Serra da Mantiqueira
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Por André Ribeiro
28 de agosto de 2002
O mal é antigo...o homem fez-se uma componente nefasta entre as forças daquele clima demolidor...deu um auxiliar a degradação das tormentas...um supletivo à insolação, a queimada...fez, talvez, o deserto...mas pode extigui-lo ainda, corrigindo o passado. (Euclides da Cunha, Os Sertões)
"Não passarei aqui" - foi a última coisa que disse antes de olhar o improvável obstáculo à minha frente. Mas passei. Não só passei aquele, como também os próximos que estavam por vir.
Assim é o Agulhas Negras.
Uma sucessão aparentemente intransponível de barreiras a superar. Olhando de baixo, impõe-se pela grandiosidade de suas formas marcadas por vincos e canaletas minuciosamente esculpidas pelo tempo.
Aquele dia começara como os dois anteriores. Inundado de sol e luz. Sabíamos que tínhamos um horário a cumprir, que deveríamos retornar à base da montanha ainda de dia. Estávamos felizes pelo que já tínhamos visto até então. Que paisagem! Mais um pouco e eu me estranharia naquele lugar. Nunca me senti tão distante do planeta Terra quanto no Itatiaia.
Começamos a subir a montanha por volta das 10:30h. Chegamos ao cume às 14:00h. Não vou descrever o que vi ou o que passei entre esta lacuna de tempo. Afinal, o Agulhas Negras não é para ser descrito, é para ser visto. Quero apenas dizer que estas 3:00h, 3:30h de subida tornaram-me um ser humano melhor. Descobri-me capaz de feitos inimagináveis. Com a ajuda de meus amigos superei, se não de todo, ao menos em parte, o meu medo de altura e de queda iminente. Um deles dizia ainda antes de deixarmos o acampamento: "Eu estou com o equipamento. Vou te levar até lá em cima. Você vai ver." E assim foi feito. 
Quando cheguei lá em cima, vieram-me à retina todas aquelas lembranças de investidas anteriormente mal sucedidas. Das vezes em que fui motivo de riso por não conseguir superar um lance de escadas ou correntes em montanhas ridiculamente mais acessíveis. Das vezes em que, com um sorriso amarelo, dizia não poder continuar por sentir dores no joelho operado, quando na verdade o que sentia era medo e vergonha de fracassar diante dos outros. Então, não suportei e chorei ... de alegria ... de raiva ... de alívio ... de emoção. Longe de meus amigos ... discretamente ... silenciosamente ... exorcizando meus demônios, libertando-me de mim mesmo.
De lá de cima, tudo parecia pequeno e distante. As Prateleiras,
que um dia antes mostravam-se grandiloqüentes com seus enormes blocos de pedra branco amareladas, agora eram apenas um ponto indivisível. O Vale da Paz
uma planície erma e desprovida de qualquer forma de vida. Era o nosso Mar da Tranqüilidade. A lembrança de que nosso mundo já existia muito antes de nossa aparição.
Aproveitamos o restante do tempo no cume para tirarmos fotos e apreciarmos a visão até onde nossos olhos permitiam alcançar. O frio era intenso. Cortava. O forte vento aumentava ainda mais a sensação de baixa temperatura. A natureza nos alertava: era hora de voltar.
Começamos a descer aproximadamente às 15:00h. Estávamos radiantes de felicidade por aquele privilégio. Eu, mais seguro de minhas possibilidades, conversava descontraidamente com todos. Sabíamos da necessidade de tomarmos cuidado redobrado. Afinal, na descida todo santo ajuda...mas um erro pode ser fatal. No Agulhas Negras a auto-confiança deve ser utilizada com temperança. O excesso pode custar a vida.
Após vencermos uma fenda com alguma dificuldade, deparamo-nos com um pequeno platô do qual podíamos ter uma visão de grande amplitude do parque. Foi então que vimos aquilo pela primeira vez. Lá embaixo, no mato seco próximo à estrada de acesso, ardia uma pequena fogueira, igual aquelas que muitos de nós já fizemos em algum momento de nossas infâncias. Por curiosidade...por irresponsabilidade...por diversão.
Não lembro exatamente qual de nós foi o primeiro a avistá-la. Apenas de que, num primeiro momento, não demos a importância que o fato merecia. Nenhum de nós poderia imaginar em sã consciência que aquela fogueirinha se transformaria horas mais tarde num terrível pesadelo.
A tarde já se fazia pela metade. Adentramos em mais algumas fendas. De vez em quando parávamos para recobrar o fôlego ou para tomarmos um pouco de água. Quando já estávamos bastante próximos do fim, num platô amplo formado por grandes blocos de pedras, deparomo-nos definitivamente com o improvável. Paramos estupefactos. Incrédulos. Mudos. A pequena fogueira transformara-se num incêndio
de proporções colossais. Um grande halo
se abria em sentido favorável ao vento. O fogo já havia transposto a estrada e invadia insaciavelmente a vegetação rasteira. Instintivamente sacamos de nossas câmaras fotográficas para registrar a tragédia
. Sem nos falarmos muito percebemos que poderíamos correr riscos bastante graves. Apressamos o passo. Chegamos à estrada já noite, com o mato seco rugindo de dor atrás de nós. O barulho era perturbador. Nunca tínhamos visto algo parecido até então.
Quando chegamos ao acampamento, o caos já havia se instalado. Os guardas florestais do parque corriam atarantados para cima e para baixo. Um canal de televisão entrevistava montanhistas e turistas horrorizados. Nós estávamos exaustos pela caminhada e pelo retorno apressado. Queríamos apenas um bom banho e uma comida quente.
Algumas horas depois, já aquecidos e alimentados, sentamo-nos nos banquinhos improvisados em nosso acampamento para tentarmos digerirmos o que tínhamos vivenciado. Mas era difícil. Muitos sentimentos conflitantes nos invadiam. Alegria e êxtase pelos dias anteriores. Tristeza e revolta por aquele 18 de julho. Antes de nos recolhermos às nossas barracas, lembro-me de ter dado uma última olhada no firmamento. Estava muito vermelho naquela direção. Era como se o sol estivesse para nascer às 10:00h da noite. Um alvorecer induzido pela barbárie humana.
Mesmo durante a madrugada era possível escutar as dezenas de caminhões e carros do exército e da guarda civil que inutilmente tentavam dominar o fogo. Tentamos entender o porque de tudo aquilo. Saber aonde fora cometido o erro fatal. Mas seria simplista demais culpar dois garotos de 15 anos por terem acendido uma fogueira de aviso a beira da estrada por se sentirem alienados do seu grupo. Na verdade, o que aconteceu foi uma sucessão interminável de equívocos que culminaram na destruição parcial do parque. Da política de controle de entrada de turistas por parte das autoridades competentes aos que deveriam ter se manifestado em tempo de minimizar o evento. Mas naquelas alturas isto já não fazia muita diferença. O encanto havia sumido. Não tínhamos mais porque ficarmos ali. Todo o mal já havia sido feito. Então, no dia seguinte pela manhã, juntamos nossas coisas e fomos embora.