Serra da Mantiqueira
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Por José Luiz Kliemczak
16 de junho de 2008
No despertar do sonho
Há alguns anos ouvira falar da Travessia da Serra Fina, trecking na serra da Mantiqueira, do município de Passa Quatro –Toca do Lobo – ao município de Itamonte – fazenda Engenho da Serra. Em 2004, quando no Itatiaia, na ascensão ao Prateleiras, deti-me com a beleza daquele horizonte “encapelado” e comentei com meu companheiro de empreitada, Darley. – Pela vista é muito bonito aquilo lá, é extasiante. - A partir daí, passei a sonhar em “fazer” a travessia e ascender a Pedra da Mina, 4ª maior altitude em solo brasileiro.
Na noite de vinte e um de maio de dois mil e oito, lotamos uma van com 15 lugares e um reboque com as mochilas. Seis integrantes do clube e os restantes amigos e conhecidos do pessoal do Clube Paranaense de Montanhismo. Saímos de Curitiba as vinte e duas horas.
Por volta das oito horas e trinta minutos do dia seguinte, 22 de maio de dois mil e oito, já nos preparávamos na trilha de acesso à travessia, ajeitando mochilas e fazendo as primeiras fotos do dia, distantes a alguns minutos de caminhada, de leve subida até a Toca do Lobo, altitude de um mil e quatrocentos e sessenta e três metros.
Lá chegando agrupamos o pessoal, mais fotos, aplicamo-nos bloqueador solar, enchemos os recipientes com água do riacho local que, após cruzado, iniciamos com uma subida bem íngreme em meio a mata. Em poucos minutos atingimos uma vegetação mais baixa que se distinguia campo de altitude, capim de anta, floresta Montana e raras caratuvas. Altitude um mil oitocentos e sessenta e quatro metros. Nessa oportunidade visualizamos a esquerda a cidade de Passa Quatro e alguns picos, a direita o vale do rio Paraíba e a cidade de Cruzeiro. Às nossas costas os conjuntos Itaguaré e Marins e à frente a longa crista com o sobe e desce que, no seu ponto culminante, descortinava o Alto Capim Amarelo.
Eram dez e vinte e cinco minutos daquela manhã e a previsão era atingir o cume as quinze horas. O trajeto transcorreu com a vista de paisagens belíssimas, comparação com outras montanhas nossas conhecidas do Paraná, muitas fotografias e o distanciamento entre os componentes do grupo, cada um impondo seu próprio ritmo.
Os primeiros contatos com o capim de anta, passaram despercebidos por achá-lo inofensivo, ingênuo até, se é que se pode classificar assim uma gramínea, servindo de apoio para me segurar e impulsionar o corpo a frente nas subidas, aliviando o peso das mochilas cargueiras, que pesavam uns vinte e cinco a vinte e oito quilogramas com a carga de água, em média cinco litros. Mas o capim de anta iria nos cobrar essa “mãozinha” e mostrar que a natureza selvagem moldou as plantas locais aos rigores daquele ambiente. E nós, pequenos invasores, íamos sentir na “pele” esse convívio.
Passamos pelo Cotovelo por volta das onze horas, altitude dois mil e trinta e oito metros.
Já num ponto para o ataque ao cume, eqüidistante da Toca do Lobo, havia um local para abastecimento de água. Era uma água amarelada, atinei e me peguei absorto pensando se era da água uma homenagem, ao capim ou ao morro destaque daquele trecho da trilha.
A ascensão ao Alto Capim Amarelo se mostrou fatigante. Subida íngreme a muito íngreme em alguns trechos, solo tipo turfoso e úmido, escorregadio, trepa-pedras e muito capim de anta, para nossa sorte com altura média de oitenta centímetros. Cãibras nos meus pés e pernas marcaram a subida. Pequenos cortes nas mãos e dedos devido ao capim se fizeram acontecer.
