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A Queda De Um Mito
Ponte São João. Foto: Marcelo Brotto

       Pra começar essa estória vou enunciar tudo que aconteceu de ruim naquela desastrosa segunda-feira, 19 de julho de 2004. E pra isso vou pedir a ajuda do meu colega Alfredo, que esteve comigo presenciando a tragédia que literalmente pôs abaixo um dos maiores mitos do Marumbi.

       Chovia muito, fazia frio, os Hotweiller haviam desaparecido, estávamos sem energia elétrica, sem água, sem as cariocas (que ainda não conhecíamos mas tínhamos a esperança de serem gatas!), sem o Manuel que até a meia-noite estivera desaparecido, e por fim o trem...Ah, o trem...

       Calma! Explicaremos tudo isso a seguir.

       Estávamos sob a pior frente fria que já vi desabar sobre o Conjunto Marumbi. Toda vila estava sem luz devido a algum curto circuito na antiga rede elétrica da Estação. Conseqüentemente não teríamos geladeira e nem banho quente. Não bastasse isso, ficamos sem a companhia das escaladoras cariocas que viriam se hospedar na casa do CPM. Sem falar nos filhotes de Hotwieller que haviam desaparecido. Essa é outra longa história, porém, basta dizer que os marumbinistas estavam cuidando dos cãezinhos até que eles encontrassem um outro lar. E ainda o trem e o Manuel. Bom...

       Era por volta das 9:45h da manhã quando resolvemos descer até a Estação pra ver o trem de passageiros chegar. Nos abrigamos na sede do Parque evitando assim a chuva e o vento. Ali ficamos a observar a movimentação de um grupo de escoteiros que se preparavam para ir embora. Foi quando dois deles se aproximaram perguntando: "Vocês sabem se o trem não vai vir mesmo? Um cara disse que a ponte São João caiu".

       Automaticamente pensei: Coitados dos escoteiros! Já estão zoando com eles.

       Enquanto isso Fredy tentava explicar: "Não, não, não! Esperem uns 15 minutos pra ver se o trem não vem. Alguém deve ter sacaneado com vocês!" Afirmando veementemente: "A ponte São João não cai!".

       Dando-se por satisfeitos os dois escoteiros deram as costas retornando ao prédio da Estação. Nisso chegou o Manuel com seu guarda-chuva. Era ele quem estava responsável pelo Parque naquela manhã. Gentilmente o cumprimentamos: "E aí, tudo beleza?".

       No que ele de pronto respondeu-nos, disparando a bombástica notícia: "Mais ou menos. Caíram 30 vagões da ponte São João".

       Retruquei: "Como é que é?!?"

       O Alfredo: "Mas que horas foi isso?".

       E ele: "Foi meia-noite. A locomotiva é essa que está estacionada ali". Respondeu-nos já tentando contato pelo rádio.

       Pasmos com o que acabávamos de ouvir e sem entender a gravidade da situação, nos entreolhamos já com a idéia de ir até lá fotografar o desastre. E foi exatamente isso que fizemos. Eram 11:10h quando deixamos a Estação sob forte chuva. Em poucos minutos tivemos a primeira visão da ponte.

       Entre a espessa neblina pudemos identificar um empilhado de vagões retorcidos e muita soja esparramada sobre a vertente esquerda do vale. Sinceramente não me arrepiei nem um pouco com isso, mesmo porque meu corpo já estava meio inerte devido a um frio de 6 ou 7ºC.

       Tentamos tirar algumas fotos dali mesmo, mas a neblina não permitia. Subimos uma pequena encosta do lado do trilho e ali ficamos por uns 10 minutos. A neblina não passava. O jeito foi ir até a cabeceira da ponte. Logo a frente tinha uns 15 operários corrigindo o trilho, dando passagem à locomotiva. Mais alguns metros e pronto, estava tudo aos nossos olhos. Tiramos muitas fotos, de vários ângulos, de vagões retorcidos, fora dos trilhos, sobre a ponte, no fundo do rio, muita soja e um bom pedaço da ponte São João faltando, onde, horas antes do acidente subira um trem cheio de passageiros.

       Caro leitor; tente imaginar a situação. Para nós que sempre vivemos ali aos arredores do Marumbi, que periodicamente viajamos de trem sobre a centenária estrada de ferro, nunca nos passou pela cabeça que a maior de todas as pontes pudesse vir abaixo. E de repente, naquela tempestuosa segunda, ali estava ela, parcialmente destruída. O mito estava literalmente derrubado!

       Deixarei que a fotos falem por si. Aliás, acredito que fomos as primeiras pessoas a fotografar o acidente. Na terça-feira passou um orgulhoso repórter da Folha de Londrina com sua poderosa câmera, exclamando: "Sou fotógrafo!". Logo que ele se afastou olhei pro Alfredo e disse: "E nós somos fotógrafos do Iviturui, seu mané!". Mas a história não acaba aqui. A segunda-feira ainda estava em curso.

       À tarde fomos com o Manuel se aquecer no fogão a lenha da casa do gerente do Parque, o Juliano, que aliás, subira as pressas para o Marumbi. Algum tempo depois o Manuel saiu como quem vai ao alojamento. Ficamos por ali, batendo papo e secando as roupas no calor do fogão. Lá pelas 10:30h da noite o Juliano começou a se preocupar com a demora do Maneco. Foi até o alojamento, mas não o encontrou. Combinamos então que Alfredo e eu subiríamos pra jantar e caso ele não voltasse iríamos procura-lo.

       Descemos as 11:40h e ele ainda não havia aparecido. O Juliano nos emprestou um rádio e duas capas de chuva para irmos até a Estação Eng. Lange, pra ver se ele estava na casa do Carlinhos.

       Chegando lá batemos várias vezes na porta, chamamos e ninguém respondia. Contatamos o Juliano, e ele pediu para que insistíssemos. Resolvi bater nas janelas, quando de repente uma delas se abriu, e vi uma pessoa dormindo. Deveria ser o Carlinhos. Então perguntamos se o Manuel estava ali, e ele respondeu que sim. Que ele teria ficado por ali por causa da chuva. Aliviados repassamos a notícia pro Juliano, retornando a Estação.

       Foi assim que acabou aquela segunda, ou melhor, foi assim que começou a terca-feira, meia-noite e meia, de baixo de chuva e com muita diversão. Afinal de contas, não era pra isso que estávamos lá?

por Alfredo Souza e Marcelo Brotto
Curitiba, 20 de julho de 2004


Vagões empilhados do lado esquerdo do vale do Rio São João. Foto: Alfredo Souza Os 3 vagões que ficaram em cima da ponte. Foto: Marcelo Brotto Foto: Alfredo Souza

Foto: Alfredo Souza Foto: Alfredo Souza Foto: Alfredo Souza




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