quando eles chegaram na ilha havia uma mulher que morou no mar de fora e que ela teria dito que ali existia uma campina. Meus tios, na época, não conseguiram imaginar como poderia ter existido uma campina ali, pois o mar chagava até o início da restinga arbórea e tudo era areia. Dessa vez lá estava ela, uma vegetação herbácea, pioneira de dunas que tomou o lugar que antes era mar, provando que restinga não é lugar pra edificar moradia, seja de rico ou de pobre.

       Agora, sem dificuldade nenhuma cheguei a Nhá-pina , um costão coberto por uma bromélia do gênero Dickia de flor amarela, muito bonita. Lá em cima um cruzeiro e uma capelinha que abriga uma santa. A vista dali é privilegiada. À esquerda se vê o mar de fora e a nova faixa de areia, o Morro da Gruta e o Bento Alves , à direita se vê a praia do Miguel e a Grande, o Farol e atrás algumas serras de Guaraqueçaba. Atrás da praia Grande surge a Serra do Morato e a Serra da Utinga . Bem atrás do farol se vê a Serra Gigante .

       Bela Ilha do Mel! Tudo que é natural tem sua beleza, mas com o tempo o encanto dessa ilha se perdeu. A saudade é do tempo que a ilha era um lugar distante da civilização. Coisas pequenas tinham o seu valor, como quando não havia trapiche. Molhar o pé ao desembarcar na ilha era como uma benção para quem deixava o urbano para viver alguns dias na natureza. Como por exemplo, a ausência de energia elétrica. Sair à noite, só com a luz do luar, fazer um arrastão no mar de dentro pra ver o que o vinha na rede, passear pelas praias desertas e talvez ouvir o canto de uma sereia na gruta . Na época era preciso respeitar a maré baixa pra entrar nela, aí veio o Homem, dinamitou as pedras e construiu um trapiche calando para sempre o canto das sereias.

       Era na gruta que eu ia coletar marisco com minha tia, e também na praia da bóia. Como eu era criança me chamava atenção aquela bóia. Tentava imaginar como havia parado ali. Na época não tinha idéia da força do mar. Qualquer descuido com a maré enchente e a coleta de marisco iria acabar mal. Foi por ali também que pegamos siri guaiá, o coisa deliciosa!

       O mar de fora era lugar sem estrutura alguma, uma legítima praia deserta além da restinga, aí veio o Homem e colocou a restinga em baixo da praça de alimentação. Hoje não há o que falte na ilha, até churrascaria já existe. Foi-se o tempo que a melhor festa era o forró dos nativos, agora somos obrigados a ouvir a porcaria do funk até de manhã. Feliz de quem ouviu Djambi nas areias da ilha.

       Mas acho que o melhor era o contato com os pescadores. Era outra visão do mundo, outro modo de vida, não que fosse melhor ou pior, era apenas diferente. Pois bem, era uma vez uma ilha encantada e encantadora, hoje um lugar comum como qualquer outro. O aquecimento global separou a ilha do continente e o Homem a uniu novamente. Mas continua bela, disso não há dúvida!

Lanço do Campo, Ilha do Mel.
Figura 12: Lanço do Campo, Ilha do Mel.


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