O líquido precioso e a tormenta interior
Por volta das dezesseis horas e trinta minutos, atingi os dois mil, quatrocentos e noventa e um metros de altitude do cume, eu estava esgotado. Rápidas fotos e continuar em frente para descer até o campo (acampamento), local conhecido como Avançado, dois mil e trezentos e um metros de altitude. Montar barraca, trocar de roupa, jantar e dormir.
Essa noite teve strogonoff, preparado pelo Vicente, consumido avidamente em meio à confraternização geral. A noite, um grau, nuvens baixas, umidade. Pela manhã, três graus negativos, forte geada, céu limpo.
A barraca do Marcel se mostrara pequena para nós dois. Dizendo-se “para duas pessoas”, para o meu comprimento não dava, na largura também não, com pernas esticadas, empurrava o fundo e minha cabeça forçava na tela junto ao zíper da porta. Naquela manhã senti meu cabelo preso em algo, devia ser no zíper, passei a mão e para meu espanto conclui que a condensação do vapor gerado internamente, escorrera pelo tecido de “nylon” da barraca e congelara entre a tela e o zíper, prendendo meu cabelo. Tirei umas pedrinhas de gelo da minha cabeça e a dificuldade foi abrir o zíper, emperrado pelo gelo.
Já fora da barraca e agasalhado, preparei o desjejum da turma (Brotto, Marcel e Vicente), já que neste dia seria comigo. Às oito horas e trinta minutos do dia vinte e três de maio, roupas trocadas (as mesmas de ontem, ainda meio úmidas de suor), barriga abastecida, chapéu à cabeça, GPS ligado, mochila às costas e câmera a mão, tocamos em frente rumo à Pedra da Mina.
Começamos subindo uma trilha irregular, que serpenteava e ondulava. O capim de anta era nosso companheiro constante disputando espaço bem equilibrado com as caratuvas, gramínea que se assemelha a um bambuzinho variando entre meio metro e dois metros de altura, parecida com uma escova de lavar garrafas, muito conhecida nossa, das montanhas do Paraná. Nessa marcha subimos algo como o morro Caratuva, do conjunto Ibitiraquire (Pico Paraná), para atingirmos altitudes na média de dois mil e quinhentos metros. O sol ardia na pele e nos olhos, a boca e a garganta secava com freqüência maior.
A partir daqui passei a notar algo que já tinha ouvido falar e lido a respeito. Tratava-se de um ícone rudimentar para orientação das trilhas daqui, também usado na região do Himalaia, porém, com motivos religiosos, místicos e espirituais, os totens de pedra. Sempre que a vista me confundia ou o senso de orientação perdia o rumo, estava lá um totem de pedra a realinhar minha orientação a retomar a trilha.
Subindo e descendo picos, sempre na crista das montanhas. Nos trechos de baixadas entrava na vegetação arbórea Montana, ao recomeçar a subida, o capim de anta predominava e se mostrava cada vez mais denso e alto. Nas manobras para vencê-lo, braços, mãos e qualquer parte exposta sujeitavam-se a escoriações e/ou cortes profundos. Em meio a essas condições e muitas vezes sobre os trechos rochosos, inóspitos e escaldantes, me deparava com um verdadeiro breackfast, aquela pausa para o cafezinho, que a natureza preparava e gentilmente me oferecia a olhar e que eu podia palpar, flores lindas, minúsculas, de um colorido contrastantemente belo com o fundo cinza mesclado da rocha, indagava-me como poderia ... Esses arranjos criativos das plantas. Então eu parava, baixava a mochila, sacava a garrafa d’água, despejava um pouco na boca e sentia-a gelada, imaginava o quanto eu estava quente, “radiador fervendo”, erguia o olhar, o céu azul comum dessas altitudes, a paisagem, as montanhas, retornava às plantinhas, agradecia por tudo aquilo e por eu estar ali, pegava a mochila e ia.
