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Azul Cristal
Travessia Araçatuba - Morro dos Perdidos

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Araçatuba. Foto: Marcelo Brotto

Azul Cristal

Por Marcelo L. Brotto
22 de maio de 2003

       Mas os dias que estes homens passam nas montanhas, são os dias em que realmente vivem. Quando as cabeças se limpam das teias de aranha, e o sangue corre com força pelas veias. Quando os cinco sentidos recobram a vitalidade, e o homem completo se torna mais sensível, e então já pode ouvir as vozes da natureza, e ver as belezas que só estavam ao alcance dos mais ousados.

Reinhold Messner

       "Quando eu era jovem subia nos dias mais frios. Saia bem cedo, com menos de zero graus. O capim ficava todo branco, coberto pela geada e o céu azul, tão limpo que a gente podia ver os navios no oceano. Você podia ver o mundo! Até onde seus olhos conseguissem chegar" - dizia Seu Amadeus ao recordar antigas investidas ao Araçatuba, montanha campeira com 1.673 metros acima do nível do mar. Enquanto prestavam atenção nas histórias contadas pelo velho os amigos Marcelo, Alexandre e Regina preparavam-se para mais um dia de serra. A princípio as condições climáticas apresentavam-se idênticas aos fatos narrados, como se aquelas palavras tivessem simplesmente se materializado na fria manhã de domingo. Para comprova-las, entretanto, seria necessário chegar até o final e ver com os próprios olhos as belezas descritas pelo sertanejo.

       Tudo precipitou na íngreme face ocidental, caracterizada pelas samambaias típicas das áreas degradadas por incêndios florestais. Cerca de 50 metros acima já podiam contar com o horizonte norte, composto pelas serras da Baitaca, Ibitiraquire, Melança e Marumbi. Prosseguiram através do pasto atravessando o primeiro setor de "boulders" de onde obtiveram um bom panorama das cristas e da culminância principal. Dali partiram em direção à famosa pedra do Bráulio, um monolito que o nome auto-explicativo dá a idéia da forma. Encontraram ainda, próximos a tal pedra, orquídeas e bromélias deslumbrantes, próprias dos campos altaneiros. Seguiram sem pressa, parando de vez em quando para beber um mate gelado ou fazer um registro fotográfico. A paisagem ajudava. O capim amarelado pelo rigor da estação contrastava com o azul profundo, aditivado pelo efeito da lente polarizadora, dando um aspecto de céu andino às fotos. Após atravessarem um pequeno bosque, inflectiram na maior inclinação, caminhando por vezes em zigue-zague ou agarrando-se às pedras. Ao final desta etapa foram agraciados por uma visão extraordinária. De trás de alguns blocos surgiram a cidade e a baía de Guaratuba, bem como as elevações próximas a Caiobá e Matinhos. Um verdadeiro colírio para os olhos. À sudeste o cume os aguardava a poucos minutos de caminhada. Chegando lá puderam compreender o que é "ver o mundo", como dissera Seu Amadeus. Ao sul despontavam as montanhas catarinenses e no sentido contrário era possível identificar a Serra da Virgem Maria, já no Estado de São Paulo. À leste, em primeiro plano, surgiam os campos dourados do Morro dos Perdidos, a densa floresta e o Oceano Atlântico. Um pouco mais à direita sobressaía a crista empinada do Pedra Branca do Araraquara encerrando a cordilheira paranaense. Tal era a cristalinidade do ar que poderiam enxergar tudo para onde quer que olhassem. Por um momento os três marumbinistas bastaram-se a apreciar a paisagem. Em seguida fizeram questão de lembrar de todas as investidas sob mau tempo e todos os apuros que já haviam passado. Pensando em fechar o dia com chave de ouro decidiram descer e acompanhar o pôr do sol a partir do Morro dos Perdidos. Horas mais tarde lá estavam, assistindo a silhueta do Araçatuba emoldurar o crepúsculo. Terminava assim mais um dia de montanha para aqueles que como tantos outros sabem o que é "viver de verdade".

Araçatuba. Foto: Marcelo Brotto




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