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Sol, água e arroz na roubada!
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Serra Fina. Foto: Marcelo L. Brotto

Sol, água e arroz na "roubada"!

Por Marcelo L. Brotto
28 de julho de 2008

       A travessia da Serra Fina é uma das trilhas de montanha mais fáceis do Brasil. Essa afirmativa não é gratuita, todavia seria injustificável se não revelasse um outro lado dessa aventura, freqüentemente tida como caminhada dificílima para o padrão nacional. A justificativa virá no decorrer desse ensaio baseada em relatos de colegas que lá estiveram além da experiência própria do autor em duas ocasiões. Embora possa parecer, o objetivo não é desqualificar as fontes que a trataram como o teste final para o excursionista tupiniquim. Por outro lado, creio que esse percurso serrano tem sido carregado de excessos em conversas de beira de loja. Um respeito quase sobrenatural classifica a Pedra da Mina, seu ponto culminante, como uma montanha distante que exige grande empreendimento. Todavia, o tempo passou e o quarto ponto mais alto do Brasil deixou de ser uma montanha inalcançável a excursionistas inexperientes. Atualmente empresas de turismo operam pacotes de quatro dias na Serra Fina com a certeza da entrega do serviço. Tal fato comprova que não há segredo nem dificuldade que o dinheiro não possa solucionar. Já para quem não se submete aos encantos do mercado a solução se resume em saber administrar os únicos dois elementos necessários ao sucesso da empreitada, o sol e a água. Com eles tudo mais se torna simples e a diversão garantida. Bom, e onde entra o arroz na “roubada”?


       1º dia – 60 horas antes do arroz e da "roubada"

       A travessia inicia numa localidade de Passa Quatro/MG conhecida como Toca do Lobo. Se me permitissem mudaria esse nome pra ‘buraco no barranco’, mas, enfim, ali há um riacho com água fresca onde, ao cruzá-lo, toma-se à trilha que segue a inclinação da encosta florestada e sobe - como era de se esperar. Logo a mata dá lugar ao campo, com visual para Oeste onde estão o Pico dos Marins e Itaguaré e Sul onde se vê a cidade de Cruzeiro e o vale do Paraíba. A partir desse ponto é curioso observar o minério que brilha exposto no leito da trilha, acreditando ser quartzito, afinal o nome da montanha é esse (foto 1). Adiante é possível e recomendável ouvir o som de uma cascatinha à direita do caminho. É ali que se deve abastecer de água pelas próximas 24 horas. Em seguida a trilha toma maior inclinação até o ponto onde inicia a crista que leva ao Alto do Capim Amarelo. Esse também é o primeiro lugar de onde se avista a Pedra da Mina e é bom não se impressionar com a distância até ela (foto 2).


Foto 1: trecho do morro do Cruzeiro ao Quartzito


Foto 2: trecho do morro Quartzito ao Alto do Capim Amarelo

       Olhe com atenção a próxima montanha pois a ilusão de ótica pode enganá-lo. Desse ponto o Capim Amarelo parece curvar-se, dando a impressão de uma inclinação suave e a despeito do meu julgamento, dei uma hora até o cume. Pura ilusão! Levei duas horas e meia. É uma subida semelhante à crista norte do Ferraria/PR. Por algum motivo essas montanhas são suficientemente íngremes para vedar qualquer ascensão rápida e ainda tripudiam dando à mostra o cume de qualquer ponto da trilha. Talvez pra quem suba de “ataque” o tempo não seja tão dilatado.

       O trecho a seguir começa com uma descida por campo baixo e rocha, prosseguindo por um espinhaço estreito e alcançando a primeira corcova. Daí em diante surge o capim-de-anta que se estende pela longa crista, em aclive constante até atingir o antecume, onde surge a primeira clareira pra acampamento. Dali a trilha avança pelo interior da mata, ganhando inclinação até o cume, a 2491 metros de altitude. Agora é sentar e descansar, olhar pra baixo e compreender o que eu disse sobre ilusão de ótica. Se você chegou até aí, saiba que venceu o maior obstáculo de toda a travessia, considerando que o desnível é de quase um quilômetro e que sua carga de víveres está praticamente intacta. Por isso costumo dizer que após o Alto do Capim Amarelo ‘é só alegria’.

       O cume estava lotado, então juntei a minha turma e desci pela mata até uma baixada coberta por capim-de-anta onde descolamos algumas clareiras e de onde se avista o próprio Capim Amarelo (foto 3). Até ali tinham se passadas oito horas desde o início, muitas fotos e uma satisfação imensa de estar novamente no coração da Mantiqueira. Comigo a mochila de 25 quilos repleta de boa comida e seis litros de água que se transformaram em chá, café e no melhor estrogonofe de toda a Serra Fina (receita com o chefe Vicente). Noite de lua cheia, temperatura caindo e a Pedra da Mina logo ali.