A reserva de água diminuía rapidamente e o local de coleta do precioso líquido me era uma incógnita. Caminhavam comigo, Vicente, Marcel e um grupo de quatro paulistas, pois é, topamos com outros grupos na trilha com o mesmo objetivo que o nosso e outros que, em menor número, vinham em sentido contrário e vez por outra, durante todo o percurso, caminhávamos próximos. Já na aproximação da base da Pedra da Mina, há duas horas e meia do cume, pediram por rádio a localização do córrego onde nos abasteceríamos, mas as informações dos seus pares eram inexatas e desorientadoras. Vicente tirou no GPS o alinhamento do ponto d’água, que fora previamente registrado, e disse: – Aqui tá dizendo que é nessa direção. – Seguiu-se um curto silêncio e logo os comentários sobre as pedras ao longe, naquela “canhada” próxima ao matinho, insinuavam a possibilidade de conter água. Era só dúvida. Paramos para o descanso providencial e aquele gole de água. De imediato dei marcha a frente do grupo que permaneceu no local mais um pouco, me embrenhei no capim de anta, aqui alto e denso, afastando-o com os braços e mãos e de olho atento no leito da trilha para não tomar caminho errado, era como tatear no escuro. Percebi a facilidade de se desviar do rumo. Para mim que fazia essa caminhada pela primeira vez, sem mapa e sem pontos no GPS, a noção de rumo só existia quando a trilha era visível, numa visada mais longa e sobre capim de anta, eu não tinha a menor idéia para onde deveria ir. Rastreava com o olhar algum totem, mas nos campos cobertos de capim dificilmente se via um. E era esse o caso, estava eu ali, junto com minha insegurança e precisávamos fazer alguma coisa. Dei dois passos para fora da trilha, abri a braguilha e urinei. Senti um momento de grande lucidez e alívio, respirei fundo, me recompus e segui a trilha com cuidado redobrado, tive a sensação de que minha mente se abriu, o caminho ia ao sentido oposto do que antes haviam indicado a presença de água. Para frente e para trás não enxergava vivalma, salvo bem próximo ao cume da Pedra da Mina, mais pareciam formiguinhas vistas ao longe, sem exagero. Segui a minha convicção, ou intuição, sei lá, meus pés estavam na trilha e isso era muito reconfortante. Alguns minutos passados e num bloco de pedra um totem, “ufa”, eu estava certo.
Capim nos olhos, nos braços e sempre em frente, de repente vozes ao longe, precipitei meu olhar abaixo uns oitenta metros e um grupo em alarido se refestelava, gritei: “Tem água aí” , sinalizaram com os polegares. Desci, trilha mais definida e logo estava bem em cima do passo do córrego, no local da “bica d’água”, saltei para o outro lado.
Recolhia as pets abastecidas quando vi topo de mochilas se aproximando uns cem metros à minha direita e do outro lado do córrego, reconheci uma delas como a do Vicente, de imediato gritei e os fiz desviarem para a direita deles e se manterem paralelos ao córrego, por pouco não desabaram nele devido ao talude da margem de um metro oculto pelo capim de anta. Abrindo caminho, logo chegaram ao passo.
Abastecido de água e seis quilogramas mais pesada a carga, iniciei com os companheiros o ataque ao cume da Pedra da Mina, eram doze horas e trinta minutos e o sol estava impiedoso. Aquela ascensão lembrava, ora o Araçatuba, na divisa do Paraná com Santa Catarina, na Serra do Araraquara, ora o morro da Lorena, em Rio Branco do Sul na Serra de Santana. Subida em aclive constante, em campo de altitude. Aqui era mais íngreme e uma grande área de aderência, plano rochoso com mais de quarenta e cinco graus de inclinação, estampava a paisagem do morro bem em seu terço médio, onde passa a trilha. Por volta das treze horas paramos para um lanche, descansamos e aproximadamente às quatorze horas fomos em frente. A subida foi silenciosa e com muitas paradas para recompor o fôlego. Às quinze horas me deparei com um grande totem, da minha altura e largo, o perfil da montanha se abobadara, estava a trinta metros do cume.
