Serra da PrataSerra
do Capivari
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Texto e fotos por Marcelo L. Brotto
Publicado em 27 de dezembro de 2011
Há uns dez anos atrás o melhor material de referência para uma incursão a um lugar desconhecido na serra eram as cartas topográficas do IBGE. Isso mudou um pouco depois do Google Earth, software que disponibiliza excelentes imagens orbitais na internet. Dependendo da resolução dessas imagens é possível ver até mesmo o traçado de uma trilha em meio à vegetação. De qualquer maneira, a melhor fonte de informação para quem vai a um lugar desconhecido continua sendo a descrição feita por quem já esteve lá.
Mas enfim, como eu queria testar a fonte de informação do Google Earth resolvi não pegar dica alguma sobre o lugar que pretendia ir, uma pequena cachoeira na face leste da serra da Prata, a uns dez quilômetros do centro de Matinhos. Ao abrir a imagem do local o Google Earth mostra algumas fotos incluídas por um excursionista. Pelas fotos pude perceber que a trilha era aberta, curta, praticamente uma linha reta. A cachoeira também fica perto de uma montanha que vinha namorando há algum tempo. Então resolvi encarar a trilha...
O início da trilha fica à direita de uma curva da estrada entre Alexandra e Matinhos, logo depois do parque águas caras – digo, claras. Saindo da estrada à direita por uma estradinha de terra é preciso andar uns 50 metros até a entrada da trilha. Ali ela avança adentro da vegetação por um traçado bem definido. Ao todo a trilha segue uma direção única e bem definida, com algumas ramificações que servem apenas para quem procura cortar palmito. Quem vai à cachoeira só precisa seguir o traçado mais batido o tempo todo e desconsiderar as demais ramificações.
A paisagem no início é formada pela planície litorânea e sua vegetação típica, a floresta de terras baixas. Por um trecho se percebe que a exploração levou as melhores e maiores madeiras, resultando em uma floresta de pequeno porte. A medida que se avança o terreno começa a se inclinar e meia hora depois já é recoberto por uma floresta de grande porte, por onde se ouve a todo tempo, à direita da trilha, o barulho das águas do rio Cachoeirinha que mais abaixo vai cruzar a rodovia.
Sem que o cansaço tenha tempo de aparecer a cachoeira surge à direita após uma hora de caminhada. O salto do Tigre, nome que acompanha as fotos no Google Earth, ou cachoeira da Viúva segundo meu amigo Pacheco, é uma pequena queda de uns seis ou sete metros de altura que despeja suas águas em uma bela piscina cristalina (Figura 1
). Mais acima existem outras pequenas quedas que surgem de dois ou três rios menores. Entre as quedas de cima e a de baixo existe um “escorrega” e uma pequena piscina estreita e comprida (Figura 2
; Figura 3
). Ao lado uma grande laje de rocha quase plana, boa pra quem deseja se deitar e pegar um bronzeado. Ao todo, um verdadeiro parque aquático (Figura 4
).
Fiquei surpreso com a beleza do local e embora não possua uma queda grandiosa como a do rio dos Macacos ou do rio Morato é lugar muito bonito e aconchegante.
Depois de um tempo observando as nuvens cheguei à conclusão que o céu, até então nublado, mostrava tendência de abrir. Decidi investigar a encosta adiante para tentar chegar à montanha que fica ao sul do rio Cachoeirinha. Embrenhei-me no mato tentando seguir alguns rastros de trilha que pareciam avançar em direção ao objetivo. De fato, a presença de palmiteiros e talvez caçadores é notória. Durante meu avanço quase pisei em uma possível cobra coral de uns 50 centímetros. Ela, muito ágil, tratou de fugir sem me dar muita chance para fotografá-la.
Segui cruzando alguns pequenos córregos e valas, até um ponto que pude visualizar a montanha entre as copas das árvores. Ela estava longe e o rumo que eu tinha tomado me obrigaria a fazer uma curva à direta. Continuei por mais um tempo, mas já sem esperança de chegar ao cume. Foi então, que ao passar por debaixo de um grande tronco caído dei de cara com uma jararaca das grandes.
O susto é aquele! Então pensei comigo, segunda cobra “das boas” no meu caminho, mês de novembro, caminhando sozinho fora da trilha. É melhor voltar e aproveitar um pouco mais o parque aquático.
Retornei e parei novamente na cachoeira para mais um banho e umas fotos da paisagem. Depois de um tempo chegou uma rapaziada jovem, provavelmente da região. Traziam refrigerante e alguma bebida alcoólica pra preparar o famoso “tubão”.
Ofereceram-me um refrigerante, que eu neguei. Então resolvi puxar assunto. Perguntei se existiam outras cachoeiras na região. Responderam-me que existiam várias, mas sem indicar onde. Então perguntei se algum deles já tinha subido a montanha, mas eles não conheciam. Insisti, perguntando se eles sabiam de alguém que já tinha subido lá e me confirmaram que sim, mas sem dizer quem. Um deles me disse que adiante era “mato fechado”, como quem diz: - Você é da cidade, não vai conseguir andar nesse mato! - Pensei, deixa pra lá, essa rapaziada nunca caminhou adiante, não vão me esclarecer nada.

Desci até a piscina de baixo e fiquei lá batendo umas fotos. Logo a rapaziada desceu também, começaram a mergulhar e brincar de empurra-empurra. Em seguida escalaram a rampa de rocha ao lado da cachoeira e lá em cima iniciaram uma “guerrinha”, brincavam de atirar uns nos outros pequenos figos que encontraram espalhados no chão (Figura 5
).
Era o que eu faria a uns 15 anos atrás se estivesse com essa turma. Um tanto filosófico esse meu pensamento, mas o fato é que minutos antes eu fotografava os mesmos figos, certamente atribuindo a eles um valor estético ou conservacionista, como quem diz – Olha só como a natureza é pródiga!
Pensei – O que eu via de errado na atitude dessa molecada? Ir pra cachoeira, tomar “tubão”, dar uns mergulhos, brincar de sacanear os amigos, no final o resultado era a mais ingênua e pura alegria. Logo, percebi que não havia nada de errado nisso. Tentei imaginar qual era o valor que aquele lugar representava para aquela molecada.
A cachoeira está dentro dos limites do parque nacional. Por exemplo, poderia ser instaurado um horário restrito para visitação, ou ingresso, ou tantas outras regras rígidas como se vê por aí. De tudo um pouco para exercer “controle” sobre a visitação. No final, provavelmente as regras, o custo do ingresso e a vigilância meio ecoxiita – Ei rapaz, deixe esse figo aí no chão, vai causar impacto ambiental sobre a fauna! – seriam suficientes para privar a liberdade mais pura e simples. Estava óbvio que aquele momento lúdico tinha grande valor para eles, sem que eles percebessem. Afinal, a gente só percebe o valor das coisas quando perde.
Eu mesmo há muito tempo não caminhava em um lugar tão pouco visitado, sem regras, sem restrições, sem ecochato pentelhando a vida de quem só quer curtir uma tarde na cachoeira. Graças ao Google Earth que expandiu meus horizontes! No final das contas, o que procurava nas imagens orbitais tão nítidas era apenas um lugar como esse, que fizesse valer o meu deslocamento da capital para o "mato fechado", algo de bom para se viver num sábado ensolarado de primavera.