Foto 3: Local do acampamento, de onde se avista a cumeada 'Serra Fina-Melano'.


       2º dia – 36 horas antes do arroz e da "roubada"

       Barraca congelada é o cotidiano. O frio cede ao sol, afinal macaco velho não se molha. Água é sinônimo de frio, por isso não recomendo a travessia com chuva, além de não ver nada você ainda vai se molhar - redundante, não?!.

       Em direção a próxima montanha a trilha atravessa uma bela mata interrompida por enclaves de campo que possibilitam o pernoite. Deixando a mata a progressão se dá sobre rocha íngreme no flanco Oeste da cumeada Serra Fina-Melano. A partir do primeiro tope, surgem vários outros em forma de crista que se curva lentamente à direita. Um traçado emocionante, sem dúvida. Chegando ao topo a trilha prossegue com poucos altos e baixos, atravessando adiante um colo onde normalmente há água empoçada - lá pra frente tem água pra beber sem sapo. Pouco mais além surge um mirante alçado de frente para a Pedra da Mina. Ali vale a pena parar por alguns minutos e fotografar (foto 4).


Foto 4: Pedra da Mina vista ao centro.

       A trilha continua descendo à esquerda por mais uma crista que se curva lentamente à direita rumo ao próximo curso d’ água. A superfície é rocha e vegetação campestre, o que facilita a progressão. Após transpor uma baixada coberta por capim-de-anta, volta a subir por um espigão rochoso onde se vê a cachoeira vermelha. Dali a trilha sobe em direção à Mina pelo espigão até dobrar a direita ao encontro do rio claro. É uma boa oportunidade de fazer um lanche e abastecer de água antes da ascensão final. Então, a trilha segue na direção Sul sobre rocha e aos poucos torna a direcionar para o objetivo principal, subindo, é claro! Esse trecho é dos meus preferidos, dali se avista a escarpa Sul da Pedra da Mina além do despenhadeiro e cristas que encontram o vale do Paraíba. A rampa derradeira inicia com rocha, passando para campo repleto de caratuvas (Chusquea pinifolia) e finalmente rocha até o cume. Se não me engano era uma da tarde quando o Maurício e eu aportamos a 2797 metros de altitude.

       A vista de lá é algo tocante. A montanha reina absoluta nessa Serra e nenhuma outra mede forças, apenas as Agulhas Negras almejam tal altitude e poder de conduzir nosso olhar sobre sua forma de austera. Estamos sobre um gigante Sul-Americano distante dos Andes, em meio a uma flora que certa vez esteve conectada a este, sentados sobre rocha que foi trazida a tona das profundezas há muito tempo e respirando um ar tupiniquim que inúmeras vezes passou por aqui, milênio após milênio, sol após sol (foto 5).


Foto 5: Vista Leste a partir do cume da Pedra da Mina (Völtz e Brotto).

       Foto 6 , foto 7 , foto 8 , foto 9 , foto 10 , foto 11 .

       No meu ritmo acredito ter completado 13 horas desde o início. No caso de uma caminhada de “ataque”, como fizeram Natan e companhia, o tempo pode ser reduzido para apenas 6 horas desde a Toca do Lobo até o cume da Mina. Não é preciso ressaltar a ausência de dificuldade em transpor a vegetação ao longo da trilha, caso contrário o tempo não seria tão reduzido. A explicação é óbvia e está atrelada justamente a altitude da Serra da Mantiqueira que reflete em sua vegetação e clima, ou seja, suas montanhas não são tão baixas a ponto de suportar o inferno verde típico da Serra do Mar, por outro lado também não são tão altas como Andes e seus glaciares.

       O acampamento pode ser montado no cume ou mais abaixo onde há uma superfície sedimentar aplainada. Ao anoitecer recomendo uma boa refeição, no nosso caso macarrão com calabresa ao molho rosê acompanhado de vodka com cataia. Ou então você pode fazer como a Aline, que comemorou seu aniversário assoprando as velinhas assentadas sobre um pequeno montículo chamado Pedra da Mina.


       3º dia – 12 horas antes do arroz e da "roubada"

       Pra quem está na montanha mais alta, acordar pra ver o sol nascer é tarefa aguardada com entusiasmo... Entretanto, esticar o sono a essa altitude também é algo especial, que eu não dispensei. Depois do desjejum e do ritual de desmonte do acampamento, reuni meus companheiros no cume para então iniciarmos a descida. Já ali tive o pressentimento de que e caldo iria engrossar, visto que o Pico dos Três Estados não comportaria tantas barracas. Recomendei aos meus companheiros, portanto, que seguissem adiante em busca da próxima área de acampamento. Tudo isso por causa do grande fluxo de pessoas durante o feriado, o que me fez jurar nunca mais voltar lá numa ocasião dessa.