Um outro império dos sentidos, o ambiente natural
Lá chegando, a emoção era indescritível. Dois mil e setecentos e noventa e seis metros. Fiz minha anotação no livro de cume e fui ao campo, onde parte do grupo já se encontrava com as barracas montadas e outras por montar. Cumprimentei e fui cumprimentado, o tradicional brado - iuhoo! - Baixei a mochila, me despi, espalhei óleo de bétula no corpo e massageei as pernas. Rafael brincando falou qualquer coisa sobre andar daquele jeito por ali. Eu estava longe.

De volta ao cume fiz a tradicional foto com a bandeira do CPM, com o Brotto e o Rafael. O sol ia ao horizonte quando fiz outras fotos, o pôr do sol, silhuetas no cume e o Itatiaia no horizonte. Ocorreu-me algo, faltava refletir a respeito.

No campo era só alegria. Já escurecia e nos agasalhávamos. O vento soprava em rajadas. A vodka com cataia rodava de mão em mão e o centro das atenções era o fogareiro do Brotto, que preparava a janta, macarrão ao molho de... Com lingüiça fatiada e..., As reticências são por culpa da vodka que preparei com cataia e do conhaque do Vicente. Fazia um grau negativo e a janta estava saborosíssima, comemos pra arrebentar. Frio? Nem tchum!
Manhã de vinte e quatro de maio de dois mil e oito, seis horas e trinta minutos, cume da Pedra da Mina, oito graus negativos. Com a pouca umidade, geou pouco, fez geada de solo, na terra. Dormi melhor na barraca do Rafael. Solo plano, com pouca areia. Saí da barraca para o desjejum me sentindo num confortável SPA. Alguns se queixavam dos arranhões e cortes do capinzal encontrado no caminho até ali e adornavam dedos e mãos com curativos. Após a segunda dose de café expresso, pois é, levei uma cafeteira italiana, também conhecida como mooca, roupa trocada, (a mesma de ontem, a blusa preta já bem rajada com estrias brancas do sal do suor, mas sequinha), nos pomos em marcha para o Três Estados.
Ao final de uma descida de quinze minutos me deparei com um extenso campo em duas etapas. Inicialmente largo, retangular, de uns três hectares (trinta mil metros quadrados), que cruzaríamos transversalmente, em seguida, ladeado por duas montanhas se estreitava e acompanhava um riacho no terço médio do flanco esquerdo, com a largura de cem metros e extensão de uns dois quilômetros, tudo plano e com uma exuberante vegetação de capim de anta, local conhecido como Vale do Ruah. Ainda na descida o Maurício comentou que passaríamos por uma área de campo com alagados e capim alto, muito sujeita a extravios de pessoal, que deveríamos caminhar juntos. Quando me deparei com aquele lugar pensei, hora de ser mais ágil e atento.
Marchamos pelo campo, atravessamos o alagado, passamos pelo grupo de paulistas do dia anterior, adentramos novamente ao capinzal, só se via o topo das mochilas próximas até cinco metros, margeamos o riacho varando o capinzal, passamos por outro grupo bem grande onde uma bela jovem de biquíni banhava-se no riacho, uma sereia naquela água gélida, dei-lhe um momento da minha atenção e quando olhei a frente não via mais o topo das mochilas, um instante de distração e ... Acelerei o passo, caminhamos um bom trecho, cruzamos o rio para a esquerda, paramos, vindo atrás de mim, sorrindo e malicioso o Maurício comentou algo como, -“Bonita e corajosa aquela moça”. Todos concordaram... A “distração” havia sido geral.

