Serra dos Órgãos
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Texto e fotos por Marcelo L. Brotto
Publicado em 1 de julho de 2008
“Embora eu tenha visto em outras partes do Brasil muitas e variadas florestas primitivas, nenhuma me pareceu mais bela e mais amena do que aquelas que, perto da cidade do Rio de Janeiro e recobrindo as encostas dos montes, recebem o nome de Serra do Mar [Serra dos Órgãos](...) Estas florestas me agradaram muito mais que as outras e ficaram para sempre gravadas no meu espírito, não só porque fossem primitivas e, com isso, um presente para os meus olhos espantados, mas na verdade porque excedem em beleza e suavidade."
Carl Friedrich Philipp von Martius, 1817.
Essa era a paisagem dos arredores da Serra dos Órgãos por volta de 1817. Quase cento e noventa anos após não haveria dúvida de que a floresta cedera à morte, deixando à planície um legado de cadáveres carbonizados e espíritos que só encontrariam paz numa fortaleza. A Serra dos Órgãos é essa fortaleza, guardiã de tudo o que sobrou da lendária floresta tropical fluminense.
Enquanto a Guanabara sucumbe à poluição e a baixada dá significado ao nada, surge no horizonte desse caos um conjunto de montanhas capaz de dobrar a cobiça que levou ao colapso a sociedade cafeeira na primeira metade do século vinte. A seu favor apenas uma beleza natural hipnotizante. Não por acaso, foi declarada Parque Nacional em 1939, época em que poucos entendiam a importância da conservação da natureza, mesmo que muitos presumissem o deserto em que se transformaria o vale do Paraíba.
O que temos hoje é uma pérola, símbolo da natureza em sua plenitude e também palco maior da escalada em rocha no Brasil. Lar dos senhores das alturas, bromélias e homens se agarram como podem aos órgãos que parecem ter surgido das entranhas da Terra. Escalavrado, Dedo de Deus, Dedo de Nossa Senhora, Agulha do Diabo, Garrafão. São algumas das obras de arte, em gnaisse e granito, ávidas por um olhar de deslumbre. Aliás, deslumbre é algo comum por aqui.

Vista do alto da Pedra do Sino.
E não é preciso ser um super homem pra conhecer a Serra, pois o tempo se encarregou de desvendar o melhor caminho. Partindo de Teresópolis é possível chegar a Pedra do Sino,
ponto mais alto, em menos de cinco horas. O traçado é ótimo e até hoje não acredito ter subido a 2263m sem fazer esforço.
Lá do alto o Rio mostra a sua cara, cheia de feridas, é verdade, mas também de Serras a perder de vista. E como não comentar, a ravina que forma o rio Soberbo,
esta sim é impressionante e digna de tal batismo. Aliás, por conta de sua fama cheguei ali pela primeira vez como quem retorna ao lar. Olhei pra elas como se fossem artistas da TV, mas eram apenas rochas, tão íntimas de meus sonhos e com nomes tão fortes, mas apenas rochas. Dedo de Deus, Açu, Garrafão, Agulha do Diabo. Não precisei de guia pra identificá-las, tampouco de roteiro para as fotos que surgiram naturalmente.
Definitivamente, a Serra dos Órgãos só poderia estar no Rio de Janeiro mesmo. Eterna dicotomia entre o certo e o errado, entre o sagrado e o profano, entre a destruição e a conservação. Até quando essa paisagem será encantadora? Não me atrevo a sugerir, pois às vezes nossas previsões se tornam reais.

Pico São Pedro visto do alto da Pedra do Sino.