Serra da Mantiqueira
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Por Carlos Eduardo Gonçalves
2 de setembro de 2007
...Na terceira cordada paramos para umas fotos, curtir o “visu” e fazer um lanche, pois ninguém é super-homem! Antes de chegar ao fim da cordada, o Brotto avisa sobre ilustres moradores de hábito noturno. Ao lado da parada, estavam sob uma “laca” de pedra algumas dezenas de morcegos. Até aí, era só alegria e contemplação, seguimos contentes cordadas acima até que, na penúltima, escutamos uma outra dupla (um casal). Não entendi o que diziam pois estava guiando, já adiantado na via, mas o Brotto, que me dava a segurança de baixo, conseguiu entender o que falavam.
- Volta, volta, vai chover! - gritava um para o outro.
Quando finalmente o vento parou por um instante é que o som do casal chegou a mim com clareza. Já era tarde, avançava a penúltima cordada e perto do cume já sentia alguns respingos da torrente aproximando.
- Tente se apressar, está começando a chover aqui! – gritei pro Brotto.
Eu não tinha idéia do empenho que seria se ficássemos ali! Comecei a procurar um modo de nos abrigar e descer, visto que era um ponto de ascensão de outra via que começava pelo outro lado da pedra. Avistei acima e a direita de onde estava alguns blocos que poderiam eventualmente servir de abrigo até a chuva passar.
- Achei um lugar aqui em cima, ou podemos descer rapelando pelo outro lado! – disse.
- Ah, não to a fim de descer agora que estamos na penúltima cordada! Vou tentar achar algum lugar naquelas pedras! - respondeu o Brotto.
- Ok, beleza, vi daqui e parece um bom abrigo, vá que eu te dou a segue!
- Uhu! O lugar é arregado, podemos nos abrigar!
- Então monte uma parada que estou começando a ficar molhado e com frio!
Como estávamos em uma crista, a chuva que vinha em sentido oposto passava por ali com uma forte rajada, baixando mais a sensação térmica e molhando rapidamente meu corpo.
- Venha Aranha, consegui montar uma segue pra você!
- Já estou indo! – respondi.
A passada não era tão ruim, mas o fato da rocha estar molhada deixava o quadro mais agravante e não poderíamos arriscar com um acidente a essa altura do campeonato. Ao chegar no abrigo, notei que poderíamos ficar razoavelmente acomodados.
- Legal, massa! Vamos aproveitar e fazer um lanche já que vamos ficar confinados até passar a chuva. – comentou ele. - Não é má idéia! - respondi.
Passado algum tempo, já angustiados por ver várias nuvens chegando e o dia passando, surgiu aquela dúvida. Arriscamos ou esperamos mais um pouco? Nisso, as trovoadas e raios se aproximando... Quando, de repente, um estrondo dá-se ao cume. Achei que, nesta hora, já estava morto, tamanho o susto! Fiquei alguns segundos estático, imóvel, foi quando o companheiro perguntou-me assustado: - Aranha, você sentiu isso?
- O quê? - retruquei.
- Não me diga que você não levou o choque?! Você não sentiu o raio? - disse o Brotto.
- Não senti nada. Como você está, belezinha?
- Cara, não boto fé! Senti o raio passar pela minha mão!
Ficamos pasmos diante do fato! Tentamos entender como poderia um sentir a descarga e o outro não.
Passado o susto, o tempo começou a dar o ar de estiagem. Como não conseguimos por inúmeras vezes ter certeza se não era apenas mais uma nuvem que passava, o Brotto arriscou guiar até a crista pra conferir se haveria possibilidade de continuarmos a última cordada.
- Pode vir! – gritou, já na parada final.
- Na boa, “está em alto”? - retruquei.
- Sim, está na minha, pode vir!
Comecei a escalar a última parte da via, quando de repente ouvi: - Uhuu! Aranha, olha pra trás, que massa!
Era o mais belo arco-íris que já tinha visto! E mais impressionante ainda é que eram três! O fato de estar mais abaixo me proporcionou tal visão que na foto, que foi tirada pelo Brotto que estava mais acima, não mostrou.

Era fantástico! Fechara o fim da escalada com “chave de ouro”, melhor dizendo, com belos arco-íris!
Agora só faltavam alguns metros. Chegando próximo ao cume, entramos em uma espécie de platô, onde curtimos alguns instantes, em silêncio, contemplando o belo lugar! E tinha que curtir em mínimos detalhes, pois retornaria a terra natal no dia seguinte, trazendo lembranças, saudades e esperança de um breve retorno.

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