Abastecemo-nos de água, seis litros por pessoa. A jornada ia ser longa até o próximo ponto de água. Deveríamos alcançar o Pico Três Estados, ainda eram dez horas e trinta minutos, chegaríamos ao cume por volta das quatorze horas e trinta minutos, avançaríamos até o local do campo, conhecido como Bandeirante, pernoitar e caminhar até quase o final da trilha, aonde haveria água, por volta das doze horas do dia seguinte. Rafael e Vicente saíram na frente e se afastaram. Ainda os vi ao final do trecho, galgando um monte. Nesse instante passava por nós o grupo da “expedição”, aquele da moça no rio. Em alguns minutos já venciam o trecho e desapareciam para além do monte. Eu, já pronto e pretendendo adiantar-me, avisei ao Brotto que já estava de saída e toquei em frente. Atravessando o capinzal, margeando o riacho fui seguindo, iniciei um leve aclive e aí a coisa começou a complicar. Segui subindo para chegar até onde eu imaginava que havia visualizado os outros passarem e topei com o caminho sem saída, voltei e não me achava. “Mas a trilha passa logo ali à frente”, pensei e resolvi atropelar o capim de anta, varando o mato no peito. Parei para recompor o fôlego, vi um totem lá no alto, bem à direita. Tive a impressão de sentir minhas orelhas crescerem e ficarem bem altas. Soltei um palavrão. Achei graça ao pensar que nem um burro seria louco para peitar aquele mato na subida. Olhei para trás e vi o Brotto vindo com o Marcel, ainda lá embaixo. Esperei eles passarem, alguns metros abaixo de mim e retornei à trilha.

Ao chegar ao topo do monte, um outro grupo descansava. Marcel e Brotto, como que me esperassem, quando me viram acharam que eu ia parar, mas continuei andando e eles vieram atrás. Logo o Marcel me passou, quando o Brotto ia fazendo o mesmo pedi-lhe que não se distanciasse, mantendo um ritmo que eu pudesse acompanhá-los. Ele não me passou e viemos conversando. O percurso aqui se tornou penoso para mim. Caminhava lento e parava com freqüência, devido a subida constante, que não dava trégua, o Brotto me incentivava dizendo que eu estava bem “ – devagar e sempre, é isso aí”. Chegamos à rampa do Cupim de Boi, deveríamos trilhá-la por sua estreita crista. A visão era colossal. Enormes blocos de granito emparelhados e “rejuntados” por areia, pedriscos, pedras, matéria orgânica, sei lá e pendentes para a direita, isso no alto de um morro. Mais para a direita e a nos observar a um bom tempo, o Cupim, uma unidade de granito gigantesca, com altitude próxima a do Três Estados. A trilha na verdade contornava-o a distância, separados por um vale “abissal”. Parecia que todos estavam estupefatos com aquilo e com a visão do entorno. A minha frente, podia ver a Aline posando para foto bem a beira do precipício, o Arce tinha os olhos esbugalhados, por certo maravilhado com aquilo tudo.
Subindo a fina e rochosa crista do Cupim de Boi, eram treze horas, me lembrei, como na noite anterior no cume da Pedra da Mina, que um grupo de amigos da minha adolescência, lá na cidade do Rio de janeiro, se reuniria hoje para relembrarem muitos dos momentos de nossa juventude e confraternizariam. Como precisava estar atento na caminhada, certamente perderia o fluxo mental de me manter lembrando deles, naqueles momentos durante a tarde. O que fazer, pensava e distraidamente com o olhar fixo no chão vi umas pedrinhas que brilhavam e refletiam o sol daquele início de tarde. Se algo me chamasse a atenção periodicamente, conseguiria manter-me lembrando dos meus amigos distantes. Peguei uma daquelas pedrinhas e coloquei dentro da bota. A cada passada, até o final do entardecer, eu lembraria que tenho amigos, que eles estavam reunidos e que lembrariam de mim. Essa pedrinha representava o momento que estivemos com os pensamentos voltados para aquela vivência.
Todos seguiram em frente, ficamos os três ali. Finalmente o Brotto nos dera ”permissão” para fazermos o lanche do almoço e aí paramos. Ao final ele se levantou e disse que seguíssemos em frente que já nos alcançaria, pois iria subir o Cupim. Tentei dissuadi-lo, mas nem ”tchum”. Deu um sorrisinho e desapareceu pela vertente que supostamente se aproximaria do colo do Cupim para então fazer o ataque ao cume e garantir sua conquista. Levantei-me e fiquei a observá-lo ao longe e de repente percebi à minha frente, lá no horizonte, uma das paisagens mais belas, se não a mais bela de toda travessia. Saquei a câmera da pochete e fiquei disparando vários ângulos e aproximações do conjunto do Itatiaia. Essa mesma sensação tive quando no cume da Pedra da Mina.
