Serra da Mantiqueira
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Por Marcelo L. Brotto
18 de setembro de 2004
A Serra Fina cobra o seu preço
Pura ilusão. O sol pode nos confundir de vez em quando. As montanhas são maiores e mais distantes do que podem parecer e a água mais rara do que nossa sede pode suportar. Não sabia o que esperar desse pedaço da Mantiqueira. Quando a vi a partir do Itatiaia ou do Pico dos Marins as montanhas pareciam estar próximas umas das outras. A Pedra da Mina superava por pouco as montanhas ao redor, e de fato é isso que acontece, porém, eu não conseguia ver qual era à distância entre elas.
Os primeiros desníveis a serem vencidos superam os 1000 metros em altura. Não exigem técnica, mas sim resistência. São raros os lances de "trepa pedra". Caminhar sobre campos de altitude tem as suas vantagens. A progressão é rápida. Grandes distâncias são vencidas em poucas horas. Mas nem tudo são flores. A exposição às intempéries do tempo se faz sentir na pele. O sol, a chuva e o vento não terão piedade. Imagino o estrago que uma frente fria pode causar a essa altitude.
A navegação não é problema. Os totens indicam o traçado da trilha. Ela própria é auto-explicativa, pois segue o caminho mais óbvio sobre as cristas. Imagino que se alguém se perder com tempo fechado estará em sérios apuros. Se isso acontecer na vertente sul eleve o problema a terceira potência. Em caso de acidente, dependendo do local, a evacuação por trilha pode durar 2 dias.

O emprenho é a nossa moeda
Partindo da Toca do Lobo (1570m) num sábado a tarde e com objetivo bem definido, a travessia da Serra Fina, nossa equipe, formada por 6 marmanjos e uma donzela, seguiu encostas acima almejando novos horizontes, galgando o morro do Cruzeiro (1783m) e Quartzito (2020m), caminhando sobre a fenomenal crista que liga este último ao Alto do Capim Amarelo
(2491m) onde passaríamos a noite. Antes, porém, com tempo para sobrepujar o precipício e as vertentes que seguem ao sul, deixando o vale do Paraíba muito abaixo de nós.
Levei a sério a estória de que havia água próxima ao acampamento e acabei causando um certo desconforto ao nosso grupo. Era apenas um blefe. Houve um momento em que a travessia esteve por um fio, mas apenas até o nosso colega "Alemão" comer algo, descansar e recobrar a lucidez. Nos separamos este dia em virtude dos locais de acampamento. Éramos agora dois grupos. Um trio "hard" e um quarteto "susse".
Alvorada e barraca no chão. Muito chão pela frente e um objetivo comum. Água! Só depois pensaríamos na Pedra da Mina.
Caminhamos sobre o Avançado, Maracanã, Dourado, Serra Fina, Melano (2496m). Tudo que sei é que passei por eles. Não pude pensar muito nesses nomes enquanto estava lá, pois o sol estava derretendo o meu cérebro. Enfim a cachoeira Vermelha! Água, nem que tenha de ser com sabor de ferrugem!! Um pouco a frente o rio Claro. Abastecemos e começamos a sentir o cheiro do objetivo principal.
Logo chegamos ao alto da Pedra da Mina (2797m), trazendo conosco o nosso sonho de estar nesse lugar. Um visual singular, um macarrão ao molho rosê e um céu estreladíssimo fizeram desse um dia inesquecível.

Nada dos nossos colegas. Nem mais ao chamado do rádio eles respondiam. Partimos com a notícia de que eles estavam vindo, de vagar e bem sossegados. Descemos ao vale de Ruah. Seguimos cada qual fazendo seu próprio caminho entre o capim de anta. Acompanhamos o rio Verde e abastecemos de água. E como todo caminho por aqui passa por cima de crista lá estávamos nós. Uma hora antes do Cupim de Boi encontramos outros colegas de Curitiba que vinham no sentido contrário. Pegamos a chave do carro do professor Fill que estaria estacionado no final da travessia. Era nada mais nada menos do que uma caminhonete Ranger 4x4. Bom demais para ser verdade! Combinamos que retornaríamos com ela até a Toca do Lobo para resgatar nossos dois veículos.
Daí em diante nossa busca foi por uma sombra. Passamos rápido pelo Cupim de Boi (2530m), descemos e logo encontramos uma ótima clareira sombreada por um bambuzal. Almoçamos, tiramos uma soneca e nada dos nossos colegas. Retomamos a subida vencendo a última grande montanha, o Pico dos Três Estados (2656m)...sólido, líquido e gasoso. Brincadeiras a parte, o visual que se tem deste ponto é inigualável. Para ser visto e apreciado o Itatiaia se exibe pujante, majestoso, imerso na leve luz do entardecer, atraindo nossos olhares com suas rochas cor de chumbo e nos convidando a uma outra oportunidade na Mantiqueira.
Enfim retomamos contato com a equipe "susse", nem que seja aos berros. O rádio retoma sua funcionalidade, então marcamos o reencontro para o 4º e último dia da expedição.

Reunidos os 7 naquela manhã de 7 de setembro no alto do Pico dos Três Estados registramos em algumas fotografias o momento que ficará guardado para sempre em nossa memória.
Cristas e mais cristas montanha abaixo, passamos pelo Bandeirante (2477m) e o Alto dos Ivos (2513m) parando apenas no riacho ao final da caminhada. E lá estava ela nos aguardando, a Ranger 4x4 branca,
onde coube os 7 mais as 7 mochilas. Muita sorte!
A satisfação é a nossa recompensa
Linhas que parecem ter sido traçadas pelas mãos de um artista. Montanhas tocando o azul do céu. Cristas de uma sensualidade incomum despencando por todos os lados. A rota que levará a satisfação pessoal é linda demais. Torça para pegar visual, mas torça mesmo! Sente-se sobre a Pedra da Mina ao entardecer. Observe as sombras deitarem-se ao sul delineando o suave traçado. Cabeça do Touro, Cupim de Boi, Pico dos Três Estados. Sob a luz do entardecer serão palco para o Itatiaia. Robusto, delineado por contornos severos e banhado de sol o Agulhas Negras, Couto, Prateleiras serão como poesia aos nossos olhos. Respire este fino ar. Respire novamente. Aqui é a Pedra da Mina. Não pense muito. Apenas curta o momento e deixe que todas as estrelas do céu abençoem este lugar.
