Serra da Prata
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Por Marcelo L. Brotto
6 de agosto de 2006
A Serra é um destino. Há quem viva abaixo das nuvens e há quem sonhe em viver acima delas. O prazer e a sorte são irrestritos. Por isso há quem garimpe ouro e quem se contente com a prata.
A História
E foi por causa desse metal que nunca existiu que a montanha ganhou seu nome, a Torre da Prata, gigante do alto de seus 1.497 metros, vigia a costa Atlântica e a planície de Paranaguá. Conta a lenda que fôra desta cidade que os primeiros avistaram prata em suas encostas, o que não é verdade. Hoje se sabe que a montanha abriga algo muito mais valioso, protegido das mãos espoliadoras por um Parque Nacional.
Alguns buscam a glória. Apesar da lenda instigante ela só foi alcançada no ano de 1.944, resultado de uma das mais interessantes disputas entre montanhistas paranaenses pela conquista de uma montanha. Galgando o difícil caminho através da face oeste a partir da estrada da limeira estava Fernando Andrejewski, enquanto que Waldemar Buecken (Gavião) e Antonio Setengel Cavalcante (Canguru) optaram pela face leste a partir da estação ferroviária de Alexandra. Por fim sua conquista ficou com a dupla Gavião-Canguru, que no dia 8 de abril de 1.944 fincou os pés no topo virgem da Prata.
A Paisagem
Pra quem anda por essas bandas a satisfação os aguarda no cume. Particularmente a espera para conhecer a Torre durou dez anos. Durante esse tempo me contentei em admira-la ao longe, me acostumei a ver seu cume emergindo solitário nas nuvens e seu campo reluzindo sob a suave luz do entardecer. Lembro-me muito bem da sua forma marcada por cristas incessantes e vertiginosas próximas ao topo e também da desafiadora floresta que a cobre quase por completo.
Por muito tempo guardei seus segredos na memória e pude comprovar que eram todos verdadeiros. A distância interminável da trilha, suas variantes (não esqueci de pegar à esquerda na tal bifurcação), seus carrapatos, malditos carrapatos!! Voltei com quatro pra casa. Também suas grandes árvores, sua providencial água próxima ao cume, a clareira ao lado da pedra e lógico, a pedra do cume.
A paisagem deslumbrante formada por ilhas, baías e o oceano interrompido pela costa, o substituir do azul pelo verde da exuberante floresta que desiste da planície e avança encostas acima. As rochas que rompem o plano e emergem na cordilheira que, em seu sentido norte-sul, reservou apenas a uma montanha o direito de sobrepujar as nuvens. Reservou-nos o direito de estar em seu cume neste dia.
A Ciência
Alguns buscam o conhecimento. Estaríamos ali por uma nova espécie? Até que tenhamos a certeza a dúvida será nossa companheira. Um futuro florestal e um biólogo, como verdadeiros naturalistas empregando o tradicional método cartesiano, retirando o objeto de estudo de seu habitat natural para analisa-lo separadamente. Entretanto, há coisas que não se podem separar. A beleza paisagística deste espaço brasileiro é uma delas.
A Destruição
A ganância faz ofuscar a beleza das coisas. Por que possuir é mais do que pertencer? Infelizmente tivemos a decepção de constatar a mão de outros homens na montanha. A falta absurda da palmeira juçara que deveria abundar no sub-bosque além do lixo no cume e árvores centenárias cortadas pra fazer fogueira, uma delas certamente com mais de 200 anos de idade. É a ignorância daqueles que vivem abaixo das nuvens. Caçadores, palmiteiros e oportunistas. Como condena-los se a sorte e o prazer parecem irrestritos?
Perguntei pro Fernando se aqui nesta floresta não viveria uma pintada e ele me respondeu que não, ali não. Disse ainda que certamente as onças serão extintas pela caça, que isto é apenas uma questão de tempo, que a preservação da natureza é uma causa perdida e que a nós basta adia-la ao máximo. Então me perguntei por que ainda defendemos nossa natureza. Certamente é porque amamos essa terra.
A Conservação
Para a maioria das pessoas, entretanto, o sentimento não esse, é de temor. Quem nos desconectou da natureza?!? René Descartes? Bom, este é um assunto pra outra oportunidade...a verdade é que a beleza de que falamos não é vista por todos. É estranho ser imune aos perigos da floresta. Não temer cobras, aranhas, nem a escuridão, querer dar de cara com uma onça ou fazer pouco caso do desconhecido. Assim somos nós, homens que andam pelos confins da Serra em busca de perguntas e respostas. A natureza vai resistir? Talvez subir a Torre da Prata nos ajude a enxergar adiante.
Entre tantas perguntas sem resposta, montanhistas e caçadores ainda andam através do mesmo chão, carregando ou suas espingardas ou suas câmeras fotográficas e, se há tantos destinos a seguir, talvez eles se cruzem no cume de uma montanha.