No extremo do pontão rochoso do Cupim de Boi (altitude, dois mil e quinhentos e vinte e dois metros), onde nos encontrávamos, a trilha quebrava noventa graus à esquerda e desaparecia. Lá embaixo se via a vegetação. “É semelhante a trilha do Caratuva ao Taipabuçú, do Ibitiraquire, no Paraná”, comentei, a descida seria bem íngreme. De onde estávamos podíamos perceber que desceríamos um vale profundo, adentraríamos uma mata com taquaral e nos extremos, de cá e de lá toparíamos com o capim de anta. Subiríamos até um colo íngreme, bem mais alto que o ponto onde nos encontrávamos, para então seguirmos numa inclinação semelhante ao nosso Araçatuba, até o cume do Três Estados.
Tocamos em frente, eu e Marcel. Ao chegarmos ao alto do colo íngreme, eram quatorze horas e trinta minutos. Ao olhar para trás, em direção ao outro lado do vale, com o grande bloco rochoso do Cupim ao fundo, percebi um pontinho branco minúsculo, próximo do cume deste. Alguns minutos depois, o pontinho branco havia se deslocado e estava já quase no cume. Era o Brotto. Tentei fotografá-lo com zoom mas era impossível com aquele vento, as mãos tremiam. Teria que montar o tripé, mas àquela altura era impraticável, mas cheguei a fazer umas fotos com a câmera nas mãos.
Preparados para a adversidade
Chegamos ao cume do Três Estados, eu e Marcel, as quinze horas e quarenta minutos (altitude, dois mil e seiscentos e cinqüenta e seis metros). Não havia ninguém do nosso grupo por lá, mas estava lotado de barracas. Fizemos as fotos de praxe, descansamos um pouco e descemos a trilha ao encontro do pessoal que estava a frente. Havia umas barracas lá embaixo, deviam ser eles. Ao chegarmos, vimos que não eram nossos conhecidos. Na descida percebi que nuvens se aproximavam e atravessavam pelo pequeno colo que havíamos cruzado, eram dezessete horas e esfriava rapidamente, logo escureceria e precisávamos montar a barraca. Ao consultar aqueles que lá se encontravam nos disseram que por ali não havia outras clareiras e que outros do Paraná haviam passado por ali e seguido em frente. Afastamo-nos e expus ao Marcel que nossa situação seria crítica se não conseguíssemos local para a barraca em meio a neblina que estava se formando. Que deveríamos, a qualquer custo, conseguir um local para a barraca e nos protegermos do vento e do frio, antes porém, eu iria avançar sem mochila, trilha a frente, por dez minutos e voltaria.
No outro extremo do cume em que nos encontrávamos, abaixo uns cento e cinqüenta metros, visualizei as Manaslu (barracas) alaranjada e cinza do nosso pessoal entre outras, gritei seus nomes, agitei os braços, não me ouviram, o vento não deixava. Voltei e falei ao Marcel o meu achado. Mochila às costas e tocamos em frente. Em vinte minutos nos aproximávamos do campo e para minha surpresa, não era o nosso pessoal. Segundo um dos membros do grupo que lá estava somente o “Maurício do Paraná passara por ali” e como experiente corredor de competições de aventura, iria direto a sede da fazenda no final da trilha para pernoitar, pois não havia mais clareiras disponíveis para barracas, devido a grande ocorrência de pessoas na travessia por causa do feriadão e do bom tempo previsto, “só um pequeno grupo tinha ido acampar ao pé do Alto dos Ivos, onde havia uma grande clareira e para isso deveríamos passar por dois morros menores antes do Alto dos Ivos, o que levaria em torno de uma hora”. Agradeci a orientação e as dicas e disse que ia ver o que faríamos. Segui em frente com o Marcel e lhe disse que estava valendo tudo que havia lhe dito no alto do primeiro cume, após a descida do Três Estados. Só que agora a urgência era maior, eram quase dezoito horas, escurecia rapidamente, ventava de “entortar o caneco” e não havia clareira para a barraca, então lhe disse, -“vamos fazer uma”.
