Serra do Marumbi
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Uma montanha imersa na escuridão. Uma floresta saciada de chuva. Uma pálida neblina sobre a Estação. Por vezes uma fina garoa ou então uma forte chuva. Assim é o Marumbi. Dias brilhantes durante o inverno. Dias nebulosos e tristes durante o verão.
Era este o panorama que tínhamos em vista naquele 2 de janeiro. Sob o antigo prédio da Estação eu e o Aranha esperávamos pelo menor sinal de melhora. Nossa experiência, entretanto, nos dizia que não veríamos o sol tão cedo e isso evidentemente não nos agradava. Aqueles quatro dias de mau tempo haviam também nos tirado a paciência. A rotina nos deixara ansiosos e talvez até mal humorados.
Mas do que poderíamos reclamar? Estávamos sob a bênção da majestosa Floresta Ombrófila Densa (Floresta Atlântica). Uma floresta úmida por natureza.
Entramos esperançosos no quinto e último dia de nossa expedição. Sabíamos que as nossas chances estavam se esgotando. Jantamos tarde, à 1:15 h da madrugada. Fomos dormir às 2:00 h e até esse momento tudo permanecia nublado. Colocamos o despertador para às 4:00 h. Quando ele tocou, levantei e pude, então, reconhecer minha perseverança. Calcei a bota molhada e fria, algo absolutamente desagradável para quem se encontrava dentro de um saco de dormir. Saí e surpreendentemente vi estrelas entre a copa das árvores num céu absurdamente negro. Um milagre! Quase não acreditei. Um verdadeiro milagre!
Com as lanternas de cabeça, partimos pela trilha noroeste rumo a Ponta do Tigre para depois seguirmos ao Olimpo.
Na escuridão da madrugada a floresta entoa os sons dos animais de hábitos noturnicos. O ar é puro, fácil de respirar. A "pedra da marmelada" é menos assustadora na penumbra. Na canaleta o pequeno riacho verte volumoso em tempos de chuva. Do paredão da corrente a visão é esplêndida. Pequenas luzes acompanham o sinuoso traçado da Graciosa. No meio da Serra a Usina do Marumbi reluz com uma pérola. Um mar de nuvens plana sobre outro mar. É a baía de Antonina. Mais alto do que nós sobrevoam nuvens vindas do litoral. Acima delas o céu clareia. O sol está preste a emergir do Atlântico Sul. A mata alto-montana nos acompanhará daqui por diante. No vale dos perdidos um tucano qualquer ecoa seu canto. Bem a nossa frente uma massa colossal e escura aparece entre a neblina. É a Esfinge. As pedras molhadas são traiçoeiras. Lágrimas caem sobre nossas cabeças. Os paredões do vale choram copiosamente. Frio e vento assolam a Ponta do Tigre. É tudo muito pálido e triste. Dali, por entre arbustos floridos, sobre a crista do Gigante os paredões afilam-se. Subindo mais alto que as nuvens, em busca dos primeiros raios de sol, para afastar o frio ou até a morada dos deuses. Enfim, o Olimpo, 1.539 metros s.n.m. Ali as cortinas se abrem em breves momentos. Vemos Paranaguá, Ilha do Mel, Espigão do Feiticeiro, Ibitiraquire e Morro Sete. Venta forte no alto das Serras. Nuvens nascem e morrem ao redor dos cumes. Tudo é prateado entre a umidade que nos cerca. Buscamos a felicidade e a encontramos, portanto: - Feliz ano novo aqueles que a paz sabem onde encontrar! Felizes montanhas aqueles que sabem a chuva vencer!! Feliz retorno aqueles que a saudade daqui devem carregar!!!
A trilha frontal se transformara em uma cascata. Correntes e grampos garantem a segurança na descida. Toda cautela é necessária. A montanha verte abundante criando novas cachoeiras onde antes não havia nada. O sol luta para brilhar entre as nuvens e iluminar a ferrovia, a Serra da Farinha Sêca e o Salto dos Macacos. A mata está densa. Bromélias e outras plantas mostram-se vigorosas. Pequenas frutas em muitas árvores surgem ao redor da trilha. É tempo de abundancia na floresta. A cachoeira dos marumbinistas e sua piscininha cor de ouro estão belas como sempre. Vamos sentir saudade desse lugar, pensamos.
Então, até a próxima meu querido Marumbi!
por Marcelo Brotto
Curitiba, 10 de janeiro de 2004