       Do cume o caminho desce pela crista Sudoeste sobre rocha aderente até alcançar o platô chamado Ruah. Esse é um lugar totalmente coberto pelas duas espécies dominantes de Cyperaceae e Gramineae. Outra característica dali é que, por se tratar de uma superfície baixa cercada por montanhas, recebe e armazena todo o ar frio que escoa pelas encostas. É como imaginar o movimento de um líquido sendo despejado no alto, indo se acumular na baixada. Isso é mecânica dos fluídos e não por acaso quem dormiu lá embaixo teve de enfrentar 10º negativos, enquanto nós, cerca de 300 metros acima estávamos com 5º negativos.

       Atravessar o Ruah não tem nada de difícil, basta seguir a direção do rio verde que afunila entre duas montanhas. Já ouvi muita reclamação do tipo: “o capim é tão alto que não se vê para onde está indo” ou “a trilha é muito fechada e o capim fere a pele”, enfim, é tudo balela. Prometo que vou convidar os reclamantes pra conhecer a Serra do Mar do Sul. Aqui o camarada só entra no mato se souber rezar e chorar.

       Caminhamos pela margem do rio até onde ele vira à esquerda e desaparece num canyon. É o local para abastecer de água, o último até o final da trilha. Desse ponto o caminho toma a direção da próxima cumeada e aos poucos os capins cedem lugar a vegetação rupestre. Talvez uma outra ilusão de ótica acontece do alto da Mina em relação à cumeada que segue adiante e aparenta curta duração, quando na verdade, representa um trecho longo que só termina no Cupim de Boi.

       Antes de entrar nessa cumeada aproveite pra fotografar a gigante da Mantiqueira, com seu formato simétrico, semipiramidal. Para o lado oposto se vê a segunda montanha mais bonita dessa Serra, ao menos na minha opinião. Infelizmente não tenho certeza do seu nome.

       Percorri esse trecho na companhia do José Luiz. Só paramos quando a trilha toma à esquerda em direção ao Pico dos Três Estados. Abro aqui um parêntese, pois, resolvi dar um “pulo” na montanha a que me referi. (Leia: Ouça a montanha lhe chamar ). Aproximadamente duas horas depois estava no mesmo lugar. Dali a trilha desce pela encosta rochosa até entrar na mata, seguindo por entre árvores e bambus, passando por uma ótima clareira para então retomar a subida. Confesso que a essa altura já estava meio cansado, mas era preciso continuar a ascensão através das gélidas nuvens que sopravam de Oeste. Cheguei ao cume precisamente às 17 horas e 12 minutos e como já era de se esperar ele estava lotado. Em meio às nuvens não havia o que ver, então tomei a descida entre capim-de-anta até reencontrar os companheiros.

       Terminei a metade final da crista na companhia do Fernando, Jonatan e Marcelo Meyer. Caminhamos até encontrar mais alguns da turma acampados em local desconfortável entre o Três Estados e o Bandeirante. Aí se instalara a “roubada”. O Völtz que carregava a barraca era meu companheiro de abrigo, não estava ali, fora adiante. José Luiz resolvera ficar na companhia de Marcel. Ele seria o responsável pela janta naquela noite que prometia grão-de-bico ao couri. Eu carregava o fogareiro e as panelas, decidi seguir através do nevoeiro na escuridão da noite, a caça do Völtz e do Vicente. Logo adiante fui barrado por alguns montanhistas que estavam assustados com as nuvens (que não eram de poluição). Perguntavam-me atônitos se eu tinha certeza do que estava fazendo, enfim!?! Após transpor o Bandeirante comecei a ouvir vozes, que em virtude do vento gelado na minha orelha pensei se tratar do mal da montanha, mas eram vozes mesmo: – Brotto, é você? – E quem mais poderia ser? - respondi ao Celso. Ele e Greissy também estavam a procura de um lugar melhor pra acampar. Reunidos, decidimos seguir até a floresta de que me lembrava, um lugar perfeito em meio às árvores, sem vento, sem frio. Foi então que ouvi a voz do Völtz e do Vicente. Eles estavam acampados ali, junto a mais quatro colegas paulistas.

       Após ajeitar o acampamento, inventariamos o que tínhamos pra janta. O Vicente carregava arroz e creme-de-leite, o Rafael tinha uma lingüiça defumada e eu tinha queijo e alho. Juntando tudo dá o arroz na “roubada” e foi graças a ela que encontramos a melhor área de acampamento, com direito a lua no céu e mate, papo-furado e muita alegria. As horas que se passaram foram, definitivamente, as melhores de toda a travessia!

       4º dia – Depois do arroz e da "roubada"

       Sol pelo quarto dia consecutivo é sorte e bom planejamento. Até aqui não havíamos enfrentado qualquer dificuldade considerável. Será que o bicho papão estaria na última montanha? De certo que não.

       Deixamos o acampamento já com saudade da Serra Fina. No cume do Alto dos Ivos a 2513 metros, mais uma vez, fomos retidos pela paisagem deslumbrante das Serras a perder de vista (foto 12). Logo, todos do nosso grupo estavam reunidos com exceção do Maurício, cada um com sua história e a paixão que nos move montanha após montanha. Mas, onde estaria o Maurício? Só mais tarde descobrimos que ele caminhara direto ao fim da trilha, precisamente em 12 horas da Pedra da Mina até a fazenda. Se jogarmos mais 12 para o outro lado da travessia temos 24 horas, mas considerando uma mochila de “ataque” em vez de uma cargueira seria possível percorrê-la em 12 horas tranqüilamente. Só no Paraná, estado onde resido, lembro prontamente de cinco travessias muito mais exigentes do que a Serra Fina. Mais uma vez a explicação é óbvia e não poderia ser diferente, a vegetação é a variável primeira de toda montanha tropical com menos de 3000 metros de altitude.


Foto 12: Serra Fina vista do Alto dos Ivos com o Pico dos Três Estados no centro.

       Do Alto dos Ivos a trilha desce sobre um espigão rochoso, hora mais inclinada, hora menos, por vezes sob a mata ou entre capins até atingir o interior da protetora floresta montana. Aí sim nos sentimos em casa. Bastou, então, seguir o caminho que leva a um leito de uma antiga estrada, que nos levou à água. Paramos, sorrimos, lanchamos e seguimos até a BR onde o transporte já nos aguardava para então retornarmos a cidade dos pinhais.

       Uma grande obra

       Sem dúvida alguma, a travessia da Serra Fina é das mais belas do Brasil, uma invenção digna de quem não se contentou em subir apenas a mais alta. Segundo Ortenblad (2003), sua conquista foi obra de integrantes do Clube Alpino Paulista e durou doze anos para ser completada. Certamente enfrentaram uma mata árdua, repleta de obstáculos, pronta a repelir qualquer tentativa de interiorização, entretanto, nunca houve dificuldade que superasse o sonho e a glória. Enfim, deixo a minha reverência aos artistas que traçaram a trilha sobre as mais belas cristas do Brasil meridional.

       Missão possível

       Enquanto aguardava a digitalização das fotos que ilustram esse ensaio a revista Caminhos da Terra (nº 185 de julho/2008) publicou uma matéria sobre a Serra Fina, escrita por Thiago Medaglia, coincidentemente baseada na mesma data em que estive lá. Reconheci o autor e seu grupo, o qual foi conduzido por uma agência de turismo. Dos guias pude notar grande experiência, além de um planejamento perfeito e bem executado. Certamente recomendarei o nome deles pra quem interesse uma aventura sem risco. Do autor, estranhei a afirmativa de que “A Serra Fina é a trilha de montanha mais difícil do Brasil”, visto que ele não experimentou o peso da barraca, aparelhagem de cozinha, nem teve de navegar entre “capins que tapam a visão e bambus cortantes”. Mas, convenhamos, a matéria não seria tão chamativa se trocássemos a palavra “difícil” por “fácil”.

       Em quanto isso, abaixo do trópico...

       Enquanto terminávamos a caminhada com tranqüilidade, meu amigo Beto Joly rasgava o mato a dentada na Serra do Ibitiraquire. Sua façanha foi subir nada menos do que quinze montanhas naqueles quatro dias. Acredito que se ele tivesse empreendido o mesmo esforço na Serra Fina seria capaz de percorrer essa travessia três vezes no mesmo tempo. Mas, se ele quisesse percorrê-la de “ataque” precisaria apenas de água, sol e uma lua cheia.

       Esse ensaio é dedicado aos companheiros José Luiz, Völtz, Vicente, Celso, Greissy, Aline, Arce, Carol, Otaviano, Fernando, Jonatan, Maurício e Marcelo Meyer.








Referências bibliográficas:

CECCHI, J.C. (Coord.). Campos de Altitude. Editora Index, 1989.

MEDAGLIA, T. Missão Possível. Revista Caminhos da Terra - Aventura, expedição, natureza. nº195, p.27-37, julh/2008.

ORTENBLAD, A. Serra Fina. Revista HEADWALL - Escalada e Aventura. nº5, p.66-68, jan/fev 2003.

ONG de proteção à Serra Fina --- www.serrafina.org



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