Escolhemos um local mais aberto na trilha e nos pomos arrancar o mato e algumas touceiras de capim de anta. Em quinze minutos estava aberta a clareira. Estendemos a barraca e a erguemos, meio em cima do raizeiro que ficara a mostra. O espaço aberto era só para a barraca do Marcel, as mochilas ficariam na trilha.
Já quase que acomodados, peguei o rádio, troquei as pilhas e chamei. Não demorou e o Rafael respondeu. Dei a nossa localização, ele falou a dele. o Arce e o Otaviano, entraram na freqüência, embolou o meio de campo. Depois de novo comunicado do Rafael é que entendi onde ele e o Vicente estavam. Ora, mas eram eles que estavam na base do Alto dos Ivos. Do Brotto ninguém sabia. Estávamos todos extraviados.
Falei que nos instalamos e que iríamos pernoitar ali, não havia condições de retomarmos a trilha e ir onde eles estavam, retornaria ao rádio as dezenove horas para receber ou transmitir informações dos outros membros do grupo.
Ainda ajeitava os equipamentos e me organizava para a janta quando chegaram Celso e Greissi. Conversamos e decidiram ir em frente até encontrar um local para acamparem, desejei-lhes sorte. Sumiram no lusco-fusco da boca da noite.
Quinze minutos se passaram quando ouvi bradarem meu nome. Estiquei-me para ver por sobre a vegetação quem se tratava e respondi, - “Estou aqui!”. Era o Arce e Aline que chegavam acompanhados de Otaviano, Carol e Marcelo. Cumprimentamo-nos e disseram que iriam ficar por ali mesmo. Enquanto conversávamos, chegaram o Jonatam e o Fernando. Deveriam abrir uma clareira, pois não havia mais nenhum local, “como, eu e Marcel tínhamos feito”. Mãos a obra e em vinte minutos estavam montando as barracas. Batizamos o local com o nome de Campo Curitiba (altitude, Dois mil e quatrocentos e setenta e nove metros), na região conhecida por Bandeirante.
Estava na barraca, me untando de óleo de bétula, quando ouvi a voz do Brotto. Eram quase dezenove horas. Botei a cabeça pra fora da barraca falei alguma coisa, quando me viu, espantou-se -“Ué! Zé Luiz, você está aqui.” Eu respondi que tinha avançado até ali e não encontrando ninguém, na dúvida se havia alguém do grupo a frente e pelo tardar da hora, resolvi pernoitar ali”, ele disse que ia em frente, até onde estariam o Vicente e Rafael. Despediu-se. Desejou-nos boa noite e se foi.
Nessa terceira noite, a janta seria comigo. No cardápio grão de bico ao curry com creme de cebola, salame fatiado e pão sírio. Carreguei todos os ingredientes por três dias e agora os comensais estavam ausentes. O que fazer? Preparei um terço de tudo e reparti com o pessoal que também faziam o mesmo.
Dormi me sentindo como se estivesse na gaveta de uma penteadeira que caiu do caminhão de mudança, tal o arranjo que a barraca teve. O Marcel passou a noite se distraindo com uma pedra, no chão, bem sob as costas. Pela manhã, ainda na barraca, ouvi o Otaviano, ou foi o Arce, dizer que havia sido aprovado no curso de faquir, tal a sensação da gravetada embaixo da barraca a lhe espetar o corpo durante a noite. Com tudo isso ainda não tinha coragem de sair da barraca, pelo frio e pelo vento. Mas era a minha escolha estar ali e só por isso eu estava feliz. Vesti uma segunda calça, o “pile” e o anorak e abri o zíper da barraca as seis horas e vinte e cinco minutos do dia vinte e cinco de maio de dois mil e oito, a princípio tive a impressão de ter o céu nublado, mas logo vi que era a claridade da manhã. Saí e pus-me de pé a admirar no horizonte o sol por nascer. Logo, todos se “agitavam” para o desjejum e para a saída. Um café expresso depois, barracas desmontadas e recolhidas, mochilas arrumadas, a mesma calça de ontem, a blusa, vesti a que vinha dormindo. Às oito horas e vinte minutos, saímos em direção ao Alto dos Ivos.
Montanhas de amigos
Ao fitar o cume percebi a silhueta diminuta de pessoas, presumi que seriam nossos companheiros, Rafael, Vicente e Brotto. O Marcelo me seguia, conversávamos e parávamos para uma foto ou outra. Mais atrás vinham Marcel e o restante da galera. Vencemos o trecho até o Alto dos Ivos em quarenta minutos. Lá chegando confraternizamo-nos e fizemos fotos com todos juntos.

Restava o final da travessia. Era um longo percurso, a maior parte em descida. Estávamos a dois mil e quinhentos e sete metros de altitude e deveríamos alcançar a rodovia MG 354 em seus um mil e quinhentos e trinta e sete metros.
Inicialmente em campo de altitude ou em percursos sobre laje (aderências), com o sol nos castigando impiedosamente como sempre, para nas depressões vararmos vegetação arbórea montana, com muito taquaral pelo caminho a “enganchar”, “enroscar” as mochilas, nos puxando para trás. Alternava belíssimos jardins de bromélias a florescer ladeando a trilha. Aos poucos uma vegetação mais exuberante foi predominando e nos distraia, tornando o caminhar menos penoso, associado ao frescor da sombra da mata. Em dado momento, já passados uma hora e quarenta minutos desde o Alto dos Ivos, a trilha se alargou. O Marcelo comentou que seria estrada de jipeiros, realmente fazia crer, mas no passado, em alguns trechos hoje, seria impraticável. Não havia mais descidas íngremes, a trilha se tornara plana com declive suave. Mais meia hora e chegamos ao ponto d’água e com sombra, era o paraíso. Estavam todos lá. Sentamos, descansamos, bebemos toda água que conseguimos, comemos, nos abastecemos de água, descansamos mais um pouco e partimos.
Existia no ar a sensação do dever cumprido, a alma leve, um sorriso em nossos rostos, mas um sorriso de paz, satisfação, de tranqüilidade.
Em meia hora chegamos à sede da fazenda. Havia lá outros grupos que aguardavam transporte. Reagrupamo-nos e continuamos descendo e conversando. Eu estava andando bem. Uns foram perdendo o ritmo e ficaram para trás, outros garantiram um passo forte e se distanciaram, outros ainda resolveram pegar um atalho e se largaram pirambeira abaixo.
Eu me vi só. A experiência da travessia da Serra Fina servira-me para fortalecer a compreensão da influência assertiva das montanhas na minha vida, no meu comportamento. Elas estão lá, e se mostram a todos, afirmando seu caráter e não se importam nenhum pouco conosco. Quem perceber isso terá um sorriso diferente, um semblante imutável e comportamento equilibrado diante das adversidades. E quando voltar lá no topo delas e sentir o vento soprando no rosto, ouvirá o que elas têm a dizer.
Descia pela estradinha quando encontrei o Maurício, nos cumprimentamos, conversamos rapidamente. Segui, passei a porteira. Já avistava a rodovia, uns cem metros a frente quando um caminhão, descendo, passou por mim abarrotado de gente, pensei “devia ter aguardado lá e poupado meus pés”, mas que nada, esse final de caminhada teve a sua importância no todo. Eram treze horas e quinze minutos, nos trocamos, embarcamos na van e em meio a uma parada e outra às três horas do dia vinte e seis de maio de dois mil e oito, desembarquei no trevo do Atuba em Curitiba, tomei um táxi, estava ávido por um banho, depois de cinco dias de suor e do pó das